10 outubro 2014

MAIS UMA VEZ TÓQUIO

Por Claudia Liechavicius

Novamente no verão. Novamente em agosto. Essa foi minha segunda vez em Tóquio e por coincidência no período mais quente do ano. É a época em que a natureza se veste em muitos tons de verde. O calor úmido parece incomodar a população. Cada um carrega uma toalhinha para secar o rosto. Um povo caprichoso, delicado, gentil e educado. Que espera tranquilamente na fila do metrô, que fala baixinho, que conversa sorrindo, que adora ser convidado para posar na sua foto, que faz de tudo para ajudar mesmo com a dificuldade da língua, que agradece, pede licença, não joga lixo no chão e por aí vai.

Já deu para perceber que o Japão me arrebatou totalmente. Não tem como não ser cativado por essa gente simpática que fez um país sedimentado na tradição do passado, mas com o pé cravado no futuro. A alta tecnologia dos robôs convive em sintonia com templos budistas e santuários xintoístas milenares. Esse é o país dos bonsais, do karaokê, dos samurais, do sushi, dos mangás (quadrinhos japoneses), dos cosplayers (aqueles que se vestem interpretando seus personagens preferidos), das gueixas.

Meninas super charmosas e simpáticas passeiam pelas ruas de Ginza com seus trajes típicos.

Uma visita por essas terras garante uma experiência ímpar, especialmente se você aproveitar para se hospedar num ryokan, onde vai curtir um clássico banho japonês “onsen” em temperatura altíssima e dormir em futons montados no chão, à noite, no lugar exato em que havia uma mesa durante o dia preparada para a cerimônia do chá e  para um jantar kaiseki com iguarias fresquíssimas da estação.

E, não importa o período do ano para visitar o país. Pois, cada um tem seu charme e um colorido diferente. Como eu disse, no verão - de junho a agosto - predomina o verde. Já, na primavera - de março a maio - as cerejeiras floridas dão um toque suave e festivo, no outono – de setembro a novembro - as folhas assumem nuances de laranja e o inverno rigoroso nevado cobre tudo de branco entre dezembro e fevereiro. Uma festa para os olhos em qualquer que seja a época.

Os jardins do Museu Nacional de Tóquio ganham muitos tons de verde no verão

O Japão é um arquipélago formado por mais de três mil ilhas num cinturão de fogo que está sujeito a terremotos, vulcões e furacões. E, ainda assim, eles transformaram o país na terceira maior economia do mundo, com um elevadíssimo Índice de Desenvolvimento Humano. Como eles conseguiram isso? Com muita estratégia e disciplina. É um povo de estatura pequena e grande arquitetura mental.

SOBRE TÓQUIO

Tóquio é a capital do Japão desde 1868 (antes era Kyoto). Surgiu como uma vila de pescadores chamada de Edo e se tornou o centro de poder dos xoguns, em 1590. A cidade foi arrasada por um grande terremoto em 1923 e depois bombardeada na Segunda Guerra. Portanto, não espere encontrar muitos prédios antigos preservados. Pouca coisa sobrou intacta desse passado conturbado. Hoje a cidade é moderna, repleta de letreiros coloridos, com um dos melhores metrôs do mundo e conectada com todo o restante do país pelo shinkansen, o trem-bala. No meio disso tudo, ainda hoje, há a figura de um imperador.

A região central de Tóquio se espalha ao redor do que já foi o maior castelo do mundo. Ele foi construído pelo primeiro xogum, na era Edo e tinha vigilância constantemente de um grupo de 100 samurais. Mas, como quase tudo na cidade, ele foi destruído na Segunda Guerra. No seu lugar nasceu o Palácio Imperial onde atualmente mora a família imperial. O público só tem acesso às suas dependências duas vezes por ano: no Ano-Novo e no aniversário do imperador Akihito. Fora isso, o que se pode visitar é o parque ao seu redor, a ponte de pedra em arco duplo chamada de Ni-jubashi e o fosso cheio de água que circunda e protege sua entrada.

Ponte de acesso ao Palácio Imperial de Tóquio.

Ainda nos limites do parque fica o Museu Nacional de Arte Moderna e, no local que antigamente servia de quartel-general da guarda imperial, está a galeria de artesanato Crafts Gallery.

Fiquei hospedada nessa região da cidade. Optei pelo hotel Península que fica a uma quadra do Palácio Imperial, pertinho da estação de trem e a uma quadra das enormes placas luminosas do elegante bairro de Ginza. Recomendo totalmente. O serviço é impecável. Eles fazem de tudo para agradar e conseguem. Desde o café da manhã que é servido com uma delicadeza impressionante no saguão principal ao quarto espaçoso e muito bem decorado . O hotel tem um restaurante japonês especializado em tempurá que é dos deuses. Sentar no balcão e ver o chef preparando exclusivamente para você uma refeição tão fresca, em que até o camarão chega vivo, é uma benção.

Quarto do hotel Península de Tóquio.

Bem pertinho do Península fica o icônico Imperial Hotel. Ele é conhecido por oferecer uma ótima cerimônia do chá, chamada chanoyu, uma tradição japonesa milenar. Se tiver tempo e gostar de chá vale experimentar.

Outro hotel classudo que também fica nas redondezas do palácio, no bairro financeiro de Marunouchi, é o Shangri-la. Interessante que o hotel tem acesso direto à estação terminal do trem-bala de Tóquio. Ideal para quem vai sair direto com as malas para circular pelo país. O Sangri-La tem parceria com alguns dos ryokans mais luxuosos do Japão em Hakone, Atami e Karuizawa. Para quem quiser passar por essa experiência fica aí a dica de alguns locais interessantes. Não fiquei em nenhum deles, então não posso dizer como são. Vou contar no próximo post minha experiência no ryokan Hiiragiya, em Kyoto.

E, agora voltando ao sofisticado bairro de Ginza. Quando a capital do país mudou de Kyoto para Tóquio, em 1590, essa região era um pântano. Com o passar do tempo, foi sendo urbanizada e passou a congregar muitos comerciantes. Pelo fato de ter abrigado uma oficina de cunhagem de prata foi dado o nome de Ginza que significa “lugar de prata”. Hoje, o bairro é um dos cartões-postais da cidade com letreiros enormes e mega chamativos que sinalizam galerias, lojas de departamento e grifes famosas. O badalado restaurante de sushi Kyubei fica numa pequena travessa do bairro e merece uma reserva, que aliás é bem difícil de se conseguir. Garanta seu lugar antecipadamente.


Ginza.

Restaurante Kyubei.

Pertinho dali, não deixe de ir ao Mercado de Peixes de Tsukiji. É uma experiência divertida, além de deliciosa. Todas as manhãs, bem cedinho - menos aos domingos – acontecem os leilões de peixes, entre 5:30 e 8:00 horas (essa é a melhor hora). É gente que não acaba comprando produtos super frescos e limpos para abastecer seus estabelecimentos comerciais com frutos do mar. O atum é a grande estrela. Ao redor do local onde os peixes são negociados, uma legião de fãs de comida japonesa circula em busca de um lugar para comer o sushi e o sashimi tidos como os mais frescos do mundo. Alguns locais chegam a ter fila de espera de mais de 4 horas. Uma loucura. Mas, não espere luxo. É tudo muito simples e cercado de barracas que vendem porcelana, vegetais, peixes desidratados, cogumelos de todo tipo, biscoitos, chás... Numa das ruelas próxima ao mercado fica o singelo santuário Namiyoke Inari Jinja onde os pescadores e comerciantes fazem suas orações para ter segurança no mar e para garantir boas vendas. Simplesmente imperdível!

Mercado de Peixes de Tóquio. Simplicidade e qualidade

Muita gente espera por mais de 4 horas para degustar sushis e sashimis fresquíssimos.

Muitas lojinhas se espalham nos arredores do Mercado de Peixes de Tsukiji.

Do Mercado do Peixe dá para pegar o monorail e ir até Odaiba, o bairro avança sobre a baía e é conectado pela Ponte do Arco-Íris. As principais atrações são a enorme roda gigante, uma réplica da Estátua da Liberdade, uma praia artificial, o prédio da Fuji TV, as pirâmides invertidas do parque de exposições, shoppings e área de jogos eletrônicos.

Tóquio também tem duas torres. A Tokyo Sky Tree, de 2012, com 634 metros. E a Torre de Tóquio que é mais antiga e imita a Torre Eiffel, porém vermelha e com 333 metros. Vale subir nos seus observatórios, o primeiro a 150 e o segundo a 250 metros, para ver a cidade do alto. Ela fica no Parque Shiba que era o cemitério da família de um xogum e onde também está o templo Zojo-ji

E, por falar em templos há muitos para se visitar na cidade. Mas, quase todos foram refeitos depois de incêndios, terremotos e bombardeios. Os dois mais visitados são o  Senso-ji e o Meiji.

O santuário Meiji é xantoísta e o mais importante da religião em Tóquio. Depois de passar pelo torii de entrada, o portão xintoísta que sinaliza a entrada do santuário, percorre-se uma avenida de cedros. Em japonês, shinto significa “o caminho dos deuses”. Essa é a religião nativa do Japão. Tem como centro as divindades Kami que regem todas as coisas da natureza. Nos santuários há sempre locais onde tábuas votivas e talismãs chamados de “omamori” são pendurados para trazer sorte nas provas escolares, no trabalho, na família, nos relacionamentos, para garantir fertilidade e até para trazer proteção no trânsito. Interessante ver o ritual feito pelos fiéis. Eles puxam a corda de um sino para chamar os deuses, jogam moedas em uma caixa de madeira, batem palmas duas vezes, se curvam, batem palmas mais uma vez e iniciam uma oração. Um lindo ritual.

 Casal em momento de oração em templo xintoísta

Já, o Senso-ji é o maior e mais sagrado templo budista de Tóquio. Ele cultua uma estatueta de ouro de 7 cm de Kannon, deusa da Misericórdia, que foi encontrada no rio Sumida e está no Pavilhão Principal. O complexo também foi refeito recentemente, os bombardeios realmente detonaram a cidade. Fica no bairro de Asakusa. Fácil de chegar de metrô. Opte por ir bem cedo para evitar a multidão. Aproveite o jet lag de 12 horas que não vai deixar você dormir até tarde.

Templo Senso-ji.

Um parque que merece a visita é o Ueno. Ele fica na parte norte da cidade. É enorme. Surgiu no século XVII ao redor do templo Kanei-ji construído por um xogum para evitar a ação dos maus espíritos. Hoje é uma área pública muito frequentada pelos moradores da cidade. O parque tem um lago com pedalinhos, outro repleto de flores de lótus, um zoológico, um pagode de 5 andares e ainda tem uma parte do templo kanei-ji. Mas, a grande estrela é o belíssimo santuário Tosho-gu, uma das raras construções remanescentes do período Edo, cercado por 200 lanternas de pedra e 48 de bronze. Além disso, o parque Ueno ainda tem dois museus: o Museu Nacional de Ciências e o Museu Nacional de Tóquio. Visitei apenas o Museu Nacional de Tóquio que tem esculturas budistas lindas e uma coleção interessante de armaduras japonesas, trajes tradicionais e utensílios de chá. O ingresso custa 620 yens.

Santuário Tosho-gu, Ueno Park, Tóquio.

Lanternas na entrada do santuário Tosho-gu.

Ueno Parque e seu  jardim repleto de flores de lótus.


No budismo, a flor de lótus simboliza a pureza do corpo e elevação espiritual. Diz a lenda que quando Buda deu os primeiros passos desabrocharam flores de lótus nos lugares onde ele pisou. A maior parte das divindades das religiões asiáticas costuma estar sentada sobre uma flor de lótus durante a meditação.

Uma das tantas estátuas de Buda do Museu Nacional de Tóquio.

A cidade é realmente enorme. Andar de carro é complicado porque o trânsito é pesado. Em compensação, o metrô é super fácil e conecta a cidade todinha. Compre um bilhete diário para poder subir e descer onde quiser. Tem várias opções de bilhetes para um dia ou mais, apenas para metrô ou conjugado com monorail e ônibus. Isso agiliza a movimentação.

Outros bairros que não podem ficar de fora são os vizinhos Shinjuku, Shibuya, Harajuku e Roppongi, do lado oeste de Tóquio. Eles formam a parte mais nova da cidade. São cheios de agitação, divertimento, vida noturna e gente jovem.

Shibuya tem centenas de letreiros coloridos chamando, durante o dia, para as tantas lojas de departamento, galerias de arte e, à noite, quando as luzes de néon se acendem, o ar boêmio toma conta. Os salões de pachinko, máquinas de jogos tipo fliperama populares no Japão, se enchem de gente. Uma estátua curiosa no bairro é a de um cachorro chamado Hachiko que ficou por 10 anos esperando seu dono na frente da estação de trem depois de sua morte. Por coincidência, assim que cheguei no hotel o filme baseado nessa história real estava sendo anunciado. Assisti e chorei muito. É triste e lindo. Uma lição sobre lealdade e companheirismo.

Entre os letreiros de Shibuya.

