SAMARKAND EM 50 TONS DE AZUL


A elegante Samarkand foi a última cidade que visitei no Uzbequistão. Um país que me surpreendeu positivamente do início ao fim. Confesso que fui sem grandes expectativas e talvez por isso mesmo tenha entrado para o rol das viagens mais marcantes. Basta dizer que o Uzbequistão tem o mais interessante legado histórico de todas as repúblicas da Ásia Central que pertenceram a União Soviética. Samarkand foi o coração do império de Timur, além de ter sido uma das mais importantes cidades da Rota da Seda com bazares sempre lotados de negociantes e mercadorias. Samarkand tem magia no ar. Impressiona!

SOBRE O ROTEIRO

Meu roteiro no Uzbequistão iniciou pela capital TASHKENT (2 dias), depois KHIVA (2 dias), BUKHARA (2 dias) e por último SAMARKAND (2 dias). Ao final de oito dias retorno para Tashkent, para rever amigos uzbeques e no dia seguinte embarque para a Turquia. 

TREM OU CARRO?

De Bukhara a Samarkand são 270 quilômetros que podem ser feitos de carro ou de trem. Optei por ir de carro com o motorista Sr. Abdurahmon que acompanhou toda a viagem pelo Uzbequistão. O trajeto durou 3 horas e fizemos apenas uma parada para abastecer o carro em Navoiy. Mas, o trem é excelente opção. Faz esse trecho em 2 horas e 45 minutos, também com uma parada em Navoiy.

Usei o trem de alta velocidade para fazer os 300 quilômetros que separam Samarkand da capital Tashkent em duas horas e foi uma ótima experiência. Trens novíssimos, limpos e estação férrea muito bem policiada. Opte pelo trem sempre que possível.


Samarkand. 

UMA CIDADE EM TONS DE AZUL E DOURADO

Samarkand é uma lendária e elegante senhora que guarda relíquias impressionantes. Teve grande importância comercial, sofreu com disputas de poder e tem muita história para contar. É uma das cidades mais antigas do mundo. Estima-se que tenha sido fundada em 700 a.C. Alguns séculos depois, em 329 a.C., foi conquistada por Alexandre - O Grande, rei da Macedônia e brilhou. Do século VI ao século XIII chegou a ter uma população maior do que nos dias de hoje. Mas, trocava de mãos em curtos períodos. Passou pelas mãos de turcos, persas, samanidas, karakhanidas entre outros. No século VIII os árabes dominaram seu território e deixaram muitas marcas. Em 1220, o terrível Gengis Khan se apoderou de tudo e botou a cidade abaixo. 

Quem a reconstruiu e trouxe seu brilho novamente à tona foi Tamerlão ou Amir Timur, o último dos grandes conquistadores nômades da Ásia Central. Timur tinha um jeito muito próprio de governar. Era amado por uns e muito temido por outros. Tratava com grande crueldade os povos que conquistava. Mas, por outro lado, o imperador mongol era um homem culto que amava a arquitetura, as artes, a filosofia e o islã. Por isso, poupava artistas, estudiosos, religiosos e arquitetos durante suas conquistas e aniquilava o restante dos povos conquistados, inclusive crianças. 


Interior do Mausoléu de Amir Timur em tons de azul e dourado.

Com Timur, começou no século XIV um novo capítulo na vida de Samarkand. Sua força foi enorme. Sua principal herança não foi política, mas no campo das artes. Como legado deixou prédios ricamente decorados com ladrilhos espetaculares, mosaicos e pinturas em tons de azul que são verdadeiras obras de arte, de um colorido divino, em tons celestiais. É a mais incrível amostra da contribuição arquitetônica de uma civilização que venerava a beleza. Tudo grandioso, embora o próprio Timur morasse numa tenda nômade e estivesse sempre trilhando mundo em busca de novas conquistas. 

