CONHEÇA MATERA, A CIDADE QUE ENCANTOU MEL GIBSON NA ITÁLIA



Uma cidade diferente de tudo que você possa imaginar. De personalidade "bipolar", no melhor sentido possível. Tem um lado rústico, cavernoso e eu diria até que sombrio, na cidade baixa. Outro animado, jovem e cheio de vida, na cidade alta. Essa estranha mistura de humores revela um dos tesouros mais instigantes da Itália, a pequena cidade histórica de Matera.


GRUTAS DE MATERA, UM ESPETÁCULO À PARTE

Explico melhor. Matera também conhecida como “Cidade Subterrânea” foi construída na borda de um desfiladeiro rochoso, na região de Basilicata, no sul da Itália ainda na pré-história. É um dos locais mais antigos do mundo habitado pelo homem e ainda preservado. Nessa época, os habitantes moravam, ou melhor, se abrigavam em grutas e cavernas esculpidas nas rochas - chamadas de “sassi” que significa “pedras” em italiano. As cavernas eram escavadas de modo caótico, umas sobre as outras, formando verdadeiros labirintos. E foram feitas durante muitos séculos. É surreal. Parece cenário de outro planeta. Lembra muito a Capadócia, na Turquia (leia sobre a Capadócia AQUI).

Matera é muito singular. 

Muitos anos depois, entre os séculos VIII e XIII, monges membros da igreja greco-bizantina passaram a se refugiar nessas cavernas após serem expulsos do seu território. Isso explica a grande quantidade de igrejas rupestres construídas dentro das cavernas de Matera, ao redor de 150. Visitar a cidade é voltar no tempo, literalmente. É incrível como a fundação da cidade permanece praticamente intocada ao longo de tantos séculos.

Matera é uma verdadeira viagem no tempo.

Agora vamos à segunda parte. Depois do século XVII a cidade alta começou a se desenvolver. Surgiram grandes mansões, conventos, palacetes, monastérios. Foi criado um sistema hidráulico inovador para abastecer a cidade com água e garantir a distribuição com facilidade, já que ela fica num desfiladeiro. Dá até para visitar a enorme cisterna subterrânea, Palombaro Lungo, construída nessa época para armazenar 5 milhões de litros d’água. Ela fica debaixo da praça e só perde em tamanho para a de ISTAMBUL (leia mais sobre Istambul AQUI)

Cidade Alta, a parte mais elegante de Matera.

Mas, enquanto a cidade alta floresceu, a parte baixa foi se degradando até ser abandonada. Mais de 15 mil pessoas viviam de maneira miserável nas cavernas compartilhando espaço com animais. Os moradores foram obrigados pelo governo a se mudar por falta de condições mínimas para manter uma vida saudável. Realmente, imagina só viver numa caverna sem luz e sem água, em situação precária junto com animais. No livro “Cristo parou em Eboli”, que virou filme em 1979, o autor Carlo Levi compara o drama da vida em “Sassi” com o inferno. Sassi di Matera virou uma cidade-fantasma até a década de 80 quando uma lei nacional destinou verbas para a recuperação da área histórica dividida em Sasso Caveoso e Sasso Barisano.

Sasso Caveoso.

Em 1993, a UNESCO tornou a área de “Sassi” um Patrimônio da Humanidade. Merecidamente!

PAIXÃO DE CRISTO EM MATERA


Como dá para perceber, Matera é formada por duas partes distintas e absolutamente complementares. Em pleno inverno europeu encontrei um local cheio de vida, movimentado, com muitos jovens reunidos nas ruas e praças até altas horas da noite (o que surpreende na Itália por ser um país formado por uma população mais idosa). Por outro lado, fiquei hospedada num hotel singular, no silêncio profundo e na penumbra misteriosa de uma caverna, o Sextantio LeGrotte della Civita. É uma espécie de cidade construída sobre camadas de história. Atrai muitos turistas que buscam por esse contraste entre o novo e o velho, o silêncio e o agito, o alto e o baixo, o sofisticado e o rústico. Por isso, não foram poucos os filmes gravados ali. Mais de quarenta. O mais badalado foi a “Paixão de Cristo”, com Mel Gibson, em 2004.

Matera é muito cenográfica

O QUE VER NA CIDADE


Para ficar mais fácil divida a cidade em 4 partes.

1. Comece explorando a parte alta da cidade, que é a mais central e mais movimentada. Vá da Piazza Vittorio Veneto a Piazza Duomo. Em cada uma dessas praças tem um balcão panorâmico para se ser ver a parte baixa da cidade (Sasso Caveoso e Sasso Barisano). Ao longo da caminhada você vai passar por algumas portas antigas, pelo Castelvecchio e pelo Palazzo Ridola até chegar na Catedral.

 Piazza Duomo.

