PARATY ENTRE LIVROS, HISTÓRIA, CACHOEIRAS, CACHAÇA, MAR E MONTANHA


Ao abrir o armário do hotel, galochas. No mínimo, inusitado! Que em Paraty chove com frequência não é nenhuma novidade. Mas, um simples guarda-chuva já bastaria, não é? Então porque as tais galochas? Será que havia algum outro propósito? Sim! Havia...

As ruas de Paraty inundam durante a maré alta.

Paraty foi construída na última década do século XVI como um simples vilarejo posicionado entre o Atlântico e a Serra do Mar. Tanto que se chamava “Villa de Paraty”. Não demorou muito para se desenvolver graças ao Ciclo Fluminense do Açúcar. Depois veio o Ciclo do Ouro, da Prata e por último o do Café. A produção toda escoava pelo porto de Paraty. Para o trabalho pesado a mão de obra dos escravos era usada. Por quase duzentos anos Paraty serviu como posto de contrabando de escravos (1660 – 1850). Numa época em que não se sabia que a Febre Amarela e a Malária eram transmitidas pelo mosquito – o que só foi descoberto mais tarde por Oswaldo Cruz  – os portugueses construíram a cidade toda abaixo do nível do mar, com três portões que permitiam a entrada do mar pelas ruas da cidade para que fosse feita uma limpeza diária dos dejetos depositados pelas ruas com a intenção de evitar epidemias. O tempo passou e lá continuam os portões deixando a maré alta invadir as ruas de pedra do centro história todos os dias. Entendeu o motivo das galochas? Dependendo do horário as ruas próximas do mar inundam. Não é interessante?

Observe que muitas ruas de Paraty costumam ter água acumulada.

O patrimônio histórico de Paraty é um dos mais bem preservados do período do Brasil Colônia. Foi tombado, em 1958, pelo IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional).

    

Detalhes das casas de Paraty.

A beleza de suas casas e igrejas agrada aos olhos. Caminhar pelas ruas de calçamento irregular com pedra “pé-de-moleque”, vendo os detalhes das fachadas, é pura fonte de inspiração.

Matriz de Nossa Senhora dos Remédios. 

Capela de Nossa Senhora das Dores. 

Igreja de Santa Rita.

A invasão da água do mar, o movimentado porto, o fluxo de chegada de escravos e a Maçonaria tiveram grande importância no traçado do Centro Histórico de Paraty. Se quiser saber mais sobre a história da cidade procure por Anderson, o neto de escravos, que costuma ficar em frente a Igreja de Santa Rita vestido em trajes típicos da época da escravidão contando sobre a vida dos seus antepassados naquelas ruas.

O neto de escravos Anderson é um ator apaixonado pela história de Paraty.

Paraty é um destino especial como poucos no Brasil. Além do incrível patrimônio histórico e de ser extremamente fotogênica, tem praias lindas, muitas cachoeiras, cachaças famosas, é palco da Flip uma das feiras literárias mais badaladas do país, tem muitos ateliers de arte e uma bela gastronomia a apenas 250 quilômetros do Rio de Janeiro e 280 de São Paulo.

Caminhar sem pressa é o melhor de Paraty.

PARATY AL MARE

Chegar às praias mais bonitas de Paraty não é tarefa fácil. Elas não ficam ao alcance de uma curta caminhada. É preciso alugar uma lancha, traineira, fazer um passeio de saveiro ou longas caminhadas para chegar aos cantinhos mais especais da região. Mas, todo esforço compensa.

As traineiras são a cara de Paraty.

As praias mais próximas são Jurumirim, Praia Santa Rita, Praia Vermelha, Praia da Lula, Praia da Conceição, Lagoa Azul e Saco da Velha nessa sequência. Elas estão antes da entrada do Saco do Fundão que é um braço de mar que entra no continente. Todas são lindas e se chega em meia hora de lancha ou pouco mais.

Praia da Lula. 

