RYOKAN? SIM OU NÃO?


Viajar, por si só, já é uma experiência maravilhosa. Mas, quando a experiência de desbravar outra cultura inclui um contato mais íntimo com as tradições daquele povo fica ainda mais interessante. Nossa memória volta repleta de histórias que não saem jamais da lembrança. 

Pensando assim, resolvemos que a hospedagem em Kyoto (Japão) deveria ser num ryokan para que pudéssemos mergulhar de cabeça na cultura local.


Esses pequenos hotéis costumam funcionar em prédios antigos do período Edo. Eles têm decoração tradicional japonesa com bambu, madeira, biombos e tatames. São atendidos pelas mesmas famílias há anos e mantém vivos muitos hábitos peculiares dos japoneses, como banhos comunitários e tirar os sapatos ao entrar. Dizem que há mais de 50 mil ryokans no Japão, mas que apenas 1.500 deles recebem estrangeiros por terem uma estrutura em estilo mais privativo do que comunitário, especialmente no que se refere aos banheiros.

Cortinas de bambu e jardins impecáveis não podem faltar em um ryokan.

Optamos pelo Ryokan Hiiragiya primeiramente pela localização. Ele está no centro antigo de Kyoto desde 1818. A proposta do ryokan, que vem sendo administrado pela mesma família há algumas gerações, é criar um ambiente de paz e serenidade ao viajante, em pleno centro de Kyoto. Você pode optar por ficar na ala nova ou no prédio principal (antigo). O prédio principal antigo tem 21 quartos e a ala nova tem 7 quartos. Recomendo fortemente que fique na ala nova pois tem aspecto muito melhor e por incrível que pareça tem preços mais baixos. Só para dar uma ideia: uma diária de hospedagem no prédio antigo varia de 30 a 90 mil yens e na ala nova de 35 a 60 mil yens. É caro sim. Mais caro do que um hotel convencional. No entanto, inclui café da manhã e jantar Kaiseki (preparado com os ingredientes frescos da estação).

Refeição Kaiseki.

De modo geral, os hóspedes devem chegar no período da tarde, ao redor das 15 horas, para ter tempo de se acomodar, tomar um banho relaxante e se preparar para o jantar que é servido cedo. Eles comunicam isso na reserva.

Já na entrada dá para perceber algumas diferenças. Um recepcionista espera pelos hóspedes no saguão de entrada com um par de chinelos para cada um. Eles devem ser trocados pelo sapato sujo que vem da rua. O saguão costuma ser limpíssimo e está sempre molhado para receber quem chega, com boa energia. A seguir, a proprietária (chamada de okamisan) vem dar as boas vindas pessoalmente e uma funcionária conduz ao quarto, onde o chinelo deve ser novamente tirado e deixado do lado de fora. Outro detalhe interessante do chinelo: no local onde fica o vaso sanitário há outro chinelo para ser usado apenas lá dentro.

Os quartos tem o chão coberto por um tatame. Não tem cama durante o dia e sim uma pequena mesa com cadeiras sem pés onde fica sempre um serviço de chá com biscoitos e doces japoneses (wagashi). A cama só é montada à noite, em futons.  Se chegar cansado de tarde e quiser tirar aquele cochilo vai ficar só na vontade, pois não tem onde deitar. A cama fica desdobrada, guardada no armário e só é montada depois do jantar.

É interessante que os móveis são todos tão pequenos que a gente se sente na casa dos Sete Anões. Meu marido que é muito alto, sofreu. As pernas não cabiam embaixo da mesa e a cabeça batia em todas as portas.

Nosso quarto era equipado com TV, ar condicionado, telefone e um péssimo sinal de wifi. A velocidade absurda da internet de Tóquio não existe em Kyoto.

 Quarto da ala nova preparado para o dia.

Quarto da ala antiga durante o dia.

De noite, o que parecia uma sala se transforma num quarto.  

Numa caixa, num canto do quarto, costumam ficar os quimonos ou yukatas. É simpático usar o quimono enquanto estiver hospedado no ryokan. O traje sinaliza que a pessoa está num momento de lazer e descontração. A maneira correta de fechar o yukata é passando o lado esquerdo sobre o direito. Para os budistas, a amarração feita ao contrário, significa morte. Portanto, preste atenção e se preciso peça ajuda. Depois, amarre com a faixa.

Funcionárias do ryokan vestindo o yukata.

O banheiro de muitos ryokans costuma ser comunitário. No Hiiragiya é privativo. O vaso sanitário fica separado do local de banho. A banheira privativa chamada de rotenburo costuma estar sempre pronta e com água muito quente. Chega a ser difícil de entrar, tal a temperatura. Aos poucos o corpo acostuma e vai relaxando. Eles não usam sabonete ou shampoo na banheira, pois a água pode ser usada por outra pessoa. Ao lado da banheira costuma ter um chuveiro para que a pessoa se prepare e esteja limpa para entrar na banheira.

Banheira privativa da ala antiga do ryokan Hiiragiya.

Rotenburo da ala nova do hotel Hiiragyia.

Bancada da ala nova da sala de banho do Ryokan Hiiragiya.

As refeições podem ser servidas no quarto ou em salas reservadas. O café da manhã pode ser ocidental ou oriental. O oriental é quase um almoço. Já, o jantar Kaiseki costuma ser servido cedo, num ritual bem lento. Cada prato é apresentado pela funcionária, que muitas vezes fica observando para auxiliar na maneira de preparo e procedimento. O Kobe beef, carne ultra macia, de uma região próxima à Kyoto foi a iguaria mais marcante de Kyoto. 

À noite, fique atento pois na maioria dos ryokans há um horário em que as portas se fecham. Costuma ser ao redor das 23 horas. Para entrar depois disso é preciso combinar um horário para que a porta seja aberta ao hóspede.

A experiência foi fantástica apesar do preço alto. O único ponto contra é que o ritmo da viagem lentifica um pouco. As refeições oferecidas pelo hotel demoram e o jantar é servido cedo. O que recomendo é que a hospedagem em um ryokan seja apenas por uma noite. Muitas pessoas fazem isso. Depois, mude para um hotel ocidental. Assim, você terá mais elasticidade com o tempo e poderá experimentar outros restaurantes. 

Ryokan? Sim! Uma experiência fantástica.

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