15 junho 2014

VOANDO NA CAPADÓCIA

Por Claudia Liechavicius

Ainda escuro. Cinco horas da manhã foi quando o despertador chamou para a tão esperada aventura. Hora de fazer o passeio de balão pelo céu da Capadócia. A ansiedade era tão grande que em menos de meia hora estavam todos dentro do carro que levaria à sede da Kapadokya Balloons. De lá tomaríamos uma van para o local de onde sairiam os balões. Foi servido um café da manhã de boas-vindas, bem ao estilo turco. O percurso durou menos de 30 minutos e então, estava tudo pronto para o voo, coincidentemente na hora em que o sol nascia.

Algumas pessoas pareciam assustadas e inseguras. Outras sorriam ansiosas. Cada uma aguardando do seu modo, com o coração cheio de expectativas. Seguro ou perigoso, quando o balão começa a ser inflado, o medo todo desaparece e dá lugar a uma grande magia na terra de São Jorge.

Com os primeiros raios de sol os balões começam a ganhar vida para colorir o céu da Capadócia.

Chamas poderosas vão tirando os balões do chão. De repente, quase 100 balões coloridos tomam conta do horizonte. Sobem a mais de mil metros. A trilha sonora do voo é o silêncio profundo cortado apenas por algumas rajadas de vento. E, dentro das cestas, todos com o olhar estarrecido presenciando aquele momento tão especial quanto surreal.

Uma centena de balões ao sabor do vento.

A Capadócia é um dos melhores lugares do mundo para o balonismo por suas condições climáticas. Não tem clima desértico, mas tem pouca chuva. Mesmo no inverno e com neve, os balões riscam o céu. E, a região vista de cima é de tirar o fôlego. Um cenário quase lunar. Estranho. Especial. Ímpar. Serviu como fonte de inspiração para o filme Guerra nas Estrelas e mais recentemente para a novela Salve Jorge.

Rochas de cor avermelhada em alguns lugares, amarelada em outros. Mas, sempre de aspecto curioso e diferente de tudo que se está acostumado a ver em termos de natureza. Vales cheios de ondulações, fendas e cânions repletos de cones esculpidos pela ação do vento e da chuva.

A Capadócia tem um relevo muito peculiar.

O começo de tudo se deve a três vulcões, hoje extintos: Erciyes, Melendiz e Hasan. Eles derramaram muita lava há milhares de anos. Como resultado, se formou uma rocha porosa, a tufa. Lentamente, a erosão provocada pelo vento e pela chuva ajudou a esculpir um relevo absolutamente insólito. De jeitão apocalíptico.

Em alguns locais as rochas formam divertidas esculturas que lembram chaminés, cogumelos gigantes, formações fálicas e até mesmo animais. No Vale da Imaginação a rocha mais interessante lembra um camelo. E, em Pasabag, onde ficam as Chaminés de Fadas, a igreja de São Simão lembra um coelho. Espetacular!

No Vale da Imaginação a ordem é soltar a imaginação e se deixar levar pelos formatos das pedras.
O camelo recebeu até uma cerca de madeira.

Lugar único, Pasabag, Capadócia.
Esse coelho é uma igrejinha linda.

 As Chaminés de Fadas são impressionantes! Quem diria que a natureza foi capaz de esculpir essas formas incríveis sem a ajuda do homem. Tudo por conta da erosão. Os telhadinhos dos cones parecem ter sido colocados sobre as rochas

Essas formações rochosas não são difíceis de escavar. São pedras relativamente macias. Então, os primeiros habitantes passaram a incrustar suas casas, igrejas e monastérios nas pedras. E até hoje muitos desses locais ainda são utilizados.

Goreme encravada nas pedras vulcânicas vista do Vale dos Pombos.

Além de fazerem sua moradas nas pedras, para se refugiar dos inimigos, os habitantes fizeram centenas de cidades subterrâneas. Algumas com até 8 andares que abrigavam inclusive animais. Estima-se que tenha havido milhares de pessoas morando nessas cidades nos primeiros séculos depois de Cristo. Kaimakli está aberta à visitação e é Patrimônio Mundial da UNESCO. Sua profundidade é de 90 metros. Mas, aos visitantes é permitido ir até 25 metros. Ali chegaram a morar mais de 5 mil pessoas. Havia 1300 compartimentos muito bem organizados com quartos, local para fazer vinho, cozinha comunitária e abrigo para animais. Imagine o desespero de morar num lugar frio e escuro durante um longo período. Hoje é iluminado e ainda assim é assustador.

