BOIPEBA É BAHIA

Definitivamente, o grande segredo de Boipeba é a dificuldade de acesso. Dona de praias quase desertas, de piscinas naturais protegidas por recifes, de extensos manguezais e de uma gente faceira, esse cantinho da Terra de Gabriela, localizado ao sul da Bahia, no arquipélago de Cairu (também chamado de Tinharé), parou no tempo e mantém um charme que daria orgulho a Jorge Amado.


Piscinas naturais de Bainema, na ilha de Boipeba.

Mesmo estando entre a vizinha bombada Morro de São Paulo e a incensada Península de Maraú, lugares de onde vem de lancha a maioria dos turistas, Boipeba se mantém em outro ritmo tanto pelo isolamento geográfico como por pertencer a uma área de proteção ambiental (APA). Boipeba agradece pela paz e retribui com rara beleza e com as tradições culturais de uma vila de pescadores impregnada de protagonismo.

Quilômetros de paz, praia de Cueira.

Boipeba é considerada a ilha mais bonita do arquipélago e assim como Morro de São Paulo, também não tem carros circulando. Mas as semelhanças entre as duas ilhas param por aí. Elas têm astral totalmente diferente. Enquanto Morro de São Paulo tem muito agito e gente saindo pelo ladrão, Boipeba é o lugar perfeito para desacelerar, curtir um paraíso intocado regido pelo sol, de pés descalços, com uma energia mágica e praticamente sem vida noturna.

Encontro do rio com o mar, em Moreré. 

Sua beleza natural e sua biodiversidade encantam de tal modo que foi reconhecida pela UNESCO como Reserva da Biosfera e Patrimônio da Humanidade. A ilha é cercada de um lado pelo mar e do outro pelo estuário do rio do Inferno, nome dado pelos jesuítas quando chegaram em 1537, pois dependendo da maré encalhavam seus barcos nos bancos de areia e eram atacados pelos índios Tupinambás.

Velha Boipeba.

Pois foi exatamente pelo rio do Inferno que cheguei, depois de atravessar de Salvador à Morro de São Paulo por duas horas em mar aberto (sacode sim!), seguido de um trajeto de 4x4 em estrada de areia bem rudimentar, mais uma pequena travessia de barco de cinco minutos pelo tal rio do Inverno passando pela belíssima Fazenda Pontal, onde vez ou outra Ivete Sangalo fica hospedada na casa de um amigo italiano. Na verdade, me senti chegando no paraíso!

Barco para atravessar um braço do rio do Inferno e ao fundo a Fazenda Pontal.

A ilha de Boipeba é formada por quatro povoados. O maior deles e mais movimentado se chama Velha Boipeba. Mais afastados, à oeste, ficam Cova da Onça e Monte Alegre, redutos da galera local e que abrigam uma comunidade quilombola. De Velha Boipeba, na parte leste, andando 4 quilômetros para o sul chega-se ao delicioso povoado de Moreré, a estrela intocada de Boipeba. Os deslocamentos pela ilha são feitos a pé, de quadriciclo ou de trator. Também é possível se locomover de uma região à outra de lancha. Há sempre muita oferta. Já, a parte norte da ilha é praticamente desabitada pois é uma região de mangue. É lá que se pode fazer um dos passeios mais exóticos de Boipeba: uma aventura noturna de caiaque no mangue para ver o fenômeno da bioluminescência, causado por plânctons. Quem organiza os passeios é a bióloga Marta, da Ecomar Boipeba, contato +55 71 99295 8858

Mapa da ilha de Boipeba.

NA TRANQUILIDADE DE MORERÉ 

Moreré foi meu primeiro paradeiro em Boipeba e meu xodó maior. O pequeno povoado está voltado para o oceano Atlântico, tendo de um lado a praia deserta de Bainema, que pode ser alcançada a pé por uma pequena trilha, e do outro a praia de Cueira, separada por um pequeno braço do rio Oritibe, onde há sempre um barquinho disponível para a travessia caso você não queira atravessar a nado.

Praia de Bainema, uma das mais bonitas da ilha.

A simplicidade é o que mais encanta em Moreré. Vielas de areia e poucas casas de pescadores se distribuem desde a praia até o larguinho do colégio e da igreja, de onde partem os tratores para Velha Boipeba.

Chão de areia e trator como meio de transporte.

O sossego, a dança da maré, as piscinas naturais e o vai e vem dos barcos de pescadores são os principais atrativos de Moreré. Mas vale incluir nesse combo o astral leve das famílias que moram ali, a maioria é cria da terra. Como Geisiel, o simpático barqueiro que nos acompanhou com gentileza. Deixo aqui o contato dele +55 75 998860433, Instagram @dcgeisiel.

De barco pelo mangue.

Com Geisiel exploramos de barco os mangues, mergulhamos nas piscinas naturais e curtimos a praia dos Castelhanos, que é quase deserta e tem um banco de areia que ganha diferentes contornos ao longo do dia conforme a dança da água. Há alguns quiosques bem simples no canto esquerdo da praia. Fizemos como base a Barraca do Paixão. Vale voltar para almoçar em Moreré no restaurante Brisa ou na Padamor, já na praia da Cueira o Guido da Lagosta é icônico.

Praia dos Castelhanos, caminhada de três quilômetros sem encontrar ninguém. 

Banco de areia da praia dos Castelhanos.

Vale lembrar que o povoado de Moreré não tem um atracadouro, o desembarque é feito no mar mesmo, bem em frente ao hotel Ventos Moreré, onde fiquei hospedada e apaixonada.

Chegada de barco em Moreré.

Ventos Moreré nasceu em setembro de 2021, fruto da paixão do italiano Cristian Bernardi pelo Brasil. Cris é um hotelier renomado com passagem pelos hotéis Meurice de Paris e Rocco Forte Brown’s, de Londres. Essa bagagem de mundo, se traduz num projeto sensacional e totalmente conectado com a alma de Boipeba. O hotel foi concebido com elementos naturais e muito respeito pelo meio ambiente, em um terreno de 8 mil metros quadrados (equivalente a 1 hectare) repleto de dendezeiros, bromélias e coqueiros.

Ventos Moreré.

O padrão dos bangalôs-oca existentes na ilha foi usado como referência e a mão de obra da região foi valorizada. Tudo leva a uma imersão cultural desde os espaços sociais à gastronomia, sempre com muito conforto e respeito pela natureza. Placas solares, poço artesiano, ventilação cruzada, foