RUMO AO NINHO DO TIGRE, EM PARO


Butão. Reino da Felicidade. Isolado do mundo. No topo do Himalaia. Cheio de personalidade. Budista ao extremo. Misterioso. Comandado por um rei jovem e amado por todos. De uma simplicidade comovente. Terra de monges sorridentes. E, repleto de templos. Muitos templos. Mas, nenhum é mais sagrado e lendário do que o Taktshang Goemba, o Ninho do Tigre.

Pausa para descanso na subida ao Ninho do Tigre.

Paro é a cidade esperada com mais ansiedade numa viagem ao Butão. O motivo é a visita ao grande templo sagrado: Tiger's Nest. Chegar lá não é fácil. A altitude é o primeiro fator a se considerar. Paro fica a 2400 metros. Até aí tudo certo. Soma-se a essa altitude mais 800 metros devidamente trilhados montanha acima entre ladeiras íngrimes e escadarias sem fim. O resultado, após duas horas e meia só pode ser traduzido em exaustão total e recompensa absoluta. O templo é realmente divino! De uma força inacreditável.

O Ninho do Tigre encravado no morro a uma altitude de 3200 metros, em Paro, Butão.

Parti de Punakha, antiga capital do Butão, em direção a Paro, ansiosa para o grande dia. Esse trajeto é feito em 4 horas pela única estrada do país. Sinuosa e precária. No entanto, dona de um cenário deslumbrante e cheio de templos, montanhas, mercadinhos, povoados, arrozais, macacos... Passa rápido e nem dá para cansar muito. Mesmo assim, dediquei o final do dia a um bom descanso no hotel Amankora Paro - que tem massagens excelentes feita por um massoterapeuta americano. Afinal, o dia seguinte seria bem cansativo apesar de muito esperado. Subir até o Ninho do Tigre não é para qualquer um. Exige bom preparo físico e determinação.

Estrada Punakha - Paro. Cenário incrível.

É preciso dedicar um dia inteiro à visita ao monastério. E a caminhada deve começar muito cedo para evitar calor excessivo e gente demais na trilha.

Ao iniciar a trilha nem dá para ver direito o Ninho do Tigre, pois ele se confunde com a própria montanhaJá, as bandeiras de oração são vistas por toda parte.

Dá para subir a pé ou de burrico. Fiquei com pena dos animais e nem pensei nessa hipótese. O caminho é muito acidentado e não sei como os bichinhos conseguem subir. Muitas vezes eles empacam, claro. Então, puxa daqui empurra dali e lá vão eles morro acima com carinha de acabados. 


Cavalos e burros podem ser usados para subir um pedaço da trilha que leva ao Ninho do Tigre. Mesmo assim, eles não vão até o monastério. Ainda é preciso andar um bom pedaço e depois disso, subir muitas escadarias.

Os burricos também transportam alimentos para os monges e para quem mora nessa região.

Mais ou menos na metade do caminho há um local para descanso com uma cafeteria e banheiros. Muita gente faz uma pausa para descansar nesse ponto. Eu já saí do hotel com água e frutas na mochila. Então, resolvi subir direto para chegar bem cedo. 


Perto dessa roda de oração há uma cafeteria para quem quiser descansar a caminho do Ninho do Tigre. 


No trajeto há muitas oferendas budistas. São essas pedrinhas amontoadas à minha frente e no vão da caverna às minhas costas. 

Segundo diz a lenda, o Guru Rinpoche - uma das figuras religiosas mais importantes do país - voou até o topo dessa montanha montado em um tigre no século VII e passou três meses meditando na caverna antes de espalhar o budismo pelo país. O Monastério de Taktshang foi construído em 1692 nessa caverna. É formado por quatro templos e uma ala de dormitórios. Os prédios são encravados na pedra em diferentes níveis e conectados por pontes e escadarias. O templo já sofreu alguns incêndios, sendo o último em 2000 e as partes afetadas foram refeitas. 

 Pequeno templo encravado na pedra com uma cachoeira ao lado. O silêncio é entrecortado apenas pelo barulho da água e pelo canto dos pássaros. A paz reina absoluta no Ninho do Tigre.

 Muitas bandeiras de oração tremulam ao vento para espalhar boas energias pelo Butão. Não dá para imaginar como foram penduradas naquela altura sobre penhascos que chegam a 900 metros.

Ninho do Tigre - Taktshang.

Na chegada é preciso deixar as máquinas fotográficas e telefones celulares num locker e tirar os sapatos. Lá dentro, o silêncio é total, a devoção dos monges comovente e o cheiro do incenso envolve o ambiente de tal maneira que você se sente transportado para uma outra dimensão. A magia do momento faz valer  todo o esforço da subida. Os butaneses dizem que uma hora de meditação no Ninho do Tigre equivale a três meses de meditação em outros templos. Isso mostra como o lugar é considerado sagrado para os budistas. 


