ALMATY, A ANTIGA CAPITAL DO CAZAQUISTÃO


Depois de passar alguns dias na mais nova capital do mundo, Astana, meu destino agora era Almaty. Avenidas largas, muitos parques verdes e jeitão soviético. É assim que a ex-capital do Cazaquistão e centro cultural-econômico do país se exibe orgulhosa a alguns passos das montanhas Tien Shan, quase na fronteira com o Quirguistão e a China.

Almaty é considerada pelos cazaques a melhor cidade do país para se viver, pois não é tão fria como Astana e tem muitas estações de esqui com excelente infra-estrutura, a menos de 15 quilômetros do centro. Almaty, inclusive já sediou os Jogos Asiáticos de Inverno, em 2011 e vai receber a Universíade de Inverno em 2017. Nos meses mais frios do ano a temperatura costuma ficar entre zero e 5 graus e poucas vezes fica negativa.

No entanto, Almaty não é uma cidade muito turística. As pessoas usam Almaty como ponto de partida para os passeios nas montanhas, canyons, desfiladeiros e lagos que ficam nos arredores. Um dos locais mais visitados é o Parque Nacional Sharyn, a 200 quilômetros de Almaty. Ele é o segundo maior canyon do mundo ficando atrás apenas do Grand Canyon, nos Estados Unidos. Outro lugar muito interessante e curioso é o Lago Kaindy localizado a 130 quilômetros de Almaty. O lago foi criado após um terremoto, em 1911. Houve um grande deslizamento de terra que formou uma represa onde a água da chuva foi se acumulando até cobrir a floresta que havia no local. Curioso e singular.

Canyon Sharyn, Cazaquistão.

Lago Kaindy, Cazaquistão.

NA TERRA DAS MAÇÃS

Almaty foi fundada para servir como base russa, em 1854, quando os cazaques ainda eram nômades. Prosperou rapidamente até haver um grande terremoto que botou a cidade abaixo, em 1887. A partir de então, as casas começaram a ser construídas com planejamento especial para aguentar abalos sísmicos. A estratégia ajudou a cidade a se manter em pé no terremoto de 1911 e nos subsequentes. Afinal, Almaty está ao ladinho de uma cordilheira inquieta e esse foi um dos motivos que levou o presidente Nazarbayev a transferir a capital para Astana, em 1998.

Almaty foi a capital do Cazaquistão de 1927 a 1997. Hoje tem quase dois milhões de habitantes. É a maior cidade do Cazaquistão e uma das maiores da Ásia Central.

Nos anos 70 e 80 a cidade recebeu muito dinheiro russo para investir no seu crescimento. Foi quando construíram o tradicional (e hoje decadente) hotel Kazakhstan e a Academia de Ciências.

Em 1991, foi anunciado em Almaty, o fim da União Soviética. Então, os países da Ásia Central tiveram a independência decretada.


Almaty.

E você sabe o que significa Almaty? Lugar das maçãs. Com esse nome é claro que não poderiam faltar maçãs na cidade. E elas são de todos os tipos. Vermelhas, verdes ou amarelas. Grandes ou pequenas. Ácidas ou doces. Um bom lugar para ver barracas e mais barracas de maçãs é no Green Bazaar. Foi por onde comecei minha exploração de dois dias à maior cidade do Cazaquistão, de forma atrapalhada. Peguei um taxi no hotel. Mostrei ao motorista a foto de onde queria ir. Junto com a foto falei: "Green Market" e não "Green Bazaar". Esse foi o erro. Eles quase não falam inglês. Sendo assim, o motorista parou em frente a um supermercado chamado "Green Supermarket". Como eu não conhecia o local, desci do taxi e entrei no supermercado. Logo estranhei, pois era bem diferente do que tinha visto nas fotos. Então, saí perguntando onde era o bazar com gestos e mostrando a foto que tinha. Nessa hora, uma senhora muito gentil, que não falava nada de inglês, me puxou pelo braço mostrando o caminho. Andei umas três quadras com ela e finalmente lá estava o Greeen Bazaar com seus 140 anos de tradição.

Maçãs no Green Bazaar.

Mercados são um visita obrigatória para se compreender melhor a essência de um povo. Andar lentamente pelos corredores de um mercado prestando atenção ao modo como as pessoas interagem, o que comem, como se vestem, como negociam é a certeza de apreender um pouco mais sobre sua cultura. Entre um sorriso discreto e um olhar desconfiado, os cazaques negociam carnes de todo tipo, mas especialmente, cavalo. Além disso, se vê muito queijo, frutas secas, especiarias, pães e os estranhos Kumys e Shubat feitos respectivamente com leite fermentado de égua e camela. Provei claro. Mas, foi difícil passar do primeiro gole. Eles dizem que o leite de égua fermentado Kumys é medicinal e serve para tratar tuberculose.