Já, o bairro de Shinjuku ostenta prédios altíssimos e modernos. A maioria de escritórios e hotéis. Com a possibilidade de haver terremotos na cidade é muita coragem construírem tantos arranha-céus. Mas, à leste do bairro também tem uma área que ferve durante a noite com cinemas que exibem os últimos lançamentos ao lado de casas de strip-tease e clubes de jazz.

Roppongi é um bairro repleto de shoppings, restaurantes e é também, um centro dedicado à música. Música combina com noite. Então, dizem que essa região é famosa pelas noites agitadas e bares em estilo ocidental. Dois complexos enormes com shoppings, restaurantes, parques, hotéis e até museu são o Tokyo Midtown e o Roppongi Hills. Para quem não dispensa a cozinha francesa, no shopping Roppongi Hills, Joel Robuchon tem dois restaurantes: o L’Atelier e o La Boutique. Além disso,  tem várias lojas de grifes francesas, inglesas, italianas e americanas: Louis Vuitton, Diesel, Burberry, Banana Republic...

Para fugir do convencional circule por Harajuku. O bairro é considerado um centro de moda e frequentado por jovens exóticos no modo de se vestir. Isso é bem comum no Japão. Eles têm muita personalidade e nenhum constrangimento em chamar atenção com sua extravagância.

Nessa região do lado oeste da cidade vale ainda ir ao Museu de Arte Memorial Ota, ao Museu de Arte Togui, ao Museu de Arte Contemporânea, ao Parque Yoyogi e ao santuário xintoísta Meiji.

Quem gosta de produtos eletrônicos não pode deixar de fora o bairro de Akihabara. É de enlouquecer. O único problema são as etiquetas todas escritas em japonês. Eu fiquei zonza com tanta oferta. Contam por aqui que o mercado nasceu de uma maneira muito interessante. Durante a Segunda Guerra, o exército japonês queria vender a sobra de seus equipamentos e passou a usar esse local, no meio dos escombros para negociar com os estudantes das universidades vizinhas. E, dali em diante, só cresceu. Agora, impressiona. São prédios e mais prédios oferecendo tudo o que se possa imaginar de eletrônicos. Mesmo que não tenha interesse em comprar nada, vale a pena pelo menos dar uma caminhada por ali.

Akihabara tem muita oferta de eletrônicos, mas os preços não são muito camaradas.

Para quem viaja com os filhos vale a pena reservar um dia para a diversão na Tokyo Disneyland ou na Tokyo Sea, os dois parques temáticos da Disney na cidade.

OUTRAS INFORMAÇÕES

Moeda: yen

Fuso horário: 12 horas à frente do Brasil.

Visto: é necessário ter visto emitido pelo Consulado do Japão para entrar no país.

Para dirigir: os carros têm mão inglesa.

Língua: japonês. Muita gente fala inglês. Mas, é bem difícil entender a maneira como eles falam, pois não conseguem pronunciar o “l”. Isso dificulta a compreensão. No entanto, eles são muito educados e se esforçam para ajudar.

Higiene e segurança: são pontos altos do país. As cidades de modo geral e a comida são limpíssimas. Dá para comer em qualquer lugar sem receio de ter uma infecção intestinal. E quanto à segurança o país é impecável. Você pode entrar num taxi e relaxar, pois sabe que o motorista tem grande chance de ser honesto. Claro que há exceções em qualquer lugar do mundo.

Indicação de hotéis: Península, Shangri-La, Intercontinental.

Indicação de restaurantes dada por uma amiga que morou em Tóquio muitos anos:

De preço bem razoável: 

Em Shibuya, há ótimos izakayas. Um deles fica no último andar (11o.) do prédio da loja de eletrônicos BIC CAMERA. Chama-se EN e é uma delícia. Prove o smoked salmon and avocado roll e os pratos com tofu. Mas tudo é bom.

Nessa linha de izakaya, também tem o Gonpachi, o restaurante que serviu de inspiração para a cena da luta do Kill Bill.http://www.gonpachi.jp/en/casual/home/index

Mais caros:

Um sushi muito bom e tradicional é o Kyubei, em Ginza. Esse tem que reservar. http://www.bento.com/rev/2285.html

O Beige, do Alain Ducasse, no último andar da Chanel é uma delícia. Fica em Ginza.

Para tempura, um ex-ce-len-te é o Kondoh (1 estrela Michelin). Muito bom, com ingredientes fresquíssimos, tudo muito saboroso e sem cheiro de gordura! Fica em Ginza também. Tem que reservar. 
9th floor, Saka-gouchi Building,
in Namiki - Dohri(street),
5 - 5 - 13, Ginza, Chou-oh-Kou, Tokio.
Tel: 03 - 55.68.09.23.

Pizza. A melhor que eu já comi na vida é no Savoy, em Azabu Juban, pertinho de Roppongi. http://www.cnngo.com/tokyo/eat/4-best-pizzas-tokyo-778734

Bons e baratos:

Se estiver na região de Omotesando, vá ao restaurante de Gyoza mais conhecido da cidade. Não tem nome. Fica numa vielinha, perto do Kiddy Land. Todo mundo conhece. Tem fila no inverno. É uma delícia, o frito e o cozido. Peça também a salada de pepino e a porção de carne moída com moyashi. E bem ao lado dele há um asiático muuuuuuuito bom de comida do Sudeste Asiático. Esses dois restaurante são muito bons e baratos para os padrões de Tóquio.



Tóquio é isso tudo. Uma cidade enorme, limpíssima e muito segura. Conhecida pelo astral futurista mesclado com um passado de tradições fortes. Com ruas repletas de néons multicoloridos onde jovens de muita personalidade desfilam vestidos de maneira peculiar. Tem jardins lindos sempre ornamentados com bonsais. Um metrô super fácil e que conecta cada centímetro da cidade. Além disso, tem cerimônia do chá, karaokê, tecnologia de ponta, gueixas, carros de mão inglesa e mangás. Mas, sem sombra de dúvida, o que mais me cativa na capital do Japão é a culinária! Simplesmente dos deuses. Não é à toa que a cidade vem ganhando há sete anos a classificação máxima no Guia Michelin em número de restaurantes estrelados. Entre eles estão o Sushi Mizutani e o Sushi Yoshitake. Pena que não tive tempo hábil para provar tudo o que pretendia em Toquio. Já preciso programar a próxima!

10 setembro 2014

A VELHA KYOTO

Por Claudia Liechavicius

Caminhar por Kyoto significa circular por muitos séculos da história do Japão. Fundada no século I, a cidade foi a capital da corte imperial até ser substituída por Tóquio, em 1868. Além disso, também foi o centro da religião, dos samurais, das gueixas, da música, da dança e do teatro japonês. Por sorte, foi poupada dos bombardeios da Segunda Guerra Mundial.