Logo após a morte de Timur, em 1405, seu império foi dividido entre os filhos e começou a ruir. Somado a isso, com o declínio das rotas terrestres de comércio que conectavam a Europa a China e após uma série de terremotos, Samarkand foi enfraquecendo até ser abandonada. A capital do império foi transferida para Bukhara e de 1720 a 1780 Samarkand ficou praticamente desabitada e jogada à própria sorte. Um século depois, com a chegada dos russos e a construção da ferrovia Transcaspiana, a cidade renasceu e logo se tornou uma República Soviética. Por quase cem anos todos os tesouros criados por Timur ficaram isolados do resto do mundo escondidos sob um manto protegido por mãos de ferro. Se por um lado, os uzbeques foram privados de sua liberdade e de exercer suas escolhas religiosas, por outro essas preciosidades arquitetônicas se mantiveram intactas ao longo desses anos. E por isso mesmo, Samarkand foi declarada Patrimônio Mundial da UNESCO


Praça Registan.

Hoje Samarkand é uma cidade grande, moderna e bem espalhada. A segunda maior cidade do país. Porém, essas preciosidades medievais ficam todas na mesma região, no centro antigo. Dá para conhecer tudo a pé. A via de pedestres Tashkent conecta a parte central da cidade velha desde a Praça Registan até a mesquita Bibi-Khanim, o restante fica nas proximidades.

OS PRINCIPAIS PONTOS DE INTERESSE
  • Praça Registan
  • Mesquita de Bibi-Khanim
  • Complexo Shakhi-Zinda
  • Mausoléu Gur-Emir
  • Observatório de Ulugh Bek
  • Mesquita Khazrat Khizr
  • Bazar Siob
Comece pela praça principal, Registan, que é o coração da cidade velha e onde há três madrassas espetaculares: a de Ulugh-Bek, a Sher-Dor e a madrassa-mesquita Tillya-Kari. A praça foi criada entre os séculos XIV e XV é considerada uma das praças mais bonitas do mundo. Registan em tajique significa "Cidade de Areia" e nos tempos áureos funcionava como o principal ponto comercial de Samarkand. 

A madrassa Ulugh Bek foi construída em menos de quatro anos (1417-1421) sob o comando do cientista-matemático Mirzo Ulugh Bek, neto de Timur. Foi uma das escolas de islamismo mais importantes da época. Ele próprio lecionava matemática na madrassa. Sua fachada é belíssima. Tem um grande portal quadrado recortado por um arco repleto de mosaicos. Nas laterais há dois grandes minaretes simétricos com desenhos geométricos feitos em ladrilhos de diversos tons de azul. No interior, um jardim de inverno é cercado por salas de leitura e pelos dormitórios dos alunos. 

 A esquerda a Madrassa Ulugh Bek e ao fundo a madrassa Tillya-Kari.


Madrassa Ulugh Bek, a mais antiga da Praça Registan, em Samarkand.


 Detalhes dos mosaicos geométricos da Madrassa Ulugh Bek. 
No interior da Madrassa Ulugh Bek hoje tem artesãos vendendo suas mercadorias. 

Em frente a Madrassa Ulugh Bek fica a belíssima  Sher-Dor. Ela foi construída no século XVII com estrutura semelhante a das madrassas iranianas, no local onde havia bazares. A decoração tem motivos geométricos coloridos onde predomina o azul. Interessante observar as figuras de dois tigres e duas gazelas na fachada indo contra os princípios do islã que não admite decoração com imagens de animais ou figuras humanas. 


 Madrassa Sher-Dor.


 Madrassa Sher-Dor decorada com figuras de animais. 

Entre essas duas madrassas fica a madrassa-mesquita Tillya-Kari ou Madrassa Dourada. Ela tem esse nome devido a enorme quantidade de ouro usada na sala principal. O ouro servia para mostrar a importância de Samarkand na época. Foi construída em 1660 para ser um seminário teológico. Também tem um belo jardim interno.


Os detalhes da mesquita Tillya-Kari são espetaculares. 

Ao fundo a madrassa Tillya-Kari. Do lado direito, Sher-Dor e do lado esquerdo, Ulugh Bek.

DICA: Durante a alta temporada acontece no final do dia um show de som e luzes na Praça Registan. Tive a sorte de presenciar. A praça fica repleta de turistas uzbeques e de gente da própria cidade. Vale a pena tanto pelo show como pela oportunidade de conviver com os locais. 