2. Depois vá ao o interessantíssimo Sasso Caveoso, na cidade baixa. Inicie sua caminhada na Piazza Duomo onde fica a Catedral e comece a descer. Vá até o balcão panorâmico da Piazza Postergola onde fica o Monastério de Santa Lucia, siga até as igrejas de San Pietro Caveoso, Madonna dell’Idris, S. Lucia Alle Malve, Santa Maria di Armeni e tantas outras. Nessa região tem uma zona arqueológica interessante, muitas casas antigas recuperadas nas cavernas que podem ser visitadas, restaurantes e hotéis legais nas grutas. Então, suba novamente a escadaria, passe pelo Museu Nacional de Arte Medieval e Moderna e finalize sua caminhada no balcão panorâmico Belvedere Guerricchio que é o mais interessante para se ver o pôr do sol.

 Pôr do sol visto do Belvedere Guerricchio.

3. Agora descubra os encantos de Sasso Barisano, que tem esse nome por ser a região de grutas e cavernas voltadas para a cidade de Bari. Inicie a caminhada (são muitas caminhadas deliciosas) na Fontana Ferdinandea, que fica na Piazza Vittorio. Passe pela igreja San Domenico, pelo antigo Hospital San Rocco, pela universidade (o que justifica a quantidade de jovens na cidade e a vida noturna intensa), pela igreja de San Rocco, explore cada cantinho dos labirintos monocromáticos com casas de pedras e tantas igrejas rupestres.

Sasso Barisano

4. Visite o Castelo Tramontano que fica num parque enorme em frente ao Convento de Santa Lucia. Dá para ir caminhando.

5. Se você tiver interesse em fazer trilhas há muitas opções no Parque Della Murgia Materana, um parque arqueológico incrível no cânion. Não tive tempo para explorar. Mas, fiquei muito tentada. Olhando do alto do Belvedere se vê muita gente andando pelas estradinhas rudimentares nas montanhas. Dá para ir sozinho ou com guia para visitar algumas das tantas construções rupestres transformadas em igrejas . O centro de informações turísticas da cidade é excelente. Oferece mapas bem fáceis e material com boas explicações.

Parque della Murgia.

COMO CHEGAR


Matera fica na região de Basilicata que não tem aeroporto. O mais próximo fica em Bari, na Puglia, a 66 quilômetros. De Bari é possível fazer o trajeto de carro, trem ou ônibus.

Como cheguei na Itália por ROMA (leia mais sobre Roma AQUI) optei por alugar um carro e dirigir os 450 quilômetros que ligam as duas cidades, uma vez que eu ficaria uma semana rodando pela Puglia e Basilicata. As estradas são boas e o percurso é feito em aproximadamente 5 horas.

ONDE DORMIR

Escolhemos um hotel que transformou a visita a Matera numa super experiência. Optamos pelo Sextantio Le Grotte della Civita, no Sasso Barisano. Ele tem apenas 18 quartos em cavernas, alguns com até 160 metros quadrados que eram usados como estábulo. A área comum do hotel (recepção e local onde é servido o café da manhã) era ocupada por uma antiga igreja rupestre. O projeto de recuperação do local é levado com muito carinho por um empresário italiano que também tem outra propriedade em Abruzzo.

 Café da manhã do hotel Sextantio.

Cada quarto tem uma configuração própria conforme a caverna que ocupa. A restauração é absolutamente respeitosa com a arquitetura, com a história e com a cultura da região fazendo a menor intervenção possível no patrimônio, mas garantindo o máximo de conforto, inclusive com o chão aquecido. Cama extremamente confortável e de aparência muito rústica condizente com o ambiente. Lençóis e travesseiros excelentes. Aliás, os móveis todos são feitos com material reciclável. A iluminação é indireta e muito suave. Tem velas espalhadas pelo quarto todo. Os banheiros são conjugados com os quartos, não há portas internas. Banheiras modernas, com design retro ficam elegantemente acomodadas num canto do quarto e convidam a uma volta no tempo. Amenities feitas com produtos orgânicos. O serviço não tem como ser mais atencioso. Na chegada havia vinho e frutas no quarto. Café da manhã com produtos fresquíssimos e os tradicionais pães da região servidos naquele lugar inusitado que era uma igreja. Divino. Recomendo totalmente!

Dormir numa gruta é uma experiência inusitada.

ONDE COMER BEM


Estamos falando da Itália, portanto bons restaurantes não faltam. Indico:

Bacanti (Via Sant’Angelo 58-61, em Sassi)
Osteria L’Arco (ele é escondidinho na cidade alta, coloque o endereço no Waze, Via delle Beccherie 49)
Gatta Buia (Via delle Beccherie 90-92, quase ao lado do anterior)


Matera me encantou completamente. Foi uma experiência e tanto. Fui embora com vontade de ficar mais alguns dias. Ainda não estava pronta para a despedida. Quero voltar com certeza. Se você ainda não conhece o sul da Itália recomendo que vá. Matera é inacreditável!


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