13 abril 2014

NANJING, A EX-CAPITAL DA CHINA

Por Claudia Liechavicius

Minha “maior” surpresa com Nanjing foi “literalmente” o seu tamanho. Cidade enorme. Muito espalhada. Avenidas largas. Prédios altíssimos e modernos. Muito trânsito. Muito verde. Muitos lagos. Não esperava encontrar isso tudo. Impossível trilhar a cidade caminhando como eu costumo fazer. Afinal, ela já foi diversas vezes capital da China. É uma cidade importante, apesar de ser pouco explorada pelo turismo ocidental. Ao redor dos séculos I e II foi capital de pequenos reinos regionais. Mais tarde, de 1368 a 1644, foi a capital da Dinastia Ming. Também foi capital do Reino Celestial de Taiping no século XIX e da primeira República da China sob as ordens de Sun Yat-sen, um político poderoso. Tem uma história vasta e um legado fantástico. Seu nome pode ser traduzido como “capital do sul” ao passo que Beijing é a  “capital do norte”.

 China é sempre sinônimo de multidão. 

Como qualquer cidade da China, Nanjing tem gente saindo pelo ladrão. Nada mais nada menos do que 10 milhões de habitantes. Então, é preciso estar preparado para grandes multidões nas ruas, nos parques, nos museus, nos ônibus ou no metrô. Os transportes públicos são abarrotados, especialmente na hora do rush. E, tem briga de foice para conseguir um táxi. Isso mesmo. Os táxis são muito poucos para dar conta de tanta gente. Melhor usar ônibus ou metrô já que não dá para flanar pela cidade sem o auxílio de um meio de transporte mais eficiente do que os pés, tendo em vista as distâncias enormes. Só na Montanha Púrpura caminhei 6 horas sem parar e não consegui conhecer tudo. A cidade tem muito chão. O preço do ônibus é ridículo: 1 yuan. E, do metrô não fica atrás: 2, 3 ou no máximo 4 yuan dependendo da distância percorrida. Super barato e cobre boa parte da cidade. No metrô é fácil comprar os bilhetes e as rotas são sinalizadas em inglês. Ufa. Alguma coisa tinha que ser compreensível.

E, por falar em comunicação, ninguém fala uma palavra além de mandarim e quando  arrisca algumas palavras em inglês não dá para entender quase nada, tal o sotaque. Mas, eles são simpáticos e fazem de tudo para agradar. Só que a boa vontade não basta. A comunicação realmente é uma grande barreira em Nanjing. Em Hong Kong, Macau, Pequim e Shanghai já se encontra mais gente falando inglês. São cidades mais cosmopolitas. O número de turistas ocidentais é maior. Eles inclusive já estão mais acostumados por lá com nossas feições do que os chineses de Nanjing.

Os ocidentais sempre na mira dos chineses.

Aliás, esse foi outro capítulo interessante da viagem. Como sou loira chamo muita atenção. Andando sozinha pela cidade quando eu menos esperava surgia uma câmera fotográfica mirando na minha direção. Isso quando não se formava uma cortina de fotógrafos ávidos por uma figura de traços diferentes para humanizar seus cliques nos cenários bucólicos dos parques. Então, quando eu menos esperava, já estava cercada de gente querendo me fotografar. Muito engraçado. Não sei se me enquadrava mais na categoria de ET ou de celebridade diante dos olhos amendoados dos chineses curiosos.

Cenários bucólicos não faltam em Nanjing. Esse é um dos tantos cantinhos do Sakura Garden.

Nanjing fica às margens do rio Yang-tsé-kiang e próxima a Montanha Púrpura. A cidade é linda. Tem cenários bucólicos. Parques belíssimos. Ruas repletas de plátanos e alamedas pontilhadas de cerejeiras que florescem no mês de março. Por sorte, fui brindada pela mãe natureza e presenciei o período de floração. Magnífico! Mais bonito impossível. As cerejeiras são uma celebração à vida. Elas renascem sempre na mesma época, depois do inverno, no mês de março e duram pouco, apenas uma semana. Por isso, simbolizam a renovação e a beleza efêmera. Quando caem formam um tapete de pétalas, totalmente poético.

Cerejeiras em flor. Um super espetáculo da natureza.

Para completar, Nanjing é cercada por uma grande muralha. Grande mesmo. Quando se pensa em uma cidade murada logo vem à cabeça um pequeno povoado medieval morando numa área protegida. Doce ilusão. Na China, tudo é grandioso. Os muros têm simplesmente 33 quilômetros de extensão e grande parte (ao redor de 75%) se mantém preservada cobrindo uma vasta área impossível de ser explorada a pé.

MONTANHA PÚRPURA

Um bom lugar para se começar a exploração da antiga capital chinesa é a Montanha Púrpura. Dizem que esse nome foi dado em função do colorido das pedras. Bem, eu não consegui observar esse colorido porque fiquei impactada mesmo foi com a beleza dos templos cercados por alamedas cobertas de cerejeiras em flor. Fui até lá de metrô. Sozinha. Muito fácil. Ao chegar na montanha dá para ir andando pelos caminhos sombreados do bosque ou tomar um trenzinho que leva às principais atrações: o Mausoléu de Sun Yat-sen, o complexo do Templo Linguu, o túmulo do primeiro imperador Ming e o jardim Sakura com belíssimas alamedas de cerejeiras. De todo modo, prepare-se para caminhar um bocado e subir muitas escadarias.

Sun Yat-sen comandou a primeira República da China. Foi um líder revolucionário e morreu em 1925. Seu mausoléu fica no alto de uma escadaria gigantesca de 392 degraus. É curioso porque têm telhas azuis em vez das tradicionais telhas amarelas dos imperadores. As cores azul e branca representam o Partido Nacionalista. Para a construção do mausoléu, ele fez um concurso para escolher o projeto do túmulo. O vencedor foi o arquiteto Y. C. Lu. O sarcófago fica embutido no piso. É de uma imponência imperial.

 Mausoléu de Sun Yat-sen, na Montanha Púrpura.

Relativamente perto do mausoléu, mas recomendo usar o trenzinho para encurtar a caminhada, fica o túmulo do primeiro imperador Ming, Xiao Ling. Sua construção data de 1405 e apesar de ter sido parcialmente destruído na Rebelião de Taiping no século XIX, boa parte ainda se mantém preservada. Muito interessante é a avenida que conduz ao túmulo, chamada de avenida sagrada, com enormes estátuas de pedras, de pares de animais. Essa avenida é acompanhada por um parque espetacular repleto de cerejeiras, o Sakura Park.

Tumba Ming.

Avenida Sagrada com enormes animais de pedra.

 Sakura Garden com as cerejeiras em flor.

Outra área que gostei de ter visitado na Montanha Púrpura foi a área cênica de Linguu onde fica o Templo de Linguu e o Pagode de Linguu. O pagode é impressionante com seus 8 andares. Foi construído em 1929 em memória aos soldados mortos em uma das tantas revoluções que houve por ali.

Pagode de Linguu.

Na montanha tem um teleférico que conduz até o cume para quem quer ver a cidade do alto. No entanto, havia muita neblina na cidade e optei por não me aventurar no meio da multidão de chineses que fazia fila para subir. Olhar a cidade do alto do Mausoléu de Sun Yat-sen já foi o suficiente.

TEMPLO DE CONFÚCIO

O confucionismo é uma das três linhas filosóficas chinesas. As outras duas são o budismo e o taoísmo. Confúcio foi um pensador e professor que falava muito sobre a importância da família e sobre a obrigação dos governantes de fazerem um trabalho baseado no bem e na honradez. Ele viveu de 551 a 479 a. C. Na época não foi muito valorizado. Depois de sua morte, seus discípulos divulgaram seus ensinamentos. Na China Imperial seus postulados se tornaram a filosofia da elite. Mais tarde, no período comunista foi considerado um pensamento reacionário vinculado à antiga aristocracia dominante. O Templo de Confúcio, em Nanjing, remonta ao século XI. É um templo relativamente simples. Ao redor dali, as ruas têm casas com beirais de pontas levantadas. A área é bastante turística. Tem muitas lojas que vendem produtos chineses e restaurantes com comida local. Fica às margens de um canal onde se pode tomar um barco para ir até a Porta Zhonghua, uma das quatro entradas da muralha.

Templo de Confúcio.

 Arredores do Templo de Confúcio
 Muitos turistas chineses circulam em torno do Templo de Confúcio. Ocidentais são raridade.

MUSEU DO MASSACRE DE NANJING

Esse museu é impressionante. Não tem como sair dali sem sentir raiva dos japoneses que atacaram os chineses em 1937, durante a Segunda Guerra Mundial, e permaneceram na cidade de Nanjing por seis meses cometendo atrocidades. Dizem que mais de 300 mil chineses foram mortos no incidente. Os japoneses ali permaneceram até 1945 quando se renderam e Nanjing voltou a ser a capital da China até o comunismo transferir a capital novamente para Beijing em 1949.

Museu do Massacre de Nanjing

Eles fazem questão de frisar o número de chineses mortos no massacre.

JIMING TEMPLE

Esse templo foi construído inicialmente em 557 na Dinastia Liang, mas foi destruído muitas vezes. Sua última reconstituição foi em 1387 durante a Dinastia Ming. É considerado o templo budista mais antigo de Nanjing. Fica bem perto do Lago Xuanwu, na parte mais central da cidade. A Alameda à sua frente é repleta de cerejeiras. Durante o período de floração, em marco, o astral do templo é mágico.

 Jiming Temple entre as cerejeiras em flor.

 Entrada principal do Jiming Temple.

 Os budistas em prece queimam incenso para ajudar nas orações.

LAGO XUANWU

Ao norte do Jiming Temple, mas numa distância que pode ser percorrida a pé fica o Lago Xuanwu cercado por uma parte da muralha Ming. O parque é enorme. Tem ao redor de 2,5 quilômetros de extensão. Dentro do lago há cinco pequenas ilhotas conectadas por pontes. No dia em que visitei o parque uma névoa cobria o lago e o cenário ficou marcado na minha lembrança como o mais bucólico de Nanjing. Muita água, cerejeiras em flor, barquinhos circulando pelo lago, crianças correndo pelo parque e aquela névoa densa. Inesquecível! Sugiro que a entrada seja feita pela Porta Xuanwu com seus três grandes arcos que acompanham o muro.

Lago Xuanwu e parte da muralha

Flores não faltam nos jardins chineses. Podem ser tulipas...

... ou cerejeiras.

Ao fundo, o Jiming Temple visto do lado de fora da muralha.

PALÁCIO PRESIDENCIAL

Esse palácio tem uma longa história. Fez parte das Dinastias Ming e Qing, além de ter abrigado o Gabinete do Presidente da República da China. Agora é um museu. Considerado o maior museu de História Moderna da China. Mas, o que mais me encantou foram suas áreas externas com jardins espetaculares. Segundo a filosofia taoísta a contemplação da natureza em meditação leva à iluminação. Com esse objetivo, os jardins chineses têm a tradição de combinar paisagem com serenidade. Assim, costumam mesclar quatro elementos básicos: pedras, água, plantas e construções. E, o resultado é espetacular.

 Nos jardins do Palácio Presidencial, pedras...

... água,...

... flores, e ...

 ... belas construções. 

COMO CHEGAR

Do Rio à China boa opção é ir de Emirates até Dubai (14 horas de voo) e de lá fazer outro voo até Pequim (mais 8 horas). De Pequim fica fácil chegar em qualquer outra cidade menor de avião ou de trem. No caso, fiz Pequim - Nanjing de avião em 1 hora e meia, de Air China. 

INDICAÇÃO DE HOTEL

Adorei o hotel Fairmont. Novíssimo. Quartos enormes com janelões de vidro. Super bem decorado. Banheiro moderno. Café da manhã excelente. Academia muito bem equipada. Spa de ambiente convidativo. Funcionários atenciosos. Aliás, muitos funcionários. A desvantagem é que o hotel fica um pouco fora do centro, ao sul da muralha, pertinho da estação de trem. Mas, fica a uma quadra da estação do metrô. Então, tudo fica resolvido. Pois, essa é a melhor forma de locomoção na cidade.

Hotel Fairmont Nanjing.

PARA CONCLUIR


A China sempre me fascina. Essa foi minha quinta vez nesse país gigantesco, que congrega mais de 20% da população mundial, faz fronteira com 14 países, tem uma cultura absolutamente peculiar, paisagens extremamente variadas, uma língua difícil de se entender e uma história riquíssima. Faz pouco tempo que suas fronteiras foram abertas aos estrangeiros. Sorte que hoje podemos entrar sem medo na China e desfrutar de uma cultura que ainda guarda tantos mistérios aos olhos ocidentais.

Nanjing, ou Nanquim, a “capital do sul” me encantou. Não esperava encontrar uma cidade tão grande e tão pouco explorada pelo turismo. Fiquei uma semana na cidade. Nesse período encontrei menos de meia dúzia de ocidentais pelas ruas. No metrô e nos parques eu era atração. Os chineses, mesmo sem conseguir se comunicar muito bem em outra língua, que não o mandarim ou dialetos locais, se mostraram muito solícitos para ajudar. Inclusive, saíam da sua rota para me levar até onde eu pretendia chegar. Trago boas lembranças. Especialmente, por ter visitado a cidade exatamente na semana de floração das cerejeiras. Fui brindada pelo acaso. Se é que existe acaso. Volto à China quantas vezes a vida me levar. Sempre feliz!



06 abril 2014

SANTIAGO DO CHILE

Por Claudia Liechavicius

Era 1990. Em plena ditadura. Ano em que Pinochet deixava o comando do país. Vi uma cidade atormentada. Insegura. Sofrida. Tensa. Mal tratada. Um povo oprimido. Guardas ostensivamente armados pelas esquinas. Andar pelas ruas era perigoso. À noite, nem pensar. Foi assim que conheci Santiago do Chile há exatos 24 anos. Nem é tanto tempo assim. Mas, as mudanças são gigantescas. O Chile agora é outro país. Forte. Moderno. Estável. Convidativo. Acolhedor.

Os economistas dizem que seu crescimento é superior à inflação. Que o nível de desemprego é muito baixo. Que a exportação de cobre é um ponto forte. E, que o país se beneficia por ser aberto ao comércio internacional, especialmente com a Ásia. Até aí tudo perfeito. Dá para ver que a economia vai de vento em popa.

 Skyline de Santiago

Que a cidade é moderna e que o país se recuperou da fase negra da ditadura já deu para perceber. No entanto, estive no país duas vezes nos últimos quatro meses, e nas duas vezes fui brindada por tremores de terra. Uma experiência um tanto assustadora para quem vive num país praticamente livre dos intempérios da mãe natureza. Claro que fiquei tensa, apesar de já ter experimentado tremores diários "discretos" na Costa Rica.

Da primeira vez, eu nem imaginava que isso pudesse acontecer. Fui surpreendida pelo azedume das entranhas da terra no meio do jantar. O restaurante Peumayen - onde eu estava no momento do incidente - fica em uma casa de dois andares, no bairro boêmio de Bellavista. De repente as garrafas, os copos, as mesas, as cortinas e os lustres começaram a balançar. Foi rápido e ninguém pareceu valorizar muito o acontecimento. Relaxei. Isso foi em outubro de 2013.

Já, da segunda vez, em março de 2014, eu estava dormindo. Meu quarto ficava no décimo oitavo andar do hotel. Acordei a 1:30 com o quarto todo balançando. Uma sensação horrível. Até alarme tocou. Fiquei bem assustada. Pois, ainda tinha todo o resto da noite e fiquei com receio de dormir novamente e a terra voltar a se manifestar. Na manhã seguinte, todos comentavam que o tremor tinha sido relativamente pequeno (4.8)  e que vinha do Pacífico. Porém, havia previsão de tremores mais intensos. Dois dias depois fui novamente despertada pelos caprichos da natureza. Dessa vez, às 7:30, com um tremor bem mais intenso e demorado. O quarto sacudia muito. Cabides balançavam no armário. O prédio todo se movimentava. Foi muito tenso. Resolvi aproveitar o momento e descer para o café da manhã. O que ouvi foi que o tremor tinha sido de 5.3 graus na Escala Richter e, que vinha da costa. A partir daí, todas as minhas noites foram levemente tensas, claro. Fiquei mais uma semana em Santiago esperando outro tremor, mas felizmente o dragão sossegou. Eu já nem ligava mais a televisão para não ouvir as reportagens que orientavam sobre o que fazer em caso de terremoto como posicionamento no interior das casas, estoque de alimentos e estratégias de evacuação. Nada agradável. Uma experiência bem marcante.

 Que tal trabalhar num prédio alto como esses sabendo dos riscos?

Isso me fez lembrar do terremoto devastador que atingiu a região em 2010. Mas, a gente nunca imagina que algo possa acontecer conosco. Por sorte foi só susto!

Fora a apreensão da terra voltar a tremer, retornar à Santiago depois de 24 anos foi uma bela surpresa. Na minha lembrança a cidade era insegura, suja e feia. Tanto que nunca tive interesse em voltar. E então, a vida me levou novamente à Santiago e mudou radicalmente minha visão. 

A cidade outrora pequena, cresceu e se espalhou. Nasceram bairros elegantes. Uma infinidade de bons restaurantes. Hotéis charmosos. Muito verde. E, um skyline de tirar o chapéu. Como podem ser tão ousados e construir prédios imensos num solo que insiste em tremer? 

O belo entardecer em Santiago do Chile.

É fácil entender porque o turismo na capital chilena vem crescendo tanto ultimamente. A cidade se estende ao longo do rio Mapocho com um belo projeto urbanístico. A economia é tocada com responsabilidade. E os sinais da modernidade são evidentes por todos os lados. Para explorar a cidade dá para sair caminhando pelas largas avenidas e parques ou dá para usar o metrô que cobre boa parte da cidade. Como o trânsito costuma ser bem pesado, mesmo que os taxis tenham preço razoável, é bom evitar os carros nos horários de rush. O metrô é limpo, seguro e até dá acesso a algumas vinícolas próximas de Santiago como a Concha y Toro e a Santa Carolina.

Uma visita rápida à Concha y Toro, de metrô. 

Como pano de fundo a cordilheira dos Andes, com seus picos nevados, se ergue imponente no horizonte de Santiago.

O modo como a cidade foi se organizando é uma verdadeira linha do tempo. Dá para perceber sua evolução. Centro, Lastarria e Bellavista são as regiões mais antigas, com ruas estreitas. Depois vem Providencia, um bairro bastante residencial mas também comercial que serve como passagem e nasceu nos anos 60. Logo acima vem a moderna Santiago representada pelos bairros de Vitacura e Las Condes. É aí que fica aquele skyline repleto de prédios imensos e modernos, hotéis excelentes, shoppings e uma infinidade de bons restaurantes. A elite chilena se concentra nessa parte da cidade.

Um dos tantos cantinhos charmosos da nova Santiago. Terraço do hotel Noi, em Vitacura

FLANANDO PELA CIDADE

A parte mais antiga de Santiago é o Centro com alguns prédios históricos como o Palácio de la Moneda (atual Palácio Presidencial) a Catedral Metropolitana, o Mercado Central e outros. O Museu Chileno de Arte Pré-Colombiana também fica no Centro e merece uma visita. Essa parte da cidade é mais velha e mais perigosa. Os próprios chilenos advertem aos turistas para tomarem cuidado com as bolsas e equipamentos fotográficos. No entanto, andei muito por lá sozinha, com minha câmera em punho e não tive nenhum sobressalto.

Palacio de la Moneda em festa. Casualmente, era o dia da troca presidencial.

Catedral Metroplolitana, na Plaza de Armas.

Barracas de peixe do Mercado Central. 

 A seguir, andando umas seis quadras acima do Centro vem o bairro de Lastarria com seus cafés, bares, restaurantes, ateliers, galerias de arte, lojas de design, museus e universidades. É um lugar descolado. Tido como o recanto mais cool de Santiago.

Em Lastarria adorei almoçar no Opera. O restaurante é elegante e tem uma "gallina trufada com risotto de chardonay" que é dos deuses. O prato é servido em duas etapas. Primeiro vem um consome feito com o caldo do cozimento do peito do frango e depois o frango com risotto. Maravilhoso. 

Ao sair do Opera ande alguns passos até a rua Monjitas e tome um café no The Clinic que fica bem pertinho e surpreende com sua veia política latente. Ambiente sinistro, sarcástico e culturalmente interessante.

The Clinic. Um lugar que não pode faltar numa caminhada por Lastarria.

Aproveite também para ir ao Museu de Belas Artes, o mais importante da cidade e ao Museu de Artes Visuais. 

Museu de Belas Artes.

Ainda em Lastarria indico o inusitado Bocanariz para um jantar regado a muitas taças de vinho. O restaurante tem um jeitão descontráido e ambiente animado. Serve vinhos por copos e a seleção é interminável. Difícil de escolher! Fica na rua José Victorino que tem vários cafés e restaurantes legais um ao lado do outro.

E, mais uma dica em Lastarria. Se quiser experimentar um cachorro quente chileno vá até a Salchicheria Hogs.

Como dá para perceber Lastarria é um bairro universitário, artístico e bem democrático. É cheio de lugares interessantes para se comer, tomar um bom vinho ou simplesmente um café.

Caminhando pelas ruas de Lastarria.

Na outra margem do rio Mapocho, na altura de Lastarria fica o bairro boêmio de Bellavista. A movimentada Calle Pio Nono é a principal rua da região, que é repleta de bares e restaurantes. No entanto, as ruas ao redor dela são mais tranquilas e têm restaurantes charmosos como o Peumayen com sua cozinha ancestral chilena e o turístico Como Água para Chocolate que serve um "congrio gratinado com creme espinafre" que fica gravado na memória para sempre.

Os bares de Bellavista são sempre movimentados.

Acima de Bellavista está o Cerro San Cristobal com a santa protetora da cidade, Virgem Maria. A subida pode ser feita de teleférico e o visual lá de cima é lindo, especialmente durante o por do sol.


Teleférico que conduz ao Cerro San Cristobal.

Estátua da Virgem Maria no alto do Cerro San Cristóbal.

E esse é o tal do Rico Mote. Um doce feito com pêssego em calda e uma espécie de canjica. É doce que é danado e bem popular naquelas bandas.

E, quando o dia começa a cair a cidade ganha cores lindas lá embaixo.

Para os fãs de Pablo Neruda não pode faltar uma visita à casa onde ele morou em Santiago - La Chascona. Era lá que ele se encontrava clandestinamente com sua amante Matilde. Hoje a casa foi transformada em um museu que abriga várias coleções desse grande poeta e político chileno.

Essa foi uma de suas três casas no Chile. As outras ficam em Isla Negra e Valparaíso.

La Chascona, casa de Pablo Neruda em Santiago.

Sala de jantar da La Chascona.

E, no meio do caminho, conectando a antiga Santiago com a nova Santiago, fica o bairro Providência. O bairro é residencial e também comercial. Os maiores atrativos dessa região são os bares e restaurantes. O Bar Liguria é um clássico que não pode faltar. A indicação foi feita pelo Claude Troisgros que tinha estado na cidade uns dias antes e adorou o clima descontraído tipo "Bar Lagoa" (os cariocas vão entender do que estou falando). Outro restaurante que indico é o Aqui está Coco. Fantástico para quem gosta de frutos do mar. Também em Providência fica o peruano badalado Astrid y Gastón. Mas, confesso que não gostei. O restaurante é velho com um astral decadente e a comida não é igual a do restaurante de Lima, que é ótimo. A cidade tem tantos bons restaurantes. Então, opte pelos melhores.

Aqui está Coco. Sempre cheio.

Acima de Providência vem a parte mais nova da cidade. Nada disso existia quando visitei Santiago há alguns anos. Levei um susto com a modernidade dos bairros Vitacura e Las Condes. Essa é a região nobre da cidade atualmente. Abriga os melhores hotéis (Noi, W, Hyatt, Radisson), grandes shoppings (Costanera Center, Alto Las Condes, Parque Arauco), bons restaurantes (especialmente nas ruas Isidora Goyenechea e Nueva Costanera) e muitas grifes de luxo acomodadas em casarões de dois pavimentos ao longo da Alonso de Córdoba.

Shopping Costanera Center.

Em Vitacura gostei muito do restaurante La Mar com seus excelentes ceviches. Também indico o Boragó para os aventureiros que queiram experimentar a cozinha chilena contemporânea. Para os naturebas, boa opção de almoço é no Quinoa. O restaurante é pequeno, vive lotado e todos os pratos são feitos com quinoa. Além desses também indico o contemporâneo Puerto Fuy, o italiano Da Carla, o aconchegante Osadia, e o descontraído Coquinaria. Isso é só para dar uma ideia da quantidade de bons restaurantes que há nessa região.

Como dá para perceber o ponto alto da cidade são os restaurantes e suas belas cartas de vinho chileno.