Ao final da Via Tashkent, que começa na Praça Registan, fica a Mesquita Bibi Khanim. Bibi Khanim foi a esposa chinesa de Timur. Diz a lenda, que ela mandou construir a mesquita como surpresa para Timur quando ele voltava para comemorar a conquista da Índia. No entanto, o arquiteto se apaixonou perdidamente por ela e se recusou a finalizar a obra, a menos que ela lhe desse um beijo. Com o beijo, Timur mandou executar o arquiteto e decretou que as mulheres deveriam usar véus para não causar tentação nos homens. A mesquita foi concluída logo após a morte de Timur e parece ter sido uma das joias do império. Sua cúpula principal tem 41 metros e a menor tem 38. No terremoto de 1897 ficou muito comprometida e em 1970 passou por uma reconstrução, mas seu estado de conservação não é dos melhores. Uma pena. 

Do outro lado da rua está o Mausoléu de Bibi-Khanim


Mesquita Bibi Khanim.

Pertinho da Mesquita Bibi-Khanim está a interessante Mesquita Khazrat Khizr no alto do morro. No local havia uma mesquita do século VIII que foi incendiada por Gengis Khan. No seu lugar foi construída outra, apenas no século XIX. Ela foi restaurada recentemente e apesar de ser pequena é muito graciosa e tem linda vista para a Mesquita Bibi-Khanim e para o complexo Shakhi-Zinda. 



Mesquita Khazrat Khizr.

O Bazar Siob de Samarkand ou Bazar Central fica exatamente ao lado da Mesquita Bibi-Khanym. É um espaço deliciosamente agitado. Repleto de aromas e cores marcantes. Irresistivelmente fotogênico. Dá para passar horas ali entre frutas, especiarias, souveniers e bons papos com os simpáticos uzbeques.


O Bazar Siob é um lugar incrível para conhecer melhor a cultura uzbeque. 

Depois visite o sagrado complexo Shakhi-Zinda formado por 11 mausoléus, sendo o mais importante o do santo Kusam-ibn-Abbas primo do profeta Maomé. Ele foi o responsável por difundir o islã no país no século VII. A filha e uma sobrinha de Timur também estão sepultadas no complexo e têm as tumbas mais bonitas. Ao subir os 40 degraus de acesso, os peregrinos devem contar um a um e ao final fazer um pedido. É um lugar de peregrinação muito sagrado para os muçulmanos. A última grande restauração do complexo foi feita em 2005. Como resultado grande parte do trabalho em terra-cota e muitos dos ladrilhos que se vê hoje não são originais.


Entrada do complexo Shakhi-Zinda. 

Ao subir os degraus da escadaria de entrada do complexo Shakhi-Zinda, 
conte os degraus e ao final faça um pedido.  

O Complexo Shakhi-Zinda é sagrado e belíssimo.

Peregrinos na principal sala de oração do complexo.

 Detalhes dos ladrilhos do Complexo Shakhi-Zinda.

Inclua no seu roteiro o interessantíssimo Observatório Astronômico de Ulugh-Bek. Esse é um dos grandes achados arqueológicos do Uzbequistão. Ulugh-Bek foi um dos mais importantes astrônomos de sua época. Ele desenvolveu um astrolábio de 30 metros para estudar a posição das estrelas, em 1420. 


Observatório Astronômico de Ulugh-Bek. 

Por fim, vale contar mais uma lenda a respeito de Amir Timur. O grande conquistador morreu inesperadamente aos 68 anos, em 1405, acometido por uma pneumonia, enquanto estava no Cazaquistão, a caminho de dominar a China. Ele havia construído uma cripta para ser sepultado em Shakhrisabz. Mas, como o caminho estava coberto de neve, ele teve que ser sepultado no Mausoléu Gur-Emir. Os anos se passaram e em 1941, Mikhail Gerasimov resolveu abrir o túmulo para confirmar se Timur realmente era um homem alto e se tinha marcas na perna esquerda do acidente que o deixou manco. Ele, ele tinha "apenas" 1,70 m de altura. Era considerado um homem alto para a época e tinha marcas na perna. Quando a cripta foi aberta, havia uma inscrição no interior dizendo que em breve apareceria um conquistador ainda mais poderoso do que ele. No dia seguinte, dia 22 de junho, Hitler atacou a União Soviética.


