BOM DIA, HANÓI!


Hanói foi minha porta de entrada no Vietnã. E, quase que a porta se fecha na minha cara. Sabe por que? Porque dei uma de amadora. Simplesmente, esqueci de providenciar o visto de entrada. Nem dá para acreditar, não é mesmo? Às vezes acontece até com quem é cascudo. Que tremenda falha.

Passei uma semana em Bangkok despreocupada pois coloquei Cambodia e Vietnã na mesma categoria quanto ao visto. Ou seja, tinha como certo que o visto poderia ser feito no aeroporto, na entrada do país. Que nada. No aeroporto, na hora do ckeck in, cadê o visto? Era domingo. Embaixada fechada. Como proceder? Por sorte, eu havia chegado com bastante antecedência para o embarque e deu tempo de contar com a “máfia do visto vietnamita”. No balcão da Thai Airways, a funcionária prontamente abriu seu IPad, entrou num site pirata para vistos de urgência ao Vietnã e gentilmente preencheu todos os dados. Apesar de pagar uma exorbitância, tive que confiar na funcionária pois não tinha outra alternativa. Depois de tudo feito, recebi um e-mail dizendo que na chegada eu deveria ligar para um número de telefone que me foi enviado e aguardar por um funcionário. No e-mail também dizia, em letras maiúsculas grifadas de amarelo, que se eu tentasse entrar sem ligar para esse número seria “mandada para fora do país imediatamente”. Outra coisa estranha é que em letras vermelhas dizia que depois de ler, o e-mail deveria ser imediatamente apagado. Olha o medo. Mas, eu não tinha outra jeito. Fiz tudo conforme o combinado e deu certo. Ufa! Já no Vietnã, um rapaz me levou à um balcão especial da imigração, ficou com meu passaporte por uns 10 tensos minutos e resolveu a entrada que custou mais de 200 dólares. O valor do visto costuma ser 20 dólares para quem não come mosca. Portanto, fica a dica. Façam o visto no Brasil! Não dêem mole, como eu.

Para meu alívio, ao sair do aeroporto avistei aquela bendita plaquinha do transfer para o hotel com meu nome. Que alegria. Acabou dando tudo certo.

Hotel Sofitel Legend Metropole, Hanói.

A CHEGADA NO HOTEL

Mergulhei na loucura do trânsito de Hanói, a segunda maior cidade do país, num final de tarde chuvoso. Um turbilhão de motos, bicicletas cheias de coisas penduradas, carros velhos e pedestres circulavam na direção que bem entendiam, buzinando e desviando uns dos outros sem a menor organização. Sinais de trânsito quase não há. Sentido obrigatório, parece que também não. Meus olhos não conseguiam acreditar naquela confusão. Ver as pessoas atravessando a rua calmamente no meio do caos era assustador. Mas, no fim das contas tudo dava certo. Não vi um acidente sequer. A regra é seguir em frente sem olhar para trás. Uma bagunça deliciosamente organizada.


O caos impera pelas ruas de Hanói. 

Meia hora depois cheguei sã e salva no hotel Sofitel Metropole, um oásis no meio da bagunça. O hotel cinco estrelas é o mais classudo, mais antigo e mais prestigiado da cidade. É lindo com sua fachada em estilo colonial francês. Os quartos foram recém reformados e são muito bem decorados. Tem mimos constantes para os hóspedes. Frutas, doces e biscoitos são deixados diariamente no quarto. O banheiro é lindo e moderno. O hotel por si só é uma atração na cidade. Vi muitos casais de noivos sendo fotografados nas imediações do prédio histórico.

Quarto do hotel Sofitel Legend Metropole, Hanói. 

Foto clássica para registrar as bodas em Hanói.

Embaixo da piscina, um bunker pode ser visitado. Ele já abrigou Joan Baez e Jane Fonda durante os ataques americanos quando protestavam contra a guerra. Outras figuras importantes como Charles Chaplin, Somerset Maugham, Graham Greene e Vladimir Putin também passaram por lá.

Embaixo dessa piscina do Sofitel Metrople há um bunker.

UMA CIDADE ENCANTADORA

Hanói é a atual capital do país e também foi capital da antiga Indochina. É a cidade mais importante do norte do Vietnã e me conquistou de cara. Foi fundada em 1010 por um imperador. Nem é tão antiga assim se comparada à sua vizinhança, mas tem uma mistura arquitetônica interessante. Casarões do Bairro Antigo e prédios coloniais franceses misturados com construções imponentes dos tempos soviéticos dão um toque especial. 


Avenidas amplas em Hanói e prédios coloniais como herança da dominação francesa.