Se estiver com tempo visite o inusitado Museo da Moda e dê uma caminhada pelo Parque Bicentenário, que é o mais novo e ainda nem está totalmente pronto, ou num dos  tantos outros da cidade. A cidade é muito verde.  É interessante observar a quantidade de pessoas que praticam atividade física nos parques. Uns correm, outros andam de bicicleta, outros jogam bola. E, aqueles que estão num clima mais contemplativo e apaixonado namoram na grama. E como namoram. Em alguns momentos é preciso evitar de olhar para os casais para não constranger os pombinhos eufóricos.

Programe um dia para almoçar no restaurante Mestizo, no Parque Bicentenário. O restaurante é muito bom e a localização não poderia ser melhor.

Museo da Moda.

Observe a quantidade de casais namorando nos bancos e na grama do parque
Essa é uma marca registrada de Santiago.

Parque Bicentenário, um playground chileno.

Restaurante Mestizo, um oásis no Parque Bicentenário.

Flamingos no Parque Bicentenário.

DICA DELICIOSA PARA QUEM AMA DOCES

Se você é uma formiga assumida não deixe de comprar um Pastel Tres Leches na Galleteria Laura R. É a melhor torta Tres Leches do mundo. O problema é que só vendem uma torta enorme para 10 pessoas. Mas, leve para casa (ou para o hotel) e se deleite porque é dos deuses. Avenida Vitacura 3414. Telefone: 78254790

Pastel Tres Leches. Imperdível!

UM RESUMÃO DOS RESTAURANTES QUE EXPERIMENTEI

Sem a menor sombra de dúvida Santiago do Chile me conquistou pelo estômago. Apesar de ser uma cidade moderna, com um skyline imponente, museus interessantes e uma história recente bem densa, o que me vem à cabeça quando penso nas minhas duas últimas idas à Santiago são os restaurantes e os vinhos. Como experimentei vários restaurantes vou fazer uma lista de indicação para todos os paladares.

Para a galera natureba sugiro um almoço no Quinoa. Todos os pratos são a base de quinoa. Deliciosos. O ambiente acompanha o espírito da comida. Leve e com um jardim interno simpatico. Luis Pasteur 5393, Vitacura. Telefone: + 56 2 29540283. www.restaurantequinoa.cl

Outro que indico sem medo é o Como Água para Chocolate. Embora seja bastante turístico, o restaurante é descontraído, colorido, sempre animado e delicioso, no bairro boêmio de Bellavista. Sempre lembro com água na boca do Congrio gratinado com creme de espinafre, coberto com uma farofinha de amêndoas. Para quem gosta de sobremesa, eles servem a tal torta Tres Leches que é deliciosa, mas gigante e não tão molhadinha como a da Galleteria Laura R. que citei acima. Uma torta dá para 4 pessoas. Fica na Constituición, 88. Telefone: 56 2 7778740. www.comoaguaparachocolate.cl

Já o Peumayen é um restaurante bastante interessante, mas certamente não se adapta a todos os perfis. Tem um menu degustação de comida chilena ancestral. Vale a experiência. E, vou contar que a minha experiência foi muito especial, com direito a tremor de terra e de todo o restaurante. Inesquecível em todos os sentidos. Constituición, 136. Bairro Bellavista. Fica praticamente ao lado do Como Água para Chocolate. Reservas pelo telefone: +56 2 2247 3060.

Boragó. Praticamente na linha do Peumayen, no entanto com um toque contemporâneo. Foi uma indicação do Claude Troisgros que disse: “se preparem psicologicamente para uma super experiência gastronômica”. Peça o Menu degustacion. Vale experimentar. Nueva Costanera, 3467. Vitacura. www.borago.cl elefone: 56 2 2953 8893

Praticamente ao lado do Boragó tem outros dois simpáticos e mais básicos que não quiser muito extravagânica. O italiano Da Carla (Nueva Costanera 3673, telefone 56 2 2206 0892) e o Osadia com uma varanda aberta deliciosa para almoço ou um café (Nueva Costanera 3677, telefone: 56 2 2206 7553).