Butanês na trilha do Tiger's Nest com seu terço na mão.

Informações importantes sobre o Ninho do Tigre :
  • Altitude: 3200 metros
  • Tempo para chegar sem paradas: 2 hs e 30 minutos
  • Grau de dificuldade: de moderada a grande
  • Acesso: a pé ou de burro (aconselho ir a pé)
  • O que é necessário: tênis confortável e que não escorregue, mochila pequena com água e alguma coisa para comer, boné, óculos escuros e muita gente carrega um cajado para auxiliar na descida.
  • O que ver no caminho: bandeiras e rodas de oração, estupas, oferendas budistas e um visual lindo
  • Onde descansar: há uma cafeteria mais ou menos no meio do caminho.
  • Nota: 10!!! Espetacular!!!

Que Guru Rinpoche abençoe e proteja nosso amor para sempre!

PARO ALÉM DO NINHO DO TIGRE

Claro que o Ninho do Tigre é o ponto alto não só de Paro como do país. A cidade em si é bem pequena. Tem uma população de menos de 5 mil habitantes, mas é muito visitada tanto pelo sagrado monastério como por ser a cidade onde chegam os voos internacionais. É a porta de entrada do Butão.

Paro.

O centro tem praticamente "uma rua principal" cheia de lojinhas bem simples - que são as melhores do país. Fazer compras no Butão é difícil. Além de haver poucas coisas à venda, os preços para estrangeiros são exorbitantes.

Dica: na descida do Ninho do Tigre tem algumas senhoras que vendem peças tibetanas por preços bem mais em conta. Melhor lugar para comprar uma lembrança.

Rua principal de Paro com seu anfiteatro e lojas.

Comerciante butanesa (com a boca toda vermelha de mascar doma) confeccionando uma sacola com tiras de plástico para vender na sua loja.

Batendo um papo com o amigo butanês em frente ao mercado.

As lojas são na maioria mercados que vendem alimentos. Há algumas que vendem roupas femininas e masculinas, artesanato, esculturas, máscaras e terços. Nem os consumistas mais ferrenhos conseguem encher a mala no Butão. Afinal, o espírito da viagem é outro, uma visita à espiritualidade.

OUTROS MONASTÉRIOS SAGRADOS

Muito importante em Paro é o antiguíssimo Kyichu Lhakhang. Foi um dos 108 templos construídos no século VII pelo imperador tibetano Songsten Gampo. Esse número é místico para os budistas. 

Kyichu Lhakhang.

Diz a lenda que Guru Rinpoche meditava ali e que o templo ainda guarda tesouros espirituais do grande líder. Em 1971, a rainha esposa do rei Jigme Wangchuck Dorji construiu mais um novo templo ao lado do antigo. Desde então, muitos rituais para o bem-estar do povo são realizados ali. No pátio há duas laranjeiras e existe uma crença de que elas são sagradas por darem frutos o ano inteiro. 

Parte nova do Kyichu Lhakhang.


Estupa do templo Kyichu Lhakhang, em frente às laranjeiras sagradas.

O acesso ao templo é feito por uma estrada de terra que passa no meio de plantações de arroz. De uma paz incrível. Dá vontade de sentar e ficar apenas curtindo o visual.


Estrada que conduz ao Kyichu Lhakhang.

Do outro lado do rio se avista o imponente Rinpung Dzong também chamado de Paro Dzong. Seu nome significa "monte de joias". O complexo é formado por mais de 10 prédios belíssimos de arquitetura butanesa sendo que um deles é o Museu Nacional do Butão, outro abriga a área administrativa de Paro. Também há templos e uma ala residencial para 200 monges.

Rinpung Dzong.

Esse forte e monastério foi inicialmente construído no início do século X como um pequenino templo. Mas, sua estrutura como consta atualmente data de 1646. No entanto, já sofreu com incêndios e terremotos. Grande parte do que se vê foi refeito. É interessante observar que sua fachada externa é feita de pedras, diferente dos outros monastérios que são quase sempre de barro. No hall de entrada há várias pinturas budistas.

Pinturas do Rinpung Dzong.


Prédio central do complexo.

Rinpung Dzong.

Pátio interno do Rinpung Dzong.

Detalhes das estruturas de madeira das janelas e portas do monastério de Paro.

Rodas de oração não podem faltar.

O ESPORTE NACIONAL

O arco e flecha é o esporte nacional do Butão. Por onde quer que se passe tem gente treinando. É preciso tomar cuidado e passar longe para não levar uma flechada. Em eventos sociais geralmente há competições de arco e flecha como parte da festividade. Nesse caso, os times são formados por 13 componentes. Cada time lança a flecha duas vezes em direção ao alvo e os campeonatos duram alguns dias. A distância do jogador ao alvo é de 130 metros e os alvos são menores do que os olímpicos oficiais. Os arcos são feitos de bambu. Há uma grande competição de arco e flecha durante as comemorações do Ano Novo Butanês e Tibetano.