Os pães são feitos em forma de bolo achatadas.

 Frutas secas fazem parte da alimentação dos cazaques. 

Carnes são a base da alimentação no Cazaquistão, especialmente a de cavalo. 

Depois de visitar o Green Bazaar circulei a pé, de ônibus e de metrô pela região, uma vez que achar um taxi é tarefa bastante árdua. Fui até o Panfilov Park. Ele é o mais antigo da cidade, um dos maiores e muito frequentado pela população local. O parque recebeu esse nome em honra aos 28 soldados-heróis que morreram lutando contra os nazistas durante a II Guerra Mundial nos arredores de Moscou, comandados pelo general Ivan Panfilov. No parque há vários monumentos, o Museu Folclórico de Instrumentos Musicais do Cazaquistão e a linda Catedral Ortodoxa Zenkov.

Monumento em homenagem aos soldados que morreram lutando pelo país em 1941. 

Chama Eterna no Panfilov Park

Monumento em honra aos soldados que lutaram na Guerra Civil de 1917 a 1920.

 Catedral Ortodoxa Zenkov ou Holy Ascension. Construída em madeira. Sobreviveu ao terremoto de de 1911. Durante o período soviético foi usada como museu e casa de espetáculos. 
Em 1995, voltou a ser usada como igreja.

Museu Folclórico de Instrumentos Musicais do Cazaquistão. Reabriu suas portas em 2013. A casa onde fica o museu foi construída em 1908, em madeira. 

Ainda nessa região fica a rua de pedestres Zhibek Zholy que é inspirada na rua Arbat, de Moscou. Perguntei a uma menina qual era a direção para chegar. Ela pensou um pouco e disse: "Melhor eu te levar, pois é um pouco longe e assim posso praticar meu inglês pelo caminho." Em cinco minutos chegamos. Era perto. E, confesso que não há nada de especial nessa rua. Muita gente, vendedores oferecendo de roupas a tapetes, alguns artistas, restaurantes e cafés simples. Sinceramente, nem recomendo. O que valeu a pena foi a conversa com a estudante de letras que contou coisas interessantes sobre a vida no Cazaquistão. Essa é uma rua popular e tradicional na cidade, mas Almaty também tem shoppings novos e ruas elegantes com grifes internacionais.


 Rua de pedestres Zhibek Zholy, Almaty


Uma praça que não pode ficar de fora da programação é a Praça da República, na rua Satpayev. Ela é imponente, repleta de marcos históricos. Tem prédios de arquitetura soviética misturados com construções modernas. Ali, o Monumento a Independência chama atenção. Uma coluna de pedra com 28 metros de altura sustenta a figura de um homem montado em um leopardo das neves alado, animal símbolo do Cazaquistão. O prédio da Administração da Cidade de Almaty fica em frente à esse monumento. No subsolo da praça foi feito um shopping center em homenagem às mais de 250 pessoas que morreram no local, nos protestos de 1986 contra a Rússia, quando Gorbachev demitiu o primeiro-secretário do Partido Comunista do Cazaquistão.

O domo de vidro marca o local dos confrontos e embaixo dele fica o shopping.

Prédio da Administração da Cidade de Almaty, na Praça da República.

Para curtir o por do sol, o lugar mais concorrido de Almaty é Kok-Tobe, que significa "Monte Verde". O acesso pode ser de funicular a partir do Palácio da República (que funciona quando o tempo está bom) ou nos ônibus das linhas 90 ou 95. Kok-Tobe tem 1.100 metros de altitude, o que possibilita ótimo visual da cidade e dos picos nevados de Zailiyskiy Alatau. Além disso, em Kok-Tobe também tem um mini zoológico, um parque de diversões para crianças, lojinhas, um restaurante e uma torre de TV.

Torre de TV em Kok-Tobe.

 Zailiyskiy Alatau.


Por do sol concorrido em Kok-Tobe.

Também inclua no seu roteiro uma visita ao Central State Museum considerado o melhor da cidade, ao Kazakhstan Museum of ArtGorky Park Opera House e Old Square. 

Antiga Casa do Governo, na Old Square. 

Até aqui uma cidade grande como outra qualquer. Mas, para os moradores o que torna Almaty realmente especial é a proximidade com a região montanhosa de Medeo e Shymbulak. Em quinze minutos do centro se chega num complexo espetacular de esportes de inverno construído em 1972 e totalmente reformada para receber os Jogos Asiáticos de Inverno em 2011. A conexão entre Medeo e Shymbulak pode ser feita de carro ou de gôndola. Muitas pistas de esqui e um enorme rink de patinação no gelo que funcionam durante 7 meses do ano garantem a diversão dos moradores de Almaty.