 Cidade subterrânea de Kaimakli.

Essa região central da Turquia foi por muito tempo área de passagem entre Ocidente e Oriente. Caravanas, mercadores e religiosos usavam as cidades de Goreme, Nevsehir e Kayseri para descansar de longas viagens. Sua localização privilegiada sempre despertou a cobiça de outros povos. Assim, já esteve nas mãos dos hititos,  persas, macedônios, romanos, bizantinos e otomanos. Haja história!

Os primeiros registros que se tem da Capadócia datam do século II a. C. No entanto, entre os séculos IV e XI os cristãos estiveram por lá e é deles a autoria das principais obras que podem ser visitadas como o Museu a Céu Aberto de Goreme. Nessa época, eles praticavam seus cultos religiosos escondido dos dominadores que proibiam que suas tradições fossem mantidas. O legado é impressionante. No interior das rochas há cerca de 30 igrejas e monastérios ocultos. A Igreja Escura - Igreja Karanlik - é uma das mais interessantes. Não recebe nenhuma luz do exterior e é repleta de afrescos bizantinos. Há várias outras abertas à visitação: a Çarikli com imagens dos quatro apóstolos do Novo Testamento (Mateus, Marcos, Lucas e João); a Santa Catarina onde São Jorge está representado; Yilanli com afrescos de São Jorge enfrentando uma serpente; a Santa Bárbara; Elmali e o Mosteiro de Kislar que chegou a abrigar 300 freiras.

 Museu a Céu Aberto de Goreme, Capadócia.

E, como diz nosso brasileiríssimo Jorge Benjor em seus versos "Jorge vem de lá da Capadócia montado em seu cavalo, na mão a sua lança..." Pois é. São Jorge é da Capadócia. Dizem que a Capadócia é o segundo berço do Cristianismo; que São Jorge é filho da terra (teria nascido no século III); que o principal divulgador da fé cristã no Império Romano - o apóstolo Paulo - teria morado e pregado na Capadócia por muitos anos; e, que Maria teria buscado refúgio nas cavernas subterrâneas da região depois da ressurreição de Cristo. Mito ou verdade, o fato é que a representação do santo está registrada na Capela de Santa Catarina, no Museu a Céu Aberto de Goreme e em vários outros locais.

Imagem de São Jorge na caverna do personagem Zyah na novela Salve Jorge

Outro fato interessante é que nas rochas pode-se observar a existência de vários pombais que hoje estão praticamente sem uso. Pequenos buracos eram escavados para servir como moradia aos pombos. Havia centenas e mais centenas deles. As fachadas tinham desenhos para atrair os animais que simbolizavam o espírito de Deus e a paz. Além disso, o adubo feito com os dejetos das pombas era vendido como excelente fertilizante. O Vale das Pombas e o Museu a Céu Aberto são dois lugares em que se pode ver os pombais.

Detalhe dos pombais na Capadócia. Acima no Museu a Céu Aberto e abaixo no Vale das Pombas.

À noite, vale a pena assistir a uma Dança dos Dervishes com suas coreografias rodopiantes no Sarihan. Os dervishes fazem parte uma corrente mística do Islã, os sufis. Rodopiar é a maneira que eles usam para entrar em transe.

Dança dos Dervishes.

Há várias pequenas cidades na região com características distintas. Vale a pena conhecer Avanos onde tem uma fábrica de cerâmica e um excelente restaurante de comida local, o Dayinin Yeri. Outra cidade pequenina e charmosa é Uçhisar onde fica o Museum hotel. Goreme é a mais importante por ter o Museu a Céu Aberto e as Chaminés de Fadas. Sobesos é um sítio arqueológico que pertenceu ao Império Bizantino, teve mais de 10 mil habitantes, foi descoberto ao acaso por um agricultor, tem mosaicos muito bem preservados com símbolos de suástica e uma enorme cruz de malta estilizada. Sinasos é uma pequenina e simpática cidade grega com pessoas muito simpáticas e um restaurante interessante chamado Mustafa Pasha atendido pela família. Tudo é muito pertinho. É fácil de circular, especialmente se tiver um motorista e guia local.

Avanos, Capadócia.

Uçhisar, Capadócia.

Goreme, Capadócia.

 Sobesos, antiga cidade bizantina na Capadócia.

 Sinasos, Capadócia.

Para finalizar, como estou sempre em busca do melhor lugar para curtir o por do sol sugiro o Vale Vermelho, o Vale das Pombas ou a piscina do Hotel Museum. O céu vai se tornando alaranjado e o dia termina num astral super romântico que combina com a alma tão cheia de vida da Capadócia. 