Prédios acinzentados e imponentes em Hanói, herança soviética.

Andando pelas ruas, vendedores com chapéus em forma de cone carregam sorridentes frutas, pães e flores para vender. Levam tudo em bicicletas ou nas costas, em duas cestas equilibradas em um bastão.

 O sorriso no rosto da vendedora de frutas.

Uma bicicleta carregada de flores enfeita as ruas de Hanói. 

No coração da cidade, alguns lagos se encarregam de dar um pouco de serenidade ao ritmo acelerado. O Hoan Kiem é o mais popular e misterioso. Diz a lenda, que um certo general recebeu nesse lago uma espada mágica de uma tartaruga divina que por ali vivia. Com ela, os chineses foram expulsos da região. Mais tarde, a tartaruga apareceu novamente para o general quando ele remava no lago e pediu a espada de volta.  Daí vem o nome Hoan Kiem que significa "Espada Devolvida". Tudo no lago gira em torno da lenda. Um pequeno pagode chamado Thap Rua ou Torre da Tartaruga foi construído com referência ao evento.

Pagode Thap Rua no Lago Hoan Kiem.

De noite, o pagode fica iluminado e muitos casais vestidos em trajes vietnamitas posam para fotos.

Ainda no lago há uma pequenina ilha que pode ser acessada pela ponte The Huc ou Ponte Raio de Sol. A ponte vermelha com o templo ao fundo é um dos principais cartões postais da cidade. Ali foi construído o Den Ngoc Son ou Templo da Montanha de Jade que é uma das construções religiosas mais importantes de Hanói. Numa das salas há uma tartaruga gigante que viveu no lago e dizem ser a tal tartaruga divina. O templo reverencia os espíritos da terra, a medicina, a literatura e o general que derrotou os chineses.

Ponte The Huc, no lago Hoan Kiem, no coração de Hanói.

 A ponte leva ao importante Templo Den Ngoc Son.

Uma enorme estátua de bronze chama atenção numa praça perto do lago. É uma homenagem a Ly Thai To, o fundador da cidade. Os vietnamitas costumam oferecer flores e incensos que colocam aos pés da estátua.

Estátua de Ly Thai To.

A parte mais interessante da cidade fica ao redor desse lago. Nas suas imediações está o imperdível Teatro de Marionetes na Água Thong Long. É uma experiência cultural tradicionalmente vietnamita onde lendas locais são contadas com as roi nuoc ou bonecas de madeira esculpidas à mão que se apresentam num palco sobre a água. Esse tipo de performance começou no século XI às margens do rio que atravessa Hanói. Os fantoches articulados do teatro vietnamita tem fama mundial. Ao longo da performance eles se movimentam dentro da água guiados por bonequeiros que ficam escondidos atrás de uma cortina com água até a cintura. Ao lado do palco, uma orquestra toca com instrumentos típicos do país. As apresentações duram ao redor de uma hora. Há várias sessões durante o dia e o preço é muito barato. O melhor lugar para sentar é a primeira fila. Não deixe de ir e na saída compre um exemplar de uma marionete envernizada.

Teatro de Marionetes na Água Thong Long.

Ao sair do teatro não dá para deixar de dar uma caminhada pelo Bairro Antigo sempre animado, bagunçado e cheio de gente vendendo de tudo que se possa imaginar. Essa é a área comercial mais velha da cidade. Começou a funcionar no século XIII com o estabelecimento de artesãos que trabalhavam para suprir as necessidades do imperador. A região também é chamada de 36 Ruas. É uma confusão cheia de personalidade. Vale a pena caminhar pelas ruelas, dar uma parada no Templo Bach Ma, ao Mercado Dong Xuan e quando a fome bater tem um restaurante tradicional com apenas um prato de tamboril no cardápio Cha Ca La Vong. Não tive tempo de experimentar, mas dizem que é ótimo. A comida de Hanói é espetacular. Amei todos os restaurantes que experimentei.

  

Bairro Antigo de Hanói.

Ainda nos arredores do lago Hoam Kiem vale a pena visitar a Catedral de San José com suas torres imponentes, o Templo Hai Ba Trung, o Pagode Lien Phai, o Museu de História e a grandiosa Ópera repleta de colunas

Ópera de Hanói.

A cidade sofreu bombardeios violentos durante a guerra, mas teve a sorte de manter intactos muitos de seus templos e pagodes.