Medeo Rink fica a 3.200 metros de altitude e ali foram batidos mais de 120 recordes mundiais.

A ligação entre Medeo e Shymbulak pode ser feita em gôndolas fechadas ou de carro.

As pistas de esqui em Shymbulack tem altitude de 3.800 metros.

Animais selvagens vivem nas montanhas.

Muitas famílias tem casas em Shymbulak  para aproveitar melhor o inverno.

Se tiver interesse assista uma partida do estranho jogo a cavalo Kokboru, no Hippodromo. A princípio, parece uma partida de polo, mas quando o jogo inicia em vez de bola eles usam a carcaça de uma ovelha ou cabra sem a cabeça que é jogada de um lado para outro. Os cavalos são muitos exigidos. Os animais sofrem. Assisti no Quirguistão e fiquei impressionada com a brutalidade do jogo. Para se ter uma ideia, no Afeganistão a brincadeira já foi proibida.

Caça com águia também faz parte da vida dos cazaques nômades. É uma tradição que já vai ficando para trás, mas ainda é possível assistir nas montanhas. Lindo. Indico totalmente. A relação da águia com seu treinador é mágica. Optei por assistir uma demonstração no Quirguistão.

COMO SE LOCOMOVER EM ALMATY

Taxis são bem difíceis de encontrar. Eles estão disponíveis apenas nos hotéis e nos shoppings. Na rua fiquei um tempão esperando e nada. Tive que pegar um ônibus para voltar para o hotel. Mas, observei muita gente estendendo a mão aos carros que passavam. Essa é uma prática normal no Cazaquistão. Basta sinalizar com a mão que quer transporte. Então, um carro para, pergunta quanto a pessoa pode pagar e fecham negócio se interessar. Funciona bem para os cazaques. No entanto, fiquei insegura de parar um carro qualquer e preferi optar pelo ônibus. Metrô também é uma boa opção, mas as linhas não cobrem a cidade toda.

INDICAÇÃO DE HOTEL EM ALMATY 

Em Almaty fiquei hospedada no melhor hotel da viagem pela Ásia Central. Recomendo totalmente o Ritz- Carlton, ao lado do novíssimo e elegante Esentai Mall. Os quartos são amplos, bem decorados, modernos, iluminados, com janelões que dão vista para as montanhas, tem banheiros lindos e excelente infra-estrutura para turistas. O concierge está preparado para indicar os melhores passeios pela região e organizar o que você precisar. A única coisa chata é que eles não deixam fotografar o hotel. Então, usei fotos do próprio site do hotel.

Hotel Ritz-Carlton, Almaty.

O QUE EU FARIA DIFERENTE EM ALMATY

Fiquei apenas dois dias em Almaty e optei por subir apenas às montanhas do lado do Quirguistão, país vizinho que fica muito perto de Almaty (4 horas de carro), por achar que as belezas naturais seriam parecidas. Errado. Não explorei como deveria os arredores de Almaty e perdi de ver lugares espetaculares. Não deixe de fora da sua programação o Parque Sharyn com canyons e desfiladeiros a 200 quilômetros de Almaty, 100 quilômetros à frente visite o Parque Nacional Kolsai Kolderi com lagos belíssimos. O Parque Nacional Altyn-Emel e seu deserto ficam a 250 quilômetros de Almaty. Os petroglifos de Tanbaly estão a 170 quilômetros. O imperdível Lago Kaindy fica a 130 quilômetros.  Bem pertinho de Almaty tem o Big Almaty Lake a 28 quilômetros. Opções não faltam. Recomendo pelo menos 4 dias em Almaty e arredores. 

Há outra coisa que faria diferente. Fiz o trajeto Almaty (Cazaquistão) - Bishkek (Quirguistão) de carro. Quatro horas num cenário monótono e sem nada de especial. À minha esquerda, pela janela do carro, apenas as montanhas Tian Shan que fazem divisa com a China e o Quirguistão. Bonito, mas sempre igual. Isso me tomou praticamente um dia todo que poderia ser usado para explorar melhor a região. O voo Almaty-Bishkek dura apenas 30 minutos. Não caiam nesse erro. Muito mais prático fazer um voo rápido no final do dia. 

Pela janela do carro as montanhas Tian Shan.

A estrada é monótona. Pelo visto, a menina cazaque concorda comigo.


DOCUMENTOS NECESSÁRIOS

Brasileiros precisam de visto para entrar no Cazaquistão. O visto já deve estar anexado ao passaporte na saída do Brasil. Como tem uma Embaixada do Cazaquistão em Brasília essa operação é fácil. Eles solicitam a reserva do hotel e alguns outros documentos. Sem nenhuma complicação. Bastante tranquilo.