 Por do sol na Capadócia

PROGRAME-SE ANTECIPADAMENTE PARA
  • Fazer o imperdível passeio de balão. Mais romântico impossível!
  • Visitar Goreme, a cidade plantada no meio de formações rochosas.
  • Conhecer o Museu a Céu Aberto de Goreme, Patrimônio Mundial da UNESCO
  • Caminhar pelo Vale de São Simão entre as Chaminés de Fadas
  • Soltar a imaginação no Vale da Imaginação
  • Passear pela cidadela de Avanos e almoçar no restaurante Dayinin Yeri (simples, local, excelente)
  • Conhecer uma das tantas cidades subterrâneas. Visitei Kaymakli, Patrimônio da UNESCO desde 1985
  • Passear pela cidade de Sobesos que pertenceu ao Império Bizantino
  • Circular por Sinasos, uma cidade construída na época da dominação grega
  • Assistir a um show de Dança dos Dervishes
  • Ver o por do sol no Vale Vermelho ou no Vale das Pombas
  • E, para finalizar não deixe de pelo menos visitar uma fábrica de tapetes. A variedade é enorme. Tapetes lindos.

 Tapetes turcos.


RESTAURANTES

Dayinin Yeri, na cidade de Avanos. Cozinha local, simples e excelente. Esse foi meu restaurante favorito na Capadócia. www.dayinin.com.tr Tel: +90 384 511 6840

Mustafa Pasha, na cidade de cidade grega de Sinasos. Fica numa casa muito antiga e é atendido pela família.

Restaurante Mustafa Pasha.

COMO CHEGAR

Há dois aeroportos próximos à Capadócia: Kayseri e Nevsehir. Usei a Turkish Airlines para o trajeto Istambul - Nevsehir. A duração do voo é de aproximadamente uma hora. Também tem voos da Onur Air e Sun Express. O transfer do aeroporto ao hotel deve ser solicitado antecipadamente durante a reserva do hotel e leva 40 minutos.

ONDE FICAR

Museum Hotel foi a escolha perfeita para  uma viagem inesquecível. O hotel é um charme debruçado sobre uma encosta da cidadezinha de Uçhisar. Parte dele é feito na rocha. Sua decoração é repleta de objetos históricos. Os quartos são amplos, bem decorados, condizentes com o espírito da Capadócia e muito aconchegantes. O banheiro é enorme, com banheira e vista linda. A área externa é muito convidativa com visual incrível. De manhã os balões passam na frente do hotel e ao cair da tarde, o por do sol é maravilhoso. Outro ponto alto é o serviço. Guias e motoristas estão sempre à disposição para fazer o roteiro do modo que o hóspede escolher. E, mais um detalhe importante, o restaurante do hotel é um dos melhores da região.

Quarto do Museum Hotel.

Piscina com visual espetacular no Museum Hotel

QUANDO IR

O período mais agradável para visitar a Capadócia é de março a outubro (sendo que julho e agosto é bem quente e altíssima temporada). De novembro a fevereiro faz frio. A temperatura da região não costuma ser negativa. Porém, com a altitude do balão, pode-se atingir até 20 graus negativos. Os pés ficam muito gelados e não tem como aquecer nem sair do balão. A vantagem é que os preços caem nessa época e há muito menos turistas.

INDICAÇÃO DE GUIA

A Capadócia me foi muito bem apresentada pelo guia Emre Ardik. Super gentil, muito disponível e aberto às mudanças de planos. Para facilitar a vida, ele fala português, espanhol e inglês. O e-mail dele é emreguide@hotmail.com e o Instragram @emreguide

Goreme, Capadócia.

A Capadócia era um lugar que povoava constantemente meus pensamentos. Minha expectativa era enorme. Eu tinha até medo de chegar lá e me decepcionar por ter tanta vontade de conhecer. Mas, que nada. Passei três dias intensos. Fiz uma viagem inesquecível. Adorei cada cantinho. E, voltei muito feliz! Recomendo totalmente. A Turquia é espetacular. Vá sem medo.

12 junho 2014

ERA UMA VEZ UM VERÃO EM PRAGA

Por Claudia Liechavicius

Meus olhos mal podiam acreditar no que estavam vendo. Em pleno verão do leste europeu, um céu azul impecável e a cada passo um suspiro. Prédios belíssimos, esculturas espalhadas por todos os lados, pontes encantadoras conectando as duas margens do rio Moldavia, muita gente. E, Praga me conquistou na hora! Não pela gentileza do povo, longe disso. Mas, pela trajetória densa emoldurada por uma beleza arquitetônica ímpar. A capital da República Tcheca, chamada por muitos de Paris do Leste, é uma das cidades mais belas da Europa.