Dizem que mantém intacto ao redor de 20% dos tesouros nacionais do Japão, incluindo mais de 1.700 templos budistas e 300 santuários xintoístas. Todos esses tesouros estão espalhados pelos arredores da cidade e com um olhar atento é possível mergulhar de cabeça no passado. Digo com um olhar atento porque Kyoto não é uma cidade de beleza aparente. Não é fácil de ser explorada. O centro da cidade, em si, não tem grandes encantos. Pra falar bem a verdade, não é uma cidade bonita. Os lugares interessantes ficam distantes uns dos outros e cada um deles engloba um contorno específico característico da herança feudal.

Dá para passar um fim de semana, um mês ou um ano explorando a grande quantidade de palácios, jardins zen, templos, santuários, parques e também cabe incluir aqui os restaurantes, já que a tradição da culinária local é fortíssima. De modo geral, as pessoas costumam ficar entre 3 e 5 dias em Kyoto. É preciso tomar taxi, metrô, trem, ônibus, caminhar bastante ou alugar carro para dar conta das distâncias. E, por outro lado, gente não falta. Todos os locais são sempre lotados de turistas. Afinal, o turismo é a grande base da economia de Kyoto. O legado é maravilhoso e realmente merece ser visto por muita gente. 


Templo de Kiyomizu sempre abarrotado de gente.

Em Kyoto optei por ficar hospedada em um ryokan para mergulhar na tradição japonesa. Fiquei as quatro noites no mesmo hotel dormindo em futons, tomando banho "onsen" (numa banheira de madeira), sendo servida por uma gueixa designada para me atender e isso prendeu um pouco o ritmo da viagem. O ryokan escolhido foi o Hiiragiya. Excelente, se a hospedagem for na ala nova. O ponto é bem central e fácil de circular a pé pelo centro antigo. Mas, como o hotel oferece café da manhã e jantar servidos com toda a tradição local, as refeições tomavam muito tempo e não tive a chance de experimentar muitos outros restaurantes. No próximo post vou falar sobre a experiência de um ryokan.

FICA A DICA: Minha sugestão é ficar hospedado em um ryokan apenas uma noite para ter essa vivência (foi o que vi várias pessoas fazendo por lá) e as demais noites em hotéis de cadeias ocidentais, uma vez que os ryokans são caríssimos e você não vai querer desperdiçar o que lhe é oferecido ali com tanta pompa e circunstância.

 Hiiragiya Riokan. Numa casa muito antiga e tradicional do centro antigo de Kyoto.

 Assim, os dias começavam cedo com o café da manhã sendo servido as 7 horas. Depois disso era hora de circular pelos templos. Dois ou três de manhã, pausa para o almoço e mais dois ou três de tarde. O horário da maioria deles é até as 16: 00 ou 17:00 horas. No final do dia, a ordem era circular um pouquinho pela cidade para depois jantar ou vice-versa.

É fácil pular de templo em templo, perder o foco dos principais, misturar tudo na cabeça e fazer uma confusão danada. Pois, são muitos. No entanto, alguns são imperdíveis e ficam guardados na memória para sempre. Por isso, é preciso fazer um roteiro cuidadoso estabelecendo prioridades para o tempo que se tem disponível.

PRINCIPAIS TEMPLOS E SANTUÁRIOS DE KYOTO

TEMPLO TENRYU-JI DE ARASHIYAMA E A FLORESTA DE BAMBU

Como a distância entre as principais atrações é grande, nem todo mundo tem a chance de conhecer essa região maravilhosa que é mais rural e aos pés de uma montanha. Eu tinha visto algumas fotos da Floresta de Bambu que circunda o templo de Tenryu-ji e fiquei curiosa para ver de perto. Um lugar que parecia mágico e misterioso pelas fotos. E, realmente, era isso tudo. Fiquei apaixonada pelo que vi. Caminhos estreitos se estendem entre o silêncio dos bambuzais que só é perturbado pelo vento.

Meninas sempre sorridentes vestindo seus quimonos circulam entre os bambus de Kyoto.

Floresta de Bambu.


 Cenas da Floresta de Bambu, Arashiyama, Kyoto.

No meio do bambuzal fica o templo Tenryu-ji, cujo nome significa "templo do dragão celestial", foi construído no século XIV sobre o local onde havia existido o primeiro templo zen japonês. O templo faz parte de um complexo formado por muitos pavilhões e casas de um vilarejo, sendo que a maior parte das construções foi destruída em incêndios e guerras. Hoje, é considerado o primeiro no ranking dos cinco maiores templos zen-budistas de Kyoto. Tem um dos jardins zen mais importantes da região. Ele foi construído no formato de um símbolo da escrita japonesa chamado de Kokoro que significa "coração iluminado". É considerado Patrimônio Cultural da Humanidade.

Templo Tenryu-ji e seus jardins impecáveis.

Interior do templo Tenryu-ji.

Em meio aos jardins repletos de bonsais, outro pavilhão do templo Tenryu-ji.

A rua que conduz ao templo é repleta de casas muito antigas chamadas de machiya - que eram as residências dos comerciantes nos tempos feudais. Hoje, suas fachadas são preservadas pela UNESCO e algumas foram transformadas em lojas e restaurantes. A rua é belíssima. Dá vontade de parar na frente de cada casa e ficar horas olhando atentamente os detalhes.

Rua de casas antigas que conduz ao templo Tenryu-ji, em Kyoto.

A maneira mais fácil de chegar é de trem. O templo fica à oeste do centro e se chega em meia hora. A estação é cercada de ruas simpáticas cheias de lojas com produtos muitas vezes indecifráveis, artesanato local e sorveterias especializadas em sabores estranhos como feijão e chá verde.

Muito comum encontrar meninas em trajes típicos circulando por Kyoto. 
Essa foto foi tirada na estação de trem de Arashiyama.

O templo fica aberto diariamente das 8:30 as 17:00 hs. O valor da entrada é de 500 yens + 100 para visitar o interior do templo. Não deixe de ir.