MOEDA DO CAZAQUISTÃO

TENGE (KZT) 1 dólar = 270 Kzt (cotação de outubro de 2015).

O Cazaquistão me conquistou. País de cultura interessante, história riquíssima, personalidade própria, e em franco desenvolvimento. Além disso, as paisagens naturais na região montanhosa são espetaculares. 

Leia também o texto sobre ASTANA.

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COMENTÁRIOS

  1. Adorei este seu passeio pelo Cazaquistão. Mas, com certeza, eu iria conhecer aquela rua que você não recomenda, com a feira popular. Afinal, para mim, é onde está mais uma amostra da cultura de um povo. Gostei dos pratos grandes e dos tapetes. Afinal, estes tapetes, aqui no Brasil, custariam uma fortuna. A tenda é muito legal também. Roupas de marcas internacionais e shoppings eu vou aqui ou na Europa. Mas, é apenas um comentário meu. Parabéns pelo artigo. Cazaquistão é um belo país.

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  2. Oi Bea,

    O Cazaquistão é mesmo interessante. Muitas diferenças culturais. Um país que merece uma visita.

    Eu adoro visitar mercados e comércio local. Eles dizem muito sobre a cultura de um povo. No entanto, essa rua não tem nada de especial realmente. Simplesmente, o fato de ser apenas de pedestres. Não traduz muito sobre a cultura cazaque. Bem internacionalizada. Rs. Por isso, não achei um lugar tão atraente. O mercado Greeen Bazaar é muito mais genuíno.

    Os tapetes mais interessantes vi nas montanhas do Quirguistão e em Bukhara, no Uzbequistão. Mas, também há lindos no Cazaquistão. Eram usados dentro das yurtas.

    A tenda chamada de yurta é uma tradição dos cazaques. Usada nas estepes enquanto eram nômades. Mais legal ver no lugar original. Ainda tem algumas espalhadas pelo país.

    Obrigada pela visita.

    Claudia

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  3. Lindooooo! Estou ansiosa por ver os proximos posts desta viagem.
    Muitos parabens pelo post esta maravilhoso assim como os outros

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  4. Em breve escreverei sobre o Quirguistão e o Uzbequistão.

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  5. Em breve escreverei sobre o Quirguistão e o Uzbequistão.

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  6. Oi, Cláudia. Tudo bem? :)

    Seu post foi selecionado para o #linkódromo, do Viaje na Viagem.
    Dá uma olhada em http://www.viajenaviagem.com

    Até mais,
    Bóia – Natalie

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  7. Olá Cláudia,
    Depois de ler este post, fiquei com muita curiosidade para ler o que vai escrever sobre o Quirguistão e Uzbequistão - ando há algum tempo para visitar esses dois países... :)
    Abraço e parabéns pelo seu trabalho.

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  8. Filipe,

    Em breve. Já estou escrevendo sobre o Quirguistão. Obrigada pela visita.

    Volte sempre!

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  9. Oi Claudia!

    Parabéns!

    Boa descrição, "trabalho de casa" bem feito... )))

    É sem dúvida um país a visitar que como disse e muito bem, está em franca expansão.

    Gostaria apenas de reforçar para quem queira visitar, que apesar de se apresentarem " Entre um sorriso discreto e um olhar desconfiado,..." como os descreveu na sua apresentação, os Cazaques uma vez "quebrado o gelo do primeiro contato", são um povo muito simpáticos e estão sempre disponíveis a ajudar.

    Vale a pena visitar...

    Felicidades,

    Nelson




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  10. Nelson,

    É verdade. Tenho amigos cazaques. Eles são muito bacanas. Pessoas adoráveis. Mas, com a história de vida deles, não tem como não ser um pouquinho desconfiados.

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  11. Oi Claudia, você fez esta viagem completamente sozinha? É tranquilo uma mulher viajar sozinha por aquelas bandas?

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  12. Mel,

    Eu estive nesses países com meu marido.

    Cazaquistão é tranquilo para uma mulher sozinha. Não tem problema.

    Bj

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  13. Uma correção: 1,6 milhão de habitantes e não "milhões".

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  14. Olá, Claudia :)

    Adorei as dicas, obrigada! Gostaria de saber qual tipo de transporte escolheu para ir entre Astana e Almaty.

    Obrigada, abraços

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  15. Oi Luana.

    Fiz esse trecho de avião. Dá uma olhada nesse link: http://www.viajarpelomundo.com/2015/09/10-coisas-importantes-sobre-asia-central.html

    Espero que te ajude.

    Bj

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