 Jurumirim.

Mais adiante fica o Saco de Mamanguá considerado o único fiorde brasileiro, com oito quilômetros de extensão e dois de largura. Fiorde é uma entrada de mar entre altas montanhas. No fiorde há mais de trinta praias escondidinhas e muitas comunidades caiçaras. As praias mais frequentadas são a Praia do Sobrado e a Praia do Cruzeiro.

Saco de Mamanguá, um fiorde em Paraty.

Praia do Sobrado.

Se quiser ir ainda mais longe boa pedida é a Praia do Sono. Dá para ir de lancha ou de carro pegar a BR-101 no sentido São Paulo, entrar em Patrimônio, seguir até Laranjeiras e de lá fazer uma caminhada até a Enseada do Sono. Na Vila de Trindade, que também tem acesso por Patrimônio há várias praias bonitas, inclusive uma com piscinas naturais, a Praia do Caixadaço.

Mas, além dessas há centenas de outras praias e ilhas. Afinal, Paraty fica pertinho de Angra com todas aquelas ilhas fantásticas.

Estrada Angra-Paraty.

CACHOEIRAS PARA LAVAR A ALMA


Dar um circulada pelo Parque Nacional da Serra da Bocaina e conhecer as belíssimas cachoeiras que ficam tão pertinho do centro histórico de Paraty é imperdível. Algumas têm acesso difícil e é preciso caminhar um bocado. Já outras, são facilmente acessadas de carro e com pequenas caminhadas como é o caso da Cachoeira Pedra Branca, Sete Quedas, Cachoeira do Tobogã e Poço do Tarzan.

Cachoeira Sete Quedas. 

Cachoeira Pedra Branca.

AS CACHAÇAS DE PARATY


Paraty é quase sinônimo de cachaça. Nos tempos do Brasil Colônia havia mais de 100 alambiques em Paraty. Essa fama é antiga, vem desde 1600. Até hoje algumas das melhores pingas brasileiras são produzidas na região: Coqueiro, Corisco, Paratiana, Vamos Nessa, Maria Izabel e Engenho D’Ouro. O Festival da Pinga acontece todos os anos na cidade, desde 1983.

Vale a pena visitar alguns dos alambiques na estrada Paraty-Cunha (Alambique Paratiana, Fazenda Murycana e Engenho D’Ouro). Prove as cachaças da série "ouro" envelhecidas por até 20 anos, a "prata" e as versões mais populares, como a "Gabriela" com cravo e canela, a "Caramelada" com melado e a de cachaça de milho. A cachaça é o mais típico dos prazeres etílicos de Paraty.

As famosas cachaças de Paraty.

Para comprar cachaças paratienses no centro histórico indico:

Armazém da Cachaça. Aproveite para degustar as cachaças Maria Izabel, Coqueiro, Paratiana, Gabriela. Rua do Comércio, 279.

Empório Santo Antônio. Rua Marechal Deodoro, 275.


GASTRONOMIA CAIÇARA


Foi no período colonial que a cidade se desenvolveu. Era dali que partiam para a Europa os navios carregados das riquezas que vinham de Minas Gerais. Os trabalhadores desciam da serra para o mar trazendo ouro e diamantes. Ao retornarem levavam cachaça, farinha e peixe seco. Isso explica a tradição gastronômica local. Paraty produz boa cachaça e farinha de mandioca desde os tempos do Brasil Colônia. O sotaque caiçara é forte na culinária, mas não é o único a conquistar os visitantes de Paraty. A cidade tem excelentes restaurantes italianos, franceses e até tailandeses. Bons restaurantes não faltam. Vou indicar meus preferidos.

Banana da Terra. Culinária caiçara. Delicioso e com ambiente super agradável. Vive cheio por isso recomendo que faça reserva. Fica na rua Dr. Samuel Costa 198, no centro histórico. Telefone: 24 3371.1725.

Banana da Terra.