DICA PARA AGILIZAR OS DESLOCAMENTOS: No segundo dia contratei um motorista e consegui a proeza de visitar vários locais maravilhosos com o padrão da gentileza nipônica e ainda recebi explicações em inglês. Mas, o preço foi salgado: 300 dólares para 6 horas. Ainda assim, com o calor do verão japonês valeu muito a pena. Deu tempo até para almoçar num restaurante bem tradicional, o Tankit, com direito a culinária washoku (comida tipicamente japonesa feita com os ingredientes da estação). Nesse dia visitei seis locais belíssimos:
  • Santuário xintoísta Kitano Tenman-gu
  • Pavilhão Dourado do Templo de Kinkakuji 
  • Templo  Ryoanji e seus jardins
  • Templo de Ninna-ji
  • Templo Sanjusangen-do (impressionante)
  • Templo Kiyomizu-dera

SANTUÁRIO XINTOÍSTA KITANO-TENMANGU

Esse santuário não é muito turístico. Foi uma sugestão do motorista e eu diria que foi uma experiência fantástica, principalmente pelas explicações recebidas. O local é frequentado pela população local, especialmente por estudantes ávidos por conseguirem boas notas e aprovação nos exames escolares. O santuário cultua Tenjin-san, a divindade do aprendizado. Entre árvores enormes, é possível caminhar calmamente à sombra, numa paz e num silêncio espetaculares.

Santuário Kitano-Tenmangu.

Descobri ali que os japoneses têm um enfoque prático e politeísta sobre religião. Usam-na como instrumento para solicitar aos deuses que concedam sucesso nos negócios, aprovação nas provas escolares, felicidade nos relacionamentos, harmonia em família, recuperação de doenças e até mesmo proteção ao dirigir. Templos budistas e santuários xintoístas convivem lado a lado em total sintonia.

O xintoísmo é a religião mais antiga do Japão. O termo "shinto" significa caminho dos deuses. Tem como conceito central as divindades Kami que regem todas as coisas da natureza. Os Kamis podem ser deuses maiores ou menores e são adorados em milhares de jinjas (altares) que têm o tamanho de sua grandeza. Por isso, num mesmo santuário há altares de diversos tamanhos dedicados à diferentes divindades. Alguns são guardados por raposas, outros por vacas, por cachorros, por estátuas em forma de falo... 

Altares maiores demonstram a grandeza das divindades que representam. 

Repare nos barris de saquê usados como oferenda. 
O saquê representa a pureza por ser um líquido transparente e cristalino.

A área principal e central de um santuário se chama honden e ali somente é permitida a entrada do sacerdote. O local onde se pode orar é o haiden, ou seja, o salão de culto. Os fiéis ficam em pé em frente ao salão haiden puxam a corda de um sino para deixar os deuses em alerta, oferecem dinheiro em uma caixa, batem palmas duas vezes, se curvam, batem palmas outra vez e então fazem sua oração. É um ritual interessante de se observar.  

 Momento de oração no santuário Kitano-Tenmangu, Kyoto.

Para se reconhecer um santuário xintoísta basta encontrar um torii que é um portão que marca a entrada do recinto sagrado. Alguns são feitos em madeira natural, outros são pintados de vermelho, mas sempre tem dois varões no alto.


Torri demarcando a entrada de um templo xintoísta.

Essa visita poderia ter sido feita à qualquer outro santuário xintoísta de Kyoto. Afinal, são mais de 300 na cidade. O diferencial foi a vivência de circular por ali com uma pessoa que faz parte daquele contexto no dia-a-dia. Essa interação é o que faz a viagem valer a pena. Conhecer pessoas, mergulhar em mundos paralelos e absorver um pouquinho da cultura local é fascinante.

TEMPLO DE KINKAKU-JI

O templo zen budista Kinkaku-ji também conhecido como Pavilhão Dourado é um legado medieval inacreditável. Ele faz parte de um complexo de prédios chamado de Rokuon-ji construído pelo terceiro xogum do período Muromachi, Ashikaga Yoshimitsu. Ele abriu mão de seus deveres oficiais para se dedicar ao sacerdócio, aos 37 anos. (Xoguns eram comandantes do exército designados pelo imperador.) No entanto, ele não abriu não de seu poder e o Pavilhão Dourado passou a ser a ser sua moradia. O local, comprado por ele, antes era um simples vilarejo.

Pavilhão Dourado, do templo Kinkaku-ji, Kyoto.

Ao morrer, ele determinou que todo o complexo deveria se tornar parte do templo porque os jardins e prédios ocupavam o que chamava de "A Terra Pura de Buddha".

Desde 1994 é considerado Patrimônio Cultural da Humanidade.

A foto com o reflexo do Pavilhão Dourado no lago é um dos cartões-postais de Kyoto.

Como era comum na época, o Pavilhão Dourado foi destruído por um incêndio em 1950 e por sorte refeito, pois sua beleza é estonteante. Cada um dos três andares foi construído num estilo diferente. O primeiro representa a aristocracia imperial do século XI e é branco, diferente dos demais até na cor. O segundo, em estilo bukke, reverencia a aristocracia militar (muito usado nos castelos dos samurais) e o terceiro é zen budista. As paredes do segundo e terceiro andares do templo são cobertas por placas folheadas à ouro. O brilho intenso chega a ofuscar os olhos e com a neblina constante do verão fica até difícil fotografar. Em cima, uma fênix de bronze guarda o templo sagrado.

A fênix de bronze é um dos motivos de tantos olhares ao Pavilhão Dourado.

O complexo é todo cercado por jardins muito bem cuidados e ainda conta com um lago, Kyoko-chi. O projeto paisagístico é muito harmonioso. No trajeto de saída, observe o pequeno templo Fudo Hall, a Cadeira do Samurai e a Casa de Chá Sekkatei.

A água é um dos elementos fundamentais num jardim zen budista.

Esse é um dos templos mais visitados de Kyoto. Vive abarrotado de turistas. O valor da entrada para adultos é de 400 yens. Vale a pena chegar cedo. Mas, é um pouco longe do centro. De carro leva pouco mais de 30 minutos. Metrô e ônibus também conduzem até o templo e levam em torno de 40 minutos.

TEMPLO RYOAN-JI 

A fama maior desse templo, construído em 1450 na casa de campo do clã Tokudaiji, é o jardim de pedras em estilo Karesansui. Muito peculiar. O chão é todo trabalhado em cascalho branco com o esmero que apenas os japoneses conseguem. Sobre ele há 15 pedras ornamentais organizadas em cinco contextos de 4, 3 ou 2 pedras cercadas por musgos. É uma marca registrada do zen-budismo.

Jardim de pedras zen-budista do templo Ryoan-ji.

O jardim em si é relativamente simples e bem pequeno. Mede 30 metros de comprimento por 10 de largura. Não tem árvores nem arbustos. Apenas cascalho, pedras e musgo. Muito se fala por lá sobre o significado da posição das pedras e seus mistérios. O que ouvi do motorista que se tornou "guia" ao acaso é que o jardim tem 15 pedras arrumadas de modo que só 14 delas possam ser vistas a partir de qualquer ângulo em que se olhe. Reza a lenda que somente aqueles que já atingiram a iluminação espiritual são capazes de ver a última pedra, com o terceiro olho. Isso faz parte da filosofia zen. Muita gente fica ali sentada no chão em volta do jardim meditando, buscando a iluminação e contemplando os mistérios divinos.