Ponte Most Legií, uma das 15 que cruzam o rio Moldavia, e à esquerda o Teatro Nacional.


Os famosos telhados de Praga.

MAPA DA REPÚBLICA TCHECA

A República Tcheca é vizinha da Polônia (norte), Eslováquia (leste), Áustria (sul) e Alemanha (oeste).

UM POVO FORTE E GUERREIRO

Os holofotes se voltaram para o novo país chamado de República Tcheca em 1993 quando houve a cisão da República Federal da Tchecoslováquia e nasceram dois países independentes: República da Eslováquia (com a capital Bratislava) e República Tcheca (com a capital Praga). Antes disso, o povo viveu anos amargos sob dominação nazista (1939 - 1945), depois experimentou "o pão que o diabo amassou" nas mãos de ferro dos russos e só se livrou desse calvário na década de 90.

Os tchecos sofreram, mas protestaram e não se aquietaram. Prova disso são alguns "gritos de liberdade" espalhados pelas ruas em forma de arte, como as crianças com rosto desfigurado e sem identidade, os homens que vão definhando e o mapa regado a "xixi".

Um povo sofrido, politizado e determinado.

Em forma de protesto, crianças crescendo sem rosto, o que representa a falta de identidade pela repressão comunista. 

Homenagem às pessoas que tiveram suas vidas destruídas pelo comunismo.

 Em frente ao Museu de Kafka dois homens fazem "xixi" no mapa da República Tcheca em protesto aos políticos corruptos.

UMA MULTIDÃO DE TURISTAS

Já deu para perceber como Praga é interessante e apaixonante. Passei quatro dias explorando a pé as ruas da cidade e escolhi o hotel Mandarin Oriental, por sua localização no bairro de Malá Strana. Foi perfeito. O hotel fica a 5 minutos de caminhada da Ponte Carlos, principal cartão-postal de Praga e pertinho do Castelo de Praga. Além disso, fica numa região que é central, mas ao mesmo tempo calma. Não tem muita confusão de turistas como do outro lado da ponte, em Staré Mesto, que vive abarrotada de gente.

O tranquilo bairro de Malá Strana.

Na Ponte Carlos o fluxo de transeuntes é enorme.


E na Praça da Cidade Velha, no bairro de Staré Mesto, a aglomeração é total.

A PONTE CARLOS

Esse mar de gente quer ver a Cidade das Cem Torres, linda, romântica, formada por uma mescla de estilos arquitetônicos das mais variadas épocas da história que fez questão de se esconder dos bombardeios das Guerras Mundiais para continuar a se exibir intacta aos olhos do mundo. É emocionante atravessar a Ponte Carlos, materializada no século XIV, nos dias de glória de Carlos IV, rei da Boemia, Morávia e do Sacro Império Romano. Nada menos do que 30 imagens barrocas de santos adornam os 16 arcos da ponte. É deslumbrante! Um verdadeiro museu a céu aberto.

A Ponte Carlos é uma das mais bonitas do mundo. Tem 516 metros de comprimento e 10 de largura. Na época em que foi construída passavam carruagens pela ponte. Hoje apenas os pedestres tem esse privilégio.

A Ponte Carlos, em tcheco Karlov Most, liga a Cidade Baixa (Malá Strana) à Cidade Velha (Staré Mesto). Em cada uma de suas extremidades tem uma torre. Elas podem ser visitadas e o visual lá de cima é encantador.

Vista de Malá Strana e do Castelo de Praga, a partir da Torre de Staré Mesto, na Ponte Carlos. 

Vista da Cidade Velha a partir da outra torre da Ponte Carlos, a Torre Malá Strana.

 São João Nepomuceno é o santo mais popular da Boêmia e o mais importante na ornamentação da ponte. Ele foi jogado vivo no rio exatamente no ponto onde fica sua imagem. Para atrair a sorte ou para retornar à cidade, as pessoas tocam no relevo do pedestal...


... onde tem um cachorrinho. 
Uma lenda para ser lembrada!