Mausoléu Gur-Emir, onde estão sepultados Amir Timur e seus familiares.

Também visitei o Museu Afrosiyob que tem peças interessantes, mas achei muito fraco em termos de estrutura; e, uma fábrica de papel MEROS com equipamentos muito antigos. Bastante simpática.

Fábrica de Papel Meros e seus cartões artesanais.

OUTRAS INFORMAÇÕES

HOTEL: Fiquei hospedada no Hotel Grand Samarkand. Um hotel 4 estrelas, de serviço péssimo, pretensioso,  camas duras, toalhas velhas, café da manhã fraco e longe do centro antigo. Era preciso caminhar mais de um quilômetro para chegar a Praça Registan. NÃO RECOMENDO. Indico o Registan Plaza com boa aparência e num ponto bem melhor. 

RESTAURANTE: o restaurante que mais me agradou na cidade foi o Platan. Local agradável e comida uzbeque caprichada. 

IDIOMA: o Uzbequistão tem duas línguas oficiais, uzbeque e russo. Inglês é pouco falado ainda. Apenas os mais jovens falam um pouco e alguns funcionários dos hotéis.

MELHOR ÉPOCA PARA IR: Os melhores meses para visitar o Uzbequistão são abril, maio, setembro e outubro. Evite o verão pois é muito quente e as temperaturas podem chegar aos 40 graus, de junho a agosto. Faz muito frio e pode nevar de novembro a março.

COMO SE VESTIR: apesar de ser islâmico, o Uzbequistão não é radical. Roupas ocidentais são aceitas e usadas pela população mais jovem sem problema nenhum.

SEGURANÇA: o país é muito seguro. Dá para circular a qualquer hora do dia ou da noite sem medo. O único inconveniente é a iluminação noturna precária nas cidades. Esse fator limita um pouco os deslocamentos.

MOEDA: o SOM é a moeda local. É uma das moedas menos valorizadas do mundo. A taxa do câmbio muda diariamente. Apesar de proibido, o câmbio negro domina o mercado, pois paga o dobro. Em qualquer esquina tem gente oferecendo câmbio de dólares para a moeda local. No final de abril/2016 o valor de 1 dólar equivalia a 2.900 sons no oficial e 5.800 no câmbio paralelo. Pagar uma conta de 10 dólares com a moeda local é até engraçado, precisa de um bolo de dinheiro. Difícil para carregar e manusear. Imagina para pagar a conta do hotel. É preciso uma sacola de dinheiro, mas vale a pena, pois sai pela metade do preço.

DOCUMENTOS NECESSÁRIOS: é preciso visto para entrar no país. Com boa antecedência providencie o “pré-visto”, um documento que contém as informações solicitadas a seu respeito. Ele é feito por intermédio de uma operadora local pois não há Embaixada ou Consulado do Uzbequistão no Brasil. O visto propriamente dito é feito por 60 dólares no momento da entrada no Uzbequistão.

MOTORISTA: Sr. Abdurahmon tel 90 98 040 55. Ele só fala russo, uma pena, pois é um doce de pessoa. 


Uma joia em tons de azul chamada Samarkand.


Difícil mesmo é se despedir desse país tão hospitaleiro e ainda tão pouco explorado pelos brasileiros. O Uzbequistão tem uma personalidade forte capaz de agradar facilmente. Suas madrassas, mesquitas e mausoléus mais parecem obras de arte e provocam suspiros de admiração a cada esquina. Circular pelas cidades do interior do país é como voltar no tempo. Uma viagem inesquecível.

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COMENTÁRIOS

  1. Fantástico! Lindas fotos! Você mesma fotografa?

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  2. Obrigada, Anderson.

    As fotos são todas minhas.

    Fiquei feliz com o elogio. Pois sou apenas uma apaixonada por fotografia.

    Valeu!

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  3. Simplesmente maravilhoso!

    Bjos
    Ana

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    Respostas
    1. Ana,

      O Uzbequistão é inacreditável. Um tesouro!!!!!

      Bjo

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