Difícil é conseguir um lugar para sentar no jardim do templo Ryoan-ji.

O jardim de pedras é pequeno, mas é a grande estrela apesar de haver outro jardim enorme, ao redor do Lago Kyoyochi repleto de patinhos mandarins, toriis, pontes e cachoeiras. Desde 1994, o templo Ryoan-ji é considerado Patrimônio Cultural da Humanidade.

Pelas trilhas ao redor do Lago Kyoyochi, Kyoto.


TEMPLO NINNA-JI

Esse não é definitivamente um dos lugares mais visitados de Kyoto. Seu charme está exatamente aí. É discreto apesar de já ter sido um grandioso complexo formado por mais de 60 templos, muitos dos quais foram destruídos em incêndios. Guarda memórias preciosas da seita Shingon que é uma das maiores escolas budistas japonesas, descendente do budismo tibetano. 

Portão principal do templo Ninna-ji.

O templo de Ninna-ji foi construído pelo imperador Uda, em 888, inicialmente com a função de ser o palácio residencial. Mais tarde passou a abrigar uma importante escola budista. Hoje é protegido pela UNESCO e considerado Patrimônio Cultural da Humanidade. 

O complexo ocupa uma área muito vasta que para ser totalmente percorrida precisa de mais de uma hora. Eu me detive apenas na ala central onde estão o Salão Principal, o pagode de cinco andares, um dos portões de entrada, um jardim do período Edo, alguns pequenos templos e muitas estátuas budistas. Se tiver com bastante tempo para explorar Kyoto vale incluir no programa. Caso a viagem seja corrida há outros locais mais interessantes.

 Pagode do templo Ninna-ji.


Pequeno templo do complexo de Ninna-ji.

 Salão Principal da Escola Omuro de Budismo Shingon. 

Uma das estátuas budistas que podem ser vistas nos jardins do templo Ninna-ji.

TEMPLO SANJUSANGEN-DO

Se eu tivesse que eleger o templo que mais me impressionou em Kyoto, certamente escolheria o Sanjusangen-do. Fiquei hipnotizada ao entrar no templo e me deparar com o imenso salão central repleto de imagens praticamente idênticas de Kannon, milimetricamente alinhadas. Não conseguia andar. Fiquei perplexa. Parada. Olhando deslumbrada. É realmente impressionante. Pena que não possa ser fotografado. Então, usei duas fotos da internet para ilustrar. Mas, nada se compara à sensação de estar ali presente. É um daqueles lugares mágicos de onde você não tem vontade de ir embora tal a energia. Dizem que ele tem efeito quase-alucinante nos visitantes. Concordo plenamente.

Templo Sanjusangen-do. 
Foto de Michel Michán.

 Templo de Sanjusangen-do
www.burgessbroadcast.org/japan/sanjusangendo.htm

Kannon é a deusa da misericórdia, da compaixão, da piedade. Ela ouve os lamentos de todos os seres e é venerada em vários países da Ásia. Ela está para a Oriente assim como Maria está para o Ocidente. A imagem central e principal foi talhada em 1254, por um artista chamado Tankei, aos 82 anos. A riqueza de detalhes impressiona. Sobre a cabeça da deusa há outras dez cabeças e inclusive uma miniatura de Buddah. A partir dessa imagem central há outras 1.000 ocupando o vasto salão. Enormes, todas iguais esculpidas em cipreste japonês. Porém, foram feitas por artistas diferentes e cada uma delas têm sua individualidade. É de arrepiar. Além das 1001 estátuas de Kannon há outras 28 imagens alinhadas na frente delas como guardiãs.

Por outro lado, o salão que abriga as 1001 estátuas de Kannon, é a estrutura mais longa do mundo e foi construído em 1164. Tem 120 metros e 33 espaços entre as colunas de sustentação. O nome do templo vem daí. Sanjusangen-do significa "hall com 33 espaços entre colunas".

O valor do ingresso é 600 yens. Absolutamente imperdível.

Jardim do Templo Sanjusangen-do.

TEMPLO KIYOMIZU-DERA

Esse imponente templo budista é o segundo mais antigo de Kyoto. Ele recebe peregrinos de várias seitas que vem oferecer suas orações à deusa Kannon há mais de mil anos.

Antigamente, os peregrinos faziam um estranho e macabro ritual. Eles se jogavam da varanda principal do templo ao fazer uma promessa. Aqueles que sobrevivessem à queda teriam seus pedidos realizados. Bem estranho. Hoje, claro que isso não é mais permitido.

O templo recebe diariamente uma grande legião de visitantes. É um dos mais lotados de Kyoto. Ele faz parte dos Monumentos Históricos da Antiga Kyoto e é protegido pela UNESCO. Além disso, em 2007, foi votado pelos japoneses para concorrer como uma das Novas Maravilhas do Mundo Moderno. Foi selecionado entre os 21 finalistas, mas não ficou entre os sete locais escolhidos.

Sua localização é privilegiada à beira de uma encosta e próxima de uma queda d'água. Seu nome vem daí. Kiyomizu significa "água pura". O visual que se tem lá de cima é lindo com a cidade como pano de fundo.

Muitos peregrinos visitam o Templo Kiyomizu-dera todos os dias

O Salão Principal é todo de marcenaria japonesa feito em madeira encaixada sem pregos. A estrutura está apoiada sobre 139 pilares e 90 vigas de 13 metros de altura, num despenhadeiro debruçado sobre um jardim. De frente para o Salão Principal tem um pagode vermelho de três andares muito fotogênico.


O salão principal de Kiyomizu-dera é o maior destaque do complexo. 

Pagode de Kiyomizu-dera.

Um pequenino templo chamado de Jishu é outra atração importante no complexo. Ele é dedicado ao deus do amor, Okuninushi. 

O valor do ingresso é 300 yens e o templo fica aberto até as 18:00 horas.

PALÁCIO IMPERIAL DE KYOTO

 Como Kyoto foi a capital do Japão por muito tempo era de se esperar que houvesse um belo Palácio Imperial na cidade. E tem. Bem no centro, numa área verde enorme. O Parque Imperial é imponente, cheio de pinheiros e com jardins bem cuidados. No entanto, visitar o palácio em si é quase como visitar a ala destinada ao Japão, na Universal Studios. O palácio foi totalmente refeito após ter sofrido sucessivos incêndios. Quase nada sobrou das construções originais. Tudo é novinho, recém pintado e sem uso. Nada acontece por ali além de visitas guiadas. É preciso agendar a visita antecipadamente e entrar na companhia de um guia. A visita é lenta e chata. Leva-se mais de duas horas de um tempo precioso que poderia ser gasto com lugares mais interessantes. Vou ser bem sincera foi o que menos gostei na cidade.