O Templo da Literatura foi a primeira universidade do país. Construído em 1070, ensinava a doutrina de Confúcio. É o mais antigo e um dos mais bonitos de Hanói. O templo, de arquitetura chinesa, serve como hall de entrada para a Universidade Nacional. É formado por cinco pátios separados por muros com portões ornamentados. Por sorte visitei o templo num dia de festa. Alunos de toga comemoravam suas formaturas tirando fotos da turma no pátio. O clima que costuma ser sossegado e perfumado pelos incensos dava lugar a algazarra e a alegria da garotada que comemorava jogando o chapéu para o alto na hora da foto oficial.

 Formandos no Portão Van Mieu, a entrada principal do Templo da Literatura.

 Poço da Clareza Celestial, Thien Quang Tinh, no terceiro pátio do Templo da Literatura. 

 Os alunos comemoram sua formatura em frente a Sala de Música. 

 Templo de Confúcio.

 O Templo de Confúcio também tem estátuas de quatro dos seus principais discípulos. 

Outro pagode importante e dos mais antigos de Hanói é o budista Tran Quoc. Foi o que achei mais interessante não só pela localização entre dois lagos, o Lago Oeste e o Lago Truc Bach, mas também pela estrutura em 11 níveis. Cada um desses andares tem 6 portas e em cada uma delas há uma estátua. Como essa obra aparentemente tão delicada, de 15 metros de altura, conseguiu sobreviver a tantas guerras é uma incógnita. Aliás, por falar em guerras, foi nesse lago que o piloto americano e futuro senador dos Estados Unidos John McCain foi abatido enquanto voava e aprisionado. 

 Pagode Tran Quoc, Hanói.

Ao sair desse pagode basta atravessar a rua que há outro lago com um jardim flutuante em frente a um café. Aliás, cafés não faltam no Vietnã. O país é conhecido mundialmente pela qualidade do seu café. Pelas ruas há sempre muitas cafeterias cheias de gente. 

Jardim flutuante no lago.

Ainda nessa região visitei o templo taoísta Quan Thanh que data do século XI. É considerado um dos quatro templos sagrados de Hanói porque como dizem, protege a cidade contra os espíritos ruins. Dentro do templo há uma estátua de Tran Vu, uma importante entidade do taoísmo, feita em bronze preto com quase 4 metros de altura e 4 toneladas.

 Estátua taoísta no Templo Quan Thanh.

Pátio interno do templo Quan Thanh.

Um lugar que impressiona é o Museu da Prisão Hoa Lo com celas minúsculas, solitárias, objetos de tortura, guilhotina, grilhões, chicotes e parte da tubulação estreita por onde os presos fugiam. O local foi construído pelos franceses em 1896 para alojar até 450 prisioneiros. No entanto, em 1930, havia 2 mil detentos, especialmente presos políticos. Durante a Guerra do Vietnã, os pilotos americanos capturados eram ali encarcerados. A maior parte do complexo prisional foi demolida para dar lugar a um grande prédio chamado de Hanoi Central Tower. O museu ocupa pequena parte do que restou.

 Prisioneiros vietnamitas no Museu da Prisão Hoa Lo.

Mural de tortura no Museu da Prisão Hoa Lo.

Não muito longe dali, afinal a cidade é relativamente pequena, fica o Mausoléu de Ho Chi Minh. A obra é um caixote de 21 metros de altura, cinza, pesado, onde o herói da independência descansa embalsamado. Lembra muito Moscou que guarda o corpo de Lênin. Ho Chi Minh foi um revolucionário que comandou o povo em vitórias importantes contra os japoneses, franceses e americanos. Antes de liderar a independência e unificação do Vietnã dizem que ele correu o mundo num navio francês como chef de cozinha. O mausoléu fica na praça Ba Dinh onde está o Monumento dos Heróis e Mártires de Guerra


Mausoléu de Ho Chi Minh.


Durante minha visita, um pelotão de soldados marchava pela rua que conecta o mausoléu ao monumento. Ali foi o único lugar em que me senti num país socialista e militarizado. 

Mais uma curta caminhada e se chega ao Museu de Ho Chi Minh e ao Museu da Guerra.


Museu de Ho Chi Minh.

Soldados marchando em Hanói.


Ainda nessa região há um pagode pequenino e muito simpático. É o Pagode de Um Pilar ou Chua Mot Cot. Diz a lenda que o rei sonhou com a imagem da Deusa da Misericórdia sentada em uma flor de lótus e que ela trazia um bebê de presente. Logo, ele se casou e teve um filho. Em sinal de gratidão, mandou construir o pagode para representar a flor de lótus.

Pagode Chua Mot Cot, Hanói.


DOIS RESTAURANTES IMPERDÍVEIS EM HANÓI

A cozinha vietnamita é maravilhosa. Comi muito bem na cidade, em todos os lugares onde fui. Mas, indico especialmente dois restaurantes.