 Outra obra linda da Ponte Carlos é São João Baptista que foi quem batizou Jesus e o chamou de "Cordeiro de Deus"

A Ponte Carlos é um dos pontos mais visitados de Praga. Uma massa de turistas e moradores da cidade passa por ali diariamente. Ao longo do dia, o astral da ponte e suas cores mudam. É obrigatório circular  de manhã cedo em seu momento de maior sossego, ao meio-dia quando fica lotada de turistas, vendedores e artistas, e à noite quando ela ganha uma iluminação suave e mágica.

Ponte Carlos, no início da noite.

O rio Moldavia transbordou em 2002 e o país viveu a maior enchente da sua história. Algumas casas ainda tem as marcas de onde a água chegou - quase no telhado.

A PRAÇA DA CIDADE VELHA

Depois de atravessar a belíssima Ponte Carlos se chega ao coração da capital tcheca. A Cidade Velha. Esse é o bairro mais concorrido pelos turistas. Suas ruelas medievais são repletas de lojas, restaurantes e cafés. O comércio vende os famosos cristais da Boêmia, especialmente, na Rua Carlos, e todo tipo de matrioshkas - herança do passado comunista e da dominação russa. Mas, não se deixe distrair com as vitrines, pois a beleza da Praça da Cidade Velha vale muito mais do que isso. É ali que fica a antiga Prefeitura com a torre e o Relógio Astronômico, também é ali que está a estátua de Jan Hus (um pensador e reformador religioso que foi queimado vivo), o Palácio Goltz-Kinsky, a igreja Nossa Senhora de Tyn, a Casa do Unicórnio Dourado (por onde Mozart passou) e outras casas que iniciaram a ser edificadas no século X. Mil anos depois e a praça continua sendo o coração de Praga. Cheia de história e dona de uma beleza indescritível.

Praça da Cidade Velha. À esquerda o Palácio Goltz-Kinsky, ao lado a Igreja Tyn e no centro da praça, a estátua de Hus.

Casas charmosas e muito antigas enfeitam a praça.

Pontiagudas, duas torres góticas não tem como passar despercebidas na Praça da Cidade Velha. Elas são a parte mais antiga da Igreja Nossa Senhora de Tyn e sobressaem em meio aos telhados. A igreja foi construída no século XIV sobre uma igreja românica. Seus dois campanários, apesar de parecerem iguais, são diferentes e inclusive foram construídos em épocas distintas. Essa igreja foi por muito tempo o principal templo hussita (igreja protestante criada por Jan Hus). Mas, se avistar a igreja de longe é tarefa fácil, difícil é encontrar a porta de entrada. É que a igreja nasceu pequena e depois foi aumentando até encostar nos prédios vizinhos. Então, se vê a igreja e suas torres com dois prédios antigos à sua frente e não se vê a porta de entrada porque ela fica escondida por dentro de um desses prédios. Basta procurar e você vai conseguir entrar.

Ao fundo, a igreja de Nossa Senhora de Tyn, do século XIV, com suas torres em estilo gótico.

Se a igreja já é considerada fantástica, então espere até que o Relógio Astronômico marque uma hora cheia. É quando começa o espetáculo aguardado pela multidão que se aglomera para ver o Desfile dos 12 Apóstolos, que dura menos de dez segundos, mas encanta desde o século XV. O relógio foi feito pelo Mestre Mikulas de Kadan e foi colocado na parte inferior da Torre da Câmara Municipal. O encarregado pela instalação foi o Mestre Hanus de Ruze. Aqui outra lenda: dizem que mandaram cegar o relojoeiro que fez essa peça para que ele não fizesse outras iguais. Tomara que seja realmente só uma lenda.

A Torre da Câmara Municipal, à esquerda, onde fica o Relógio Astronômico. 
Subindo seus 200 degraus pode-se ter um visual lindo de Praga.

Próximo a praça vale a pena procurar o Portão de Pólvora - uma das 13 entradas da Cidade Velha - construído em 1200 para proteger os mercados feudais. E, também dê uma caminhada pela Praça Venceslau (que na verdade é uma grande avenida) onde eclodiu a Revolução de Veludo, a manifestação que derrubou o comunismo na região. 

Portão de Pólvora.

Foi nessa redondeza que morou Franz Kafka, o grande escritor tcheco. Ele nasceu em Praga, em 1883, em uma família judia pertencente à burguesia. Estudou Leis, trabalhou com seguros e nas horas vagas se dedicava à escrita - sua grande paixão. Foi o autor de algumas das obras mais célebres do século XX, entre as quais: A Metamorfose, O Processo e O Castelo. Em vida, quase não publicou nada e não teve seu trabalho reconhecido. Seu reconhecimento foi póstumo. Ele morreu em Viena, onde passou o final da vida.