A visita começa pelo portão Okurumayose por onde entravam as pessoas convidadas ao palácio. Depois, vem o prédio chamado de Shodaibunoma onde havia três quartos para hospedar alguns convidados oficiais. A seguir, vem o prédio mais importante do complexo, Shishinden, que era usado para as cerimônias mais importantes, como as de coroação. Esse prédio é o principal símbolo do Palácio Imperial de Kyoto.

Okurumayose, um dos portões de entrada do Palácio Imperial de Kyoto.

 Shishinden, prédio dedicado às coroações imperiais de Kyoto.

Mais à frente está a residência do imperador, Seiryoden. Mas, é uma pena que nada possa ser visitado por dentro. Dá para ver o quarto de longe, a partir do jardim.

Aposento do imperador, Seiryoden

Um dos locais mais interessantes do complexo é o Kogosho. O prédio era usado para conferências, eventos importantes e para receber os shoguns. É cercado por por um belo jardim, Oikeniwa Garden. Ao lado, fica o prédio destinado aos estudos, Ogakumonjo.

Kogosho, prédio usado para conferências no Palácio Imperial de Kyoto

 O jardim Oikeniwa é um dos locais mais bonitos do Palácio Imperial de Kyoto.

Além do Seiryoden, outro prédio usado para as atividades diárias do imperador era o Otsunegoten. Essa é a maior construção do complexo, com 15 quartos. Foi usado até a transferência da capital para Tóquio, em 1869. 

Otsunegoten, prédio dedicado as atividades diárias do imperador.

O que valeu da visita guiada foram as explicações detalhadas sobre a história de Kyoto. Mas, os grupos são grandes, com quase 40 pessoas e a visita de uma hora é lenta e cansativa. Para quem gosta de visitas em grupo é perfeito. Não é meu caso.

É preciso agendar um horário antecipadamente e é necessário levar o passaporte para retirar os ingressos. As visitas são agendadas para as 10 ou 14 horas gratuitamente.

TEMPLO GINKAKUJI

Esse templo zen-budista, construído em 1482, também é conhecido como "Pavilhão de Prata". Ele é considerado um marco para a cultura japonesa, pois ali iniciaram as bases do que se considera o estilo de vida moderno dos japoneses. Simboliza o renascimento artístico, o ápice do refinamento da pintura à tinta, do teatro nô, da cerimônia do chá e da arte dos arranjos de flores.

 Mapa do Templo de Ginkaku-ji, Kyoto. 

O Templo de Ginkaku-ji ou Pavilhão de Prata foi construído para servir como local de retiro do xogum Yoshimasa. A intenção era que seguisse o padrão de arquitetura do Templo Kinkaku-ji ou Pavilhão de Ouro em homenagem ao seu avô e que tivesse as paredes cobertas por placas de prata. 

Pavilhão de Prata

A questão interessante é que o Kinkaku-ji é realmente coberto por placas de ouro, mas o Ginkaku-ji não teve tempo de ser coberto de prata. A Guerra de Onin acabou com o sonho do shogum de seguir os passos do avô. Então, o que se vê é um belo templo de cores escuras que tem cada andar em um estilo diferente e no topo a proteção fica por conta de uma fênix de bronze dedicada à Kannon.

E, se a sonhada cobertura de prata nunca se concretizou pelo menos ficou o nome "Templo de Prata" que algumas pessoas dizem se referir atualmente mais ao jardim do que ao templo propriamente dito.

O jardim além de ter plantas cuidadas com a perfeição japonesa tem uma parte de areia acinzentada, chamada de Ginshadan, que é um dos pontos altos do templo. Não tem um grão de areia fora do lugar. As curvas e ondulações são milimetricamente trabalhadas. De cada ângulo que se observe o jardim, diferentes desenhos se formam. Bem em frente ao Templo de Prata, um morro de areia chama atenção. É uma representação do Monte Fuji. 

Ginshadan, jardim de areia do Templo de Prata.

Ginkaku-ji fica numa área montanhosa ao norte de Kyoto, é cercado por uma área verde linda, sossegada, cheia de paz e marca o início de uma trilha chamada de "Caminho dos Filósofos". O percurso se estende por dois quilômetros ao longo de um canal repleto de cerejeiras e plátanos. Pelo caminho há várias lojas de artesanato, cafés e restaurantes.

Floresta ao redor de Ginkaku-ji

SANTUÁRIO FUSHIMI INARI

Mesmo sendo relativamente longe do centro de Kyoto, esse santuário xintoísta merece uma visita, pois é um dos principais cartões-postais de Kyoto.

Corredor de toris do Santuário Fushimi

Milhares de toris vermelhos perfeitamente alinhados são dedicados a Inari, divindade do arroz e do saquê e já serviram de pano de fundo para o filme Mémórias de uma Gueixa.

Muitas meninas vestidas de quimonos circulam por Fushimi.

Os santuários Inari são guardados por raposas e protegem os comerciantes. Cada um dos toris ali existentes foi doado por um comerciante da região. São quase dois quilômetros de corredores que sobem pela encosta do morro. Para percorrer todos os corredores é preciso dispor de tempo. Pelo menos duas horas de subidas e descidas, sem contar com as paradas para as fotos que são muitas tal a magia do santuário. 

Entrada do Santuário Fushimi.

Dizem que o santuário, ao sul de Kyoto, teve sua construção iniciada no século VIII, mas muitas das edificações que hoje se encontram no complexo são mais modernas, dos séculos XVI e XVII. 

Muita gente circula diariamente por ali pedindo por prosperidade nos negócios. Há uma enorme quantidade de talismãs e tábuas votivas repletas de orações penduradas nos santuários, chamadas de omamori.

 Talismãs para pedir prosperidade no Santuário Fushimi.

Esse é outro daqueles lugares de onde você não quer ir embora. Tem uma energia fantástica. Dá vontade de ficar horas subindo e descendo entre os toriis e fotografando sem parar. Encantador. 

Apesar de não ser no centro de Kyoto dá para chegar em menos de meia hora indo no trem JR Nara que sai da Estação Central. 


Fushimi é imperdível!

 SANTUÁRIO SHIMOGAMO-JINJA

Eis aqui um cantinho mágico de Kyoto onde a paz invade a alma. O Santuário Shimogamo-jinja existe desde o século VI, antes de Kyoto se tornar a capital do Japão. É um dos santuários mais antigos da cidade e está catalogado entre os 17 Monumentos Históricos da Antiga Kyoto. Foi designado pela UNESCO como Patrimônio da Humanidade. É dedicado à divindade do trovão e protege a cidade.
 