Quinta das Letras. Restaurante elegante da Pousada Literária. Serve uma culinária contemporânea com influência caiçara. Tem saladas fresquíssimas com verduras vindas da Fazenda Bananal. Fica na rua do Comércio, 58. Telefone: 24 3371.2616.

Caminho do Ouro. Restaurante delicioso no centro histórico. À começar pelos mini pãezinhos do couvert servidos quentes. Peça o peixe em crosta de ervas com nhoque de milho. Rua Dr. Samuel Costa, 181.  Telefone: 24 3371.1689.

Punto de Vino.  Tratoria italiana que serve ótimos carpaccios e pizzas. Já aviso que o peixe não é o forte da casa. Fica no centro histórico na Praça da Matriz.

Punto di Vino é um restaurante italiano na esquina da Praça da Matriz.

Villa Verde. Restaurante bem rústico na estrada Paraty-Cunha Km 7, na beira de uma cachoeira. Para chegar é preciso atravessar uma ponte pênsil. É boa pedida para aquele dia que você resolver dar uma circulada pelas cachoeiras e alambiques da região e quiser almoçar por ali. Telefone: 24 3371.7808.

Voilá Bistrô. Também na estrada para Cunha Km 4 num local delicioso em plena Mata Atlântica. O restaurante abre para o jantar. Apenas nos domingos abre para o almoço. Serve camarões flambados na cachaça. Faça reserva pois o restaurante tem poucas mesas. Telefone: 24 3371.6548.

OS MELHORES HOTÉIS DE PARATY


CASA TURQUESA. Essa é minha escolha número um. O hotel ocupa um casarão histórico na rua Dr. Pereira, uma da ruas que costumam inundar durante a maré alta. Tem apenas 9 quartos muito bem cuidados, claros, arejados e com decoração charmosíssima. O hotel não aceita crianças. Os hóspedes são recebidos com frutas e quarto perfumado. O frigobar é liberado com exceção das bebidas alcoolicas. De tarde, um lanche com bolo quente é servido. O serviço é muito atencioso.

Quarto marron da Casa Turquesa.

Piscina da Casa Turquesa.

POUSADA LITERÁRIA. Essa é a escolha perfeita para quem quer um hotel mais amplo e viaja com filhos. Dispõe de 29 apartamentos. Tem uma piscina charmosa num jardim lindo, além de sauna, spa, sala de leitura e excelente restaurante. Os quartos são amplos, mas pouco iluminados e já merecem uma reforma. Sofás desbotados, travesseiros ruins e toalhas mal cheirosas. O serviço já foi melhor. O café da manhã é excelente e pode ser servido durante todo o dia. Na saída, os hóspedes recebem de presente hortaliças da Fazenda Bananal que abastece o hotel. Muito simpático.

Suite Master da Pousada Literária. 

Piscina da Pousada Literária.

Outra pousada simpática no centro histórico é a Pousada do Sandi.


CONCLUINDO

Escrever sobre Paraty é fácil. A cidade alegra todos os sentidos com suas cores, com as delícias da gastronomia caiçara, com os banhos de cachoeira, com os mergulhos no mar, com sua história. Não tem como não se encantar. Paraty merece pelo menos quatro dias para se revelar.

Assim é Paraty.

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COMENTÁRIOS

  1. Depois de ler o teu texto e ver as fotos, querida Cláudia, decidi visitar Parati. Obrigada.Beijos

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    1. Aldema,

      As cidades históricas brasileiras merecem realmente nossa atenção. Paraty é muito especial, pois além da força do passado tem um entorno de grande beleza natural.
      Fiquei muito feliz por ter servido como fonte de inspiração. :))

      Beijos

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  2. Lugar maravilhoso! Mas tem pousadas simples e belas também. Vale o passeio.

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    1. Sim, Ju!

      Tem pousadas de todos os padrões. Essas duas são as que se ajustam ao perfil do blog.

      Beijo

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