Estátua em homenagem a Franz Kafka.

O BAIRRO JUDEU E AS SINAGOGAS

A história desse gueto remonta ao princípio do século X. Os judeus viviam ali aglomerados para se proteger das constantes agressões e massacres que sofriam. No século XVII, eram mais de 7 mil judeus e no século XVIII já eram 40 mil. Até que no reinado da imperatriz Maria Teresa de Habsburgo eles foram expulsos do gueto, mas logo veio o imperador José II e ajudou os judeus a se reestruturarem criando inclusive leis e combatendo o racismo contra eles. Então, o bairro passou a se chamar Josef em homenagem ao imperador. No entanto, as condições de vida ali eram muito precárias. Era como uma grande favela. Miséria total.

Com o passar dos anos foi tudo sendo destruído e sobraram apenas algumas sinagogas e o Velho Cemitério Judaico - o mais bem preservado da Europa. Hoje, esses locais viraram museus e as peças que sobreviveram à fúria de Hitler encontram-se ali. Por ironia do destino, o bairro que já foi paupérrimo é atualmente o mais nobre de Praga. A Avenida Paris é repleta de lojas de grifes, cafés, restaurantes elegantes, além da Orquestra Filarmônica de Praga. Vale a pena visitar Staronová, a Sinagoga Velha-Nova que continua em funcionamento, a Sinagoga Klaus que fica numa casa barroca, a Sinagoga Espanhola num prédio mouro belíssimo, e a Pinkas que tem os nomes de todos os judeus tchecos mortos no Holocausto e dá acesso ao Cemitério Judaico.

Sinagoga Klaus

Cemitério Judeu de Praga e sua incrível superposição de lápides.

 São 12 mil lápides amontoadas para 100 mil pessoas sepultadas. 
É um caos de pedra num local bem restrito.

O CASTELO DE PRAGA - PRAZSKY HRAD

Na verdade esse enorme complexo nem tem cara de castelo. Mais parece uma cidadela com seus palácios, museus, vielas, jardins, igrejas e até troca de guarda. 

Tudo começou no final do século IX quando o príncipe Borivoj fundou sobre a colina o primeiro castelo para abrigar os duques da Boemia. Diz a lenda - mais uma lenda de Praga (são muitas) - que uma princesa chamada Libuse profetizou que ali no topo daquela ladeira, às margens do rio Moldavia, nasceria uma próspera cidade. Parece que ela acertou! 

Castelo de Praga visto do rio Moldavia.

Depois de viver muita história, guerras, incêndios e abrigar famílias importantes, o Castelo continua sendo a sede política do país. O interessante é que ele é aberto à visitação, mesmo sendo a residência oficial do presidente da República Tcheca. A entrada é gratuita. Os visitantes podem circular por dois grandes pátios, pelos jardins, ver a troca da guarda, conhecer a fantástica Catedral de São Vito e a Basílica de São Jorge. Para quem quiser uma visita mais completa, pode-se pagar 250 coroas para ter acesso ao Monastério e a Basílica de São Jorge, algumas salas do Palácio Real e ao Beco do Ouro (rua com casinhas coloridas onde moravam trabalhadores e até Franz Kafla morou lá na casa número 22).

Porta dos Gigantes é o nome desta entrada do castelo em função da obra que se ergue imponente sobre as duas pilastras: Luta de Titãs, do escultor Ignác Platzer, feita em 1770. 

A troca da guarda num dos portões do Castelo.

Um dos pátios do Castelo de Praga.

Beco do Ouro.

Dentro do complexo o grande destaque fica por conta da Catedral de São Vito. Ela é a igreja mais importante da cidade e a mais pomposa. Sua construção iniciou em 1344 e só terminou no século XX por isso agrega uma mescla de estilo gótico com barroco e renascentista. Lá dentro estão as joias da coroa, que podem ser vistas pelos visitantes uma vez ao ano, além de túmulos e capelas de vários santos.

Catedral de São Vito.

Monumento a São João Nepomuceno, todo em prata.

Nos primórdios do Castelo, sua praça principal era a Praça de São Jorge. Em 920, o príncipe Vratislao I mandou fazer uma pequenina igreja destinada a guardar os restos da primeira mártir tcheca, princesa Ludmilla, sua mãe. Mas, com a construção do Mosteiro adjacente, ela teve que ser ampliada e se transformou numa Basílica. Bem ao seu lado fica a Capela de São João Nepomuceno.

Basílica de São Jorge e Capela de São João Nepomuceno, no Castelo de Praga.