Na elegante avenida Alonso de Córdoba 2417 fica o Europeo. Ouvi que era um dos melhores da cidade. Mas, não saí de lá muito feliz. Nem triste. Simplesmente, nada de especial. Talvez mereça uma segunda chance. No entanto, a cidade tem tantos bons restaurantes que nem me interessei por voltar. Essa foi minha impressão. Telefone 56 2 2083603. www.europeo.cl

Aqui está Coco. É um restaurante de nome engraçado, mas super simpático. Ótimo para quem quer comer frutos do mar. Não dá para esquecer de pedir algum prato com a famosa “centolla”, um caranguejo enorme e muito saboroso. La Concepción 236, Providência. Telefone: 56 2 410 6200. www.aquiestacoco.cl

La Mar. Esse restaurante é uma das casas de Gaston Acurio, chef peruano badalado. No entanto, ouvi dizer que não é mais de Acurio. Fica a dúvida. O cardápio é o mesmo do restaurante de Lima. Tudo é bom e fresquíssimo. Também tem um La Mar em São Paulo que não é tão bom como o peruano e o chileno. Nueva Costanera 4076. Vitacura. Telefone: 56 22067839

Osaka. Restaurante oriental muito bom que fica dentro do hotel W. Excelente. Vale a experiência.

Coquinaria. Uma misutra de delicatessen com restaurante. Simpático para o almoço. Tem dois endereços, um deles embaixo do hotel W e outro na Alonso de Córdoba. Adorei a Tabla Chilena. Dica: o café é ruim. Então, saia do restaurante, suba as escadas (se estiver no da rua Isidora Goyenechea) e entre no Café Juan Valdez.

Bar Liguria. Essa foi outra indicação do Claude Troisgros. Parece muito com o Bar Lagoa, no Rio. As indicações dele foram o polvo e carne de panela. Tem 3 endereços. Gostei da casa que fica na Providencia. 

Para um almoço com visual incrível, no meio de muito verde indico o restaurante Mestizo. Delicioso e  no meio do Parque Bicentenário. Vale experimentar.

Em Lastarria não dá para esquecer o Opera com a deliciosa "gallina trufada com risotto de chardonay".  Telefone para reservas: 56 6643048. Ainda em Lastarria, para degustar bons vinhos tem que ir no Vinobar Bocanariz, com uma infinidade de vinhos vendidos por taça. Rua Jose Victorino 276. Telefone: 56 26389893.

Ao sair do Opera ande alguns passos até a rua Monjitas e tome um café no politicamente surpreendente bar The Clinic que fica bem pertinho. 

The Clinic bar e restaurante.

INDICAÇÃO DE MOTORISTAS

Héctor Naveas Alarcón. E-mail: hectornaveas@hotmail.com Telefone: +56 9 9221 8444. Ele é motorista do Hotel Sheraton, muito simpatico e faz tour privado para Santiago e arredores.

James Christie D., da Sintatur. Telefone: 56 9 851 18847. E-mail: james.christie.d@hotmail.com


Patricio Buccioni, da Viajes Tours. www.viajestours.cl Telefones: 56 2 741 1252 ou 56 9 9224 4457

É fácil encontrar um táxi em Santiago, mas há quem prefira contratar um motorista.

BONS HOTÉIS

NOI. Hotel charmoso, tranquilo, bem localizado, com excelente serviço. 

RADISSON. Em frente ao shopping Costanera Center. Boa localização. Quartos amplos e serviço atencioso.

HYATT. Um dos melhores da cidade e na parte mais nobre da cidade.

W. É um hotel mais agitado e badalado. É perfeito para quem quer movimento. Bem localizado. Tem excelentes restaurantes. 

Bar do Hotel W.


Santiago é a base perfeita para quem quer aproveitar as tantas possibilidade que o país oferece. Ao norte, com um voo de uma hora e meia se chega ao fascinante Deserto do Atacama. Se não quiser ir longe, Valparaíso e Viña del Mar ficam a apenas 100 quilômetros da capital. As vinícolas se espalham pelos arredores de Santiago num raio de 200 quilômetros. As montanhas dos Andes emolduram a cidade e convidam quem quer esquiar. Ao sul, está a gelada Patagônia Chilena. Permanecer em Santiago por 2 ou 3 dias é perfeito para dali continuar rumo ao destino final. Precisei ficar muitos dias na cidade. Então, circulei por todos os cantos e posso afirmar que fui fisgada pelo estômago. Não deixe de programar bons restaurantes quando visitar Santiago do Chile.

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