Toriis sinalizam as entradas do Santuário Shimogamo-jinja.

O santuário fica ao norte de Kyoto, num lugar considerado de energia especial, por estar entre dois rios. Além disso, a área é muito arborizada. Um belo convite à uma caminhada entre pontes, toriis, locais sagrados e lojinhas.

Santuário Shimogamo-jinja. Maravilhoso.

Observe esses mantos brancos e vermelhos usados no santuário. Eles fazem parte da tradição do sacerdócio xintoísta - Kannushi - cujos valores são transmitidos ainda hoje de família para família. A sua principal função é servir de elo entre os deuses Kami e os fiéis através da execução de ritos de purificação e proteção.

 Roupa Kannushi, no santuário Shimogamo-jinja.

NIJO CASTLE

Por mais de mil anos Kyoto foi a capital imperial do Japão e seu centro de poder era o Palácio Imperial. Porém, num período de 250 anos, o poder ficou nas mãos dos shoguns da família Tokugawa que comandavam a partir de Edo (Tóquio). Mas, quando estavam em Kyoto, sua base era o Castelo de Nijo. O castelo fica num ponto bem central da cidade, numa área plana e foi construído no século XVI, como símbolo de poder e riqueza. Já, na entrada, o Portal Karamon mostra sua imponência nos frontões folheados a ouro.

 Portal Karamon, entrada do Castelo de Nijo

O castelo é muito valorizado pela ornamentação do seu interior que foi feita por pintores da Escola Kano. Entre os principais motivos das pinturas estão animais (tigres, panteras, gansos e garças) e plantas (pinheiros, bambus e cerejeiras). Num dos salões há vários bonecos sentados no chão representando uma cena de senhores feudais prestando homenagem ao shogum. Faz a gente voltar no tempo.

Um aspecto interessante do castelo é o assoalho que foi projetado para reproduzir o som de um rouxinol quando alguém pisasse. Conforme as pessoas vão caminhando pelos corredores, o chão vai rangendo e cantando. 

 Os Salões Ninomaru do Castelo de Nijo são ligados por passagens cobertas de madeira.

Os jardins do castelo são extremamente bem cuidados e o lago é decorado com uma grande quantidade de pedras. 

O valor do ingresso para adultos é de 600 yens. 

 Jardins do Castelo de Nijo.

MEUS CINCO LUGARES PREFERIDOS EM KYOTO
  1. Templo Sanjusangen-do
  2. Santuário Fushimi Inari
  3. Santuário Shimogamo-jinja
  4. Templo Tenryu-ji e Floresta de Bambu
  5. Templo de Kinkaku-ji

PELO CENTRO DE KYOTO

Numa viagem à Kyoto a prioridade fica por conta dos templos, castelos, santuários e palácios que se encontram nos arredores. O centro da cidade, na verdade, não tem nada de muito especial nem é bonito. Mas, no intervalo entre um passeio e outro dá para programar algumas caminhadas pelas ruas.

Pelas ruas de Kyoto.

O centro antigo é cortado pelo rio Kamo. Do lado direito do rio há uma vasta área comercial com lojas de aspecto simples, que vendem de tudo. Tudo mesmo. Roupas, sapatos, comidas, artesanato, chás, objetos de decoração, biscoitos... São muitas galerias interligadas, todas parecidas. É quase um labirinto, fácil de se perder sem um mapa na mão. A rua central, nesse comércio de galerias, se chama Sanjo e a área comercial recebe o nome de Sanjo Shopping Arcade. A área de alimentação se chama Nishiki Food Market e vale uma observação atenta. É tudo muito diferente do que estamos acostumados a comprar no Ocidente. E, com as legendas em japonês, a dificuldade de leitura é total. Além disso, nas galerias há pequenos templos e santuários e o Museu de Kyoto.

Nishiki Food Market, no centro de Kyoto, uma aventura interessante.

À beira do rio Kamo fica o Pontocho, uma região que enche de gente ao entardecer em busca de um dos tantos restaurantes debruçados sobre o rio. O Pontocho é um banco de areia espremido entre dois braços do rio e começou a se desenvolver como uma área mais "liberal" da cidade. Ainda hoje tem uma casa de chá onde gueixas servem os clientes (exatamente como você está pensando), além de ser um reduto gay. Nos meses mais quentes do ano, de junho à setembro, os restaurantes do Pontocho colocam suas mesas em plataformas de madeira suspensas, tipo palafitas, que eles chamam de yuka.
 
 Restaurantes de Pontocho sobre plataformas yuka.

Do lado esquerdo do rio fica o bairro das gueixas, Gion. Foi ali que vi uma única gueixa caminhando apressada e tensa atrás de um homem engravatado. Uma pessoa tocou no braço dela pedindo para tirar uma foto. Ela fez cara de desespero e sinalizou que não com a cabeça. Continuou naquele passinho pequeno, com as faces branquíssimas, os lábios perfeitamente delineados de vermelho e o cabelo arrumadíssimo tentando acompanhar seu senhor. Linda. Foi a única gueixa que vi. Mas, logo sumiu na multidão.

Gion, o bairro das gueixas. Mas, as gueixas já são figuras escassas por ali.

Gion tem sua história iniciada nos tempos feudais quando os peregrinos frequentavam a região em busca de alimentos. Depois, foram surgindo muitas casas de chá e a região ganhou fama de ser um "paraíso de entretenimento". Dessa época ainda há o teatro Minami-za (vale a pena conferir a programação mensal), também vale a pena conhecer o santuário Yasaba, andar pelo Parque Maruyama, circular pelas ruelas antigas e ver a enorme figura de Kannon de 24 metros, Rozen Kannon perto do templo Kodai-ji.

OUTRAS INFORMAÇÕES

Moeda: yen

Fuso horário: 12 horas à frente do Brasil.

Visto: é necessário ter visto emitido pelo Consulado do Japão para entrar no país.

Para dirigir: os carros têm mão inglesa.

Língua: japonês. Em Kyoto o inglês é menos falado do que em Tóquio. 

Indicação de ryokan: Hiiragiya

Leia também sobre TÓQUIO 

Assim é Kyoto!

Essa foi minha segunda vez em terras nipônicas. Mas, ainda tenho muito que ver por lá. Ficou na minha lista: Hakone, Nara (que pode ser visitada num bate-e-volta a partir de Kyoto), Hiroshima, Ilha de Hokaido e por aí continua. Podem dar outras sugestões de lugares para entrar nessa lista.

Espero voltar em breve!

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