Ao sair do Castelo de Praga, o visual é um presente dos deuses. Espetacular. Prédios antiguíssimos, telhados, torres, pontes e mais um convite à uma caminhada até a Ponte Carlos. Mas, é possível descer por dois caminhos e os dois são lindos. Sugiro visitar o Castelo duas vezes e descer cada dia por um deles. Dá para descer pela enorme escadaria principal e depois tomar o bonde, ou descer a pé por ruelas sinuosas cortadas por pequenas escadarias até alcançar o coração da cidade. Na dúvida escolha os dois!

Vista panorâmica da cidade ao sair do Castelo de Praga pela escadaria principal.

Vista panorâmica no final do dia ao sair do Castelo de Praga pela Porta dos Gigantes.

Para chegar ao Castelo de Praga tome o bonde 22 nas proximidades da igreja de São Nicolau, em Malá Strana e aproveite para visitar essa obra belíssima da arquitetura barroca.

Igreja de São Nicolau.
Por 75 coroas dá para subir ao mirante do topo da igreja  e apreciar a cidade

UMA CAMINHADA POR MALÁ STRANA

O bairro de Malá Strana também chamado de Cidade Baixa fica aos pés do Castelo de Praga. É onde fica o hotel Mandarin Oriental (onde fiquei hospedada), portanto tive a chance de caminhar bastante por ali. O bairro é tranquilo, mas repleto de bares, restaurantes, museus, igrejas e lojinhas. 

Pelas ruas do bairro de Malá Strana.

O muro de John Lennon - na Praça do Grão-Priorado - é um santuário em nome da paz. O muro é todo pichado com mensagens em prol do amor sendo que a pedra fundamental foi escrita pelas mãos do próprio Beatle.

Muro de John Lennon.

Também visite a Igreja Nossa Senhora Vitoriosa, o Museu de Kafka, o Museu da Música e o Museu Kampa. A charmosa Ilha de Kampa tem acesso pelo bairro de Malá Strana e é formada por um canal bem ao estilo Veneza. No verão, a ilha fica lotada de tchecos tomando um solzinho ou bebendo uma cerveja, bebida nacional. E por falar em cerveja experimente a Pilsner Urquell. 

Museu de Kafka, inaugurado em 2005. 

À esquerda a Ilha de Kampa, no bairro de Malá Strana. 

A casa branca é o Museu Kampa, de arte moderna, na Ilha Kampa.

ROUBADAS EM PRAGA: Observe a torre no parque da foto acima, em Malá Strana. É a Torre Petrin. O local é  considerado um dos mais interessantes para se ver a cidade do alto. Para chegar lá é preciso subir num funicular com filas enormes e o visual não é tão bom quanto das torres do centro da cidade ou das escadarias do Castelo de Praga. Não vale a pena subir. 

Torre Petrin.

E aproveitando que o tema é roubada vou logo dizendo a outra super roubada de Praga. A cidade tem uma enorme quantidade de empresas que oferecem passeios de Segway. Os passeios podem ser em grupos pequenos ou individualmente, de 1, 2 ou 3 horas. O preço vai de 39 a 80 euros. A grande roubada é que os tombos são muito frequentes, mas eles não falam sobre isso. Já estão preparados para cuidar dos estragos de quem cai. Ninguém quer atrapalhar a viagem com dores causadas por um tombo bobo. Então, melhor evitar. 

Passeio de Segway no Muro de John Lennon.

O LADO MODERNO DE PRAGA

Praga também tem um prédio ultramoderno. A Casa Dançante foi construída em 1994 e é um símbolo da Praga Moderna. Os arquitetos buscaram inspiração nos bailarinos Ginger Rogers e Fred Astaire, por isso seu apelido é "Ginger e Fred". Ele é a sede dos Escritórios Nacionais Holandeses.

Além desse prédio outras duas obras fazem parte do lado mais contemporâneo de Praga: a Torre de Zizkov e a Fonte Dançante. 

A torre foi construída em 1985 para transmitir sinal de rádio e TV para a cidade. Mas, ela é uma atração interessante pois seus 216 andares, feitos em aço, podem ser galgados com o auxílio de um elevador para se ter uma vista linda da cidade. Além disso, vários bonecos sem rosto engatinham sem identidade,  fixados na torre em forma de protesto ao comunismo.

A Fonte Dançante é um show de cores, luzes e águas que dançam embaladas por uma música.

No mais, é o antigo que impera de forma memorável.

A Casa Dançante, obra dos arquitetos Frank Gehry e Milunic.