Esse é um esporte tranquilo. Muito mais de auto-controle e concentração do que de vigor físico. Os butaneses não têm o hábito de praticar exercícios como os japoneses e os chineses, por exemplo. Talvez esse seja um dos fatores de terem uma média de vida baixa, ao redor de 60 anos.

Meninos treinam arco e flecha, em Paro.

O TRAJE NACIONAL FEMININO - KIRA

As roupas tanto masculinas como femininas são encantadoras no Butão. São usadas por todos desde o rei até um simples plantador de arroz. O que muda são os tecidos e os adereços que podem ser mais sofisticados ou mais simples. O traje masculino se chama Gho e o feminino Kira. 

Roupas femininas, Kira.

Resolvi experimentar. Comprei a roupa em uma loja no centrinho de Paro. A roupa feminina se resume em um tecido enorme (como uma canga). É presa apenas nos ombros com dois prendedores e na cintura por um cinturão largo e colorido. Mas, é muito difícil fazer a amarração correta. Precisei da ajuda de uma funcionária do hotel para me vestir. O resultado segue abaixo. Foi uma bela experiência. 

Aprendendo a vestir a Kira.

E depois de oito dias no Butão chegou a hora de ir embora. Foi uma viagem fascinante. Aprendi muito sobre o budismo. Convivi com pessoas espiritualizadas. Tive momentos de muita paz naquele país escondido no meio dos picos nevados do Himalaia. Aquele horizonte perdido é a própria Shangri-la de James Hilton. Um paraíso onde o tempo parou e a felicidade corre solta contagiando à todos.

E lá no fundo desses picos se esconde o Reino da Felicidade.

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Kuzuzangpola!


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COMENTÁRIOS

  1. Muito legal! É um país que tenho muita vontade de conhecer. :)

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  2. Cláudia,
    estou encantada com sua viagem, seus relatos e fotografias. Parabéns! Já coloquei o Butão na minha lista.
    Danielle C.

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  3. Coloca mesmo, Danielle.

    Você não vai se arrepender.

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  4. Que viagem incrível!
    Eu imagino a dificuldade para selecionar fotos, pois de todos estes posts que vc fez, eu não ia conseguir eleger as 10 mais bonitas, imagina vc para fazer os posts!!
    Parabéns, e obrigada por partilhar conosco tanta beleza.

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  5. Carina,

    As fotos ficaram linda mesmo. Tive sorte de pegar dias fresquinhos e super ensolarados. Temperatura perfeita e cores lindas.

    O Butão é super fotogênico. rsrsrsr

    Beijos

    Claudia

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  6. Claudia
    Que conclusão de viagem espetacular!!!!!!
    lindíssimas fotos
    abs
    VS

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  7. Realmente. Melhor impossível.

    Só tenho a agradecer :)

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  8. Olá, tudo bem?

    Parabéns pelo blog, conheci há pouco tempo e adorei!!!

    Estou indo amanha para uma eurotrip de 40 dias e vou sozinha e com o intuito de compartilhar as novidades da viagem e os proparativos também, eu criei um blog, que virará quase um diário de bordo em tempo real.

    Quero te convidar para conhecer o blog. Se achar interessante, sinta-se a vontade para citá-lo.

    Mas é um blog muito simples, apenas com a intenção de compartilhar a minha experiência.

    http://vibere.blogspot.com.br/

    Beijos.

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  9. Dani,

    Vou acompanhar sua viagem.

    Boa sorte e aproveite muito!!!!

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  10. Que post lindo e colorido!!! Perfeito, como sempre! Bjs

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  11. Nossa Claudia, mais uma de suas viagens para nos deixar com água na boca!

    O Butão é um país que a gente ouve falar pouco, mas depois das suas fotos e relatos entrou na lista de desejos.

    Creio que deve ser mesmo uma viagem que nos faz voltar com o espírito bem mais leve!

    Bjs

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  12. Isabel,

    O Butão enche o espírito de paz e tranquilidade. Amei essa viagem.

    Obrigada pelos comentários tão gentis.

    Bj

    Claudia

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  13. Adorei o post! Fotos lindas e texto muito interessante, como sempre!

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  14. Melinha,

    Que bom receber um recado seu. Tudo bem na terra do Tio Sam?

    Beijos

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  15. Impressionante...as vezes tenho vontade de largar td dessa vida de moderinidade e stresse e viver de forma singela num local como esse!

    Espero poder conhecer esse lugar um dia!

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  16. Rafael,

    Essa foi a viagem mais incrível que já fiz. Espetacular o Butão.

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