Um deles é muito simples. Comida local com preço barato e uma variedade enorme de tudo que é típico no país. É bagunçado e barulhento. A cara do Vietnã. Vive lotado. Uma verdadeira experiência local. Vá preparado para o grande movimento do restaurante e para experimentar uma cozinha bem popular. Quán An Ngon. Há quatro endereços na cidade. Escolha o mais próximo do seu hotel.

O outro é mais elegante. Pratos bem apresentados e preços mais altos. Nineteen 11, na Ópera House. Peça o menu degustação de três pratos.

INDICAÇÃO DE HOTEL

Sofitel Legend Metropole. Maravilhoso e com preço bem razoável.

MELHOR ÉPOCA PARA IR

No Vietnã chove muito o ano inteiro. Observe que nas fotos não há sol. Em Hanói é frio no inverno, de novembro a janeiro. Assim,  para conhecer Hanói, os vietnamitas dizem que agosto e setembro são os melhores meses. No entanto, esses meses costumam ter muitos furacões - a média é de 6 por ano - por causa das monções que vão de maio a outubro. Para os estrangeiros, a alta temporada é de maio a julho.

DOCUMENTOS NECESSÁRIOS

Não esqueça de fazer o visto antecipadamente e leve certificado internacional de vacinação contra a febre amarela.

MOEDA

Dongue Vietnamita. 1 real vale 7.400 dongues - 1 dólar vale 21.300 dongues (valores de 01/março/2015)


Hanói é um belo caos. 
Apaixonante!

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COMENTÁRIOS

  1. Muito bom seus comentarios com fotos bem tiradas, e explicações que fazem a gente se sentir no local, estive em Hanoi a um ano atras a trabalho e gostaria de saber se foi por ir a trabalho que fiquei com vontade de voltar ou o povo vietnamita super educado na minha opinião é que nos da essa sensação?

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  2. Obrigada pela gentileza do comentário.

    O povo vietnamita é bastante delicado apesar de ser um pouco reservado. Gostei muito de como fui tratada no país. É uma viagem incrível para quem gosta de destinos exóticos.

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  3. Claudia, parabéns pelo blog. Muito bom mesmo! Apesar de também de já ter viajando bastante e trabalhar com turismo, quase cometo o mesmo deslize do visto do Vietnã ;) Estou viajando próximo mês para Camboja, Laos e Vietnã, e havia me esquecido de providenciar aqui no Brasil. Grande beijo

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  4. Soraya,

    Às vezes a gente come mosca. Rs. Esse visto precisa ser feito antecipadamente. Vietnã e Camboja são incríveis. Laos ainda não conheci, mas está na minha lista (que é interminável).

    Bjs

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  5. Curti bastante o blog por causa de você inserir o contexto histórico dos monumentos. Muito bacana a ideia. Além disso, as dicas aqui serão bastante úteis para a minha viagem.

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  6. Excelente o post. Aconteceu algo semelhante comigo quanto ao visto: na hora do check in...cadê? E eu ainda teimando com a atendente da LAO Airlines (era codeshare com a Vietnam Airlines) que era só no aeroporto de Hanoi rs rs rs e eu insistia que eu "tinha certeza" rs rs. A sorte que cheguei cedo e ela foi super-hiper-simpática e atenciosa e deixou eu usar o computador para conseguir na hora, por valores mais elevados. Foi a Vietnam Airlines quem emitiu a cartinha. Mas, realmente, fiquei super aflito e com a sensação de "principiante", apesar de viajar bastante. Ótimo ter lido seu post, pois estava me sentindo o último dos mortais a não ter checado direitinho os procedimentos do visto. Parabéns pelo post.

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    1. Pois é, Vladimir.

      Às vezes as coisas dão errado. É preciso ter tranquilidade e contar com a sorte para não estragar a viagem. Não basta ser tarimbado.

      O Vietnã é um país encantador. Até já esqueci desse episódio e quero voltar. Mas, da próxima vez vou lembrar de fazer o visto com antecedência. Rs

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  7. Ola Claudia! Meu nome eh Rafaela.

    Voce esteve quando no Vietna mesmo? Voce disse que o visto pode ser feito online, hoje em dia, certo?

    Pesquisei a respeito e encontrei muita informacao sobre o VOA ou Visa On Arrival, uma forma de aplicar previamente para o visto, obtendo uma "Letter of Approval" e finalizando na imigracao do aeroporto, pagando mais uma taxa de 25 USD, e entregando uma foto tamanho passaporte.

    Voce conhece alguem que ja fez esse procedimento?

    Obrigada e parabens pelo blog, ja anotei muitas dicas!!

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