INDICAÇÃO DE HOTEL

MANDARIN ORIENTAL. O ponto forte do hotel é sua localização. Ele fica numa área bem central, do lado oeste do rio Moldava, no bairro de Malá Strana, mas sem grande confusão de turistas ao redor. É desse lado da cidade que está o Castelo de Praga. O hotel fica a menos de 5 minutos de caminhada, da Ponte Carlos. É muito charmoso, aconchegante e os quartos são amplos (apesar de não terem uma super decoração). O ambiente é moderno, mas nada demais. Banheiro muito bom (melhor do que o quarto). Bom café da manhã. Endereço: Nebovidskä 459/1. Telefone: +420 233 088 668 - www.mandarinoriental.com

Outro bom hotel 5 estrelas da cidade é o Four Seasons.

RESTAURANTES

LA DEGUSTACION BOHÊME BORGEOISE. Excelente restaurante estrelado pelo Guia Michelin. O ambiente é bem informal, nada de frescura, serviço impecável e cozinha tcheca contemporânea. Tem duas opções de menu: 5 pratos ou 11. Escolhi o de 5 e achei mais do que suficiente. Endereço: Hastalska 18. Reservas pelo telefone: +420 222 311 235 - www.ladegustacion.cz

La Degustacion Bohême Borgeoise.

KOLKOVA OLYMPIA. Restaurante de comida tcheca cheio de gente da terra e com poucos turistas. O forte da casa são as carnes de porco e pato sempre acompanhados de dumplings de pão. Para se sentir como um tcheco não deixe de provar a cerveja Pilsner Urquell, mas se preferir uma cerveja sem alcool eles também têm. O endereço é Vitezná 7, telefone + 420 251 511 080, www.kolkovna.cz (na verdade o restaurante têm outras 6 casas espalhadas pela cidade).

U MODRÉ KACHNICKY. Restaurante tradicional da cidade, cuja especialidade é o pato. Fantástico! Tem vários ambientes com poucas mesas, as salas são decoradas com móveis antigos super charmosos. Michalská, 16, telefone + 420 224 213 418, www.umodrekachnicky.cz

Uma das salas do restaurante U Modré Kachnicky.

OUTROS BONS RESTAURANTES: Bellevue, Mlynec, Garden Zofin, V Zatisi.

BUDDHA-BAR. Restaurante de comida oriental que costuma ser interessante em Paris, Dubai e outros lugares, mas o de Praga não me agradou nem um pouco. Portanto, não indico apesar de ter decoração bem transada e ter bastante nome mundo afora. www.buddha-bar.cz

Não recomendo o Buddha-Bar.

INFORMAÇÕES IMPORTANTES

IDIOMA: Tcheco, uma língua para lá de difícil. Para facilitar a comunicação as pessoas mais jovens falam inglês, mas os mais velhos não fazem muita questão de ser gentis. E para ler os nomes de ruas e placas com aqueles acentos circunflexos invertidos? Bem complicado. Poucos locais oferecem mapas em inglês.

O idioma local é bem difícil e a população não se esforça muito, mas para ajudar um pouco há guias vendidos nas bancas em vários idiomas. Comprei um em português!

MOEDA: Coroa Tcheca (CZK) 1 CZK = 0,10 real

QUANDO IR: fui no final do verão - que vai de julho a agosto - e adorei. A cidade estava animada, colorida, ensolarada e não muito quente. De dezembro à março é muito frio - inverno. Para quem curte esta época pode ser interessante com tudo branquinho coberto de neve. O astral certamente é bucólico. Os períodos de temperatura mais amenas vão de abril a junho (primavera) e de setembro a dezembro (outono).

FUSO HORÁRIO: 4 horas a mais do que o horário de Brasília (sem considerar o período de verão - nessa época a difrença passa a ser de 5 horas a mais).













Fiquei simplesmente encantada com Praga. A Ponte Carlos, a praça da Cidade Velha, o Castelo, o gueto dos judeus, ruelas charmosas, fachadas belíssimas, o passado denso, a multidão de turistas, o rio Moldavia... Tudo me conquistou. Sem contar com os dias ensolarados. A cidade merece a fama que tem!


Recomendo totalmente!!!

Ah! E se der tempo vá a Karlovy Vary, cidade famosa por suas termas (140 km de Praga); Kutná Hora onde fica a sinistra Capela de Todos os Santos decorada com 60 mil ossos humanos (66 Km de Praga); Cesky Krumlov uma cidade medieval considerada uma das mais bonitas do mundo (175 Km de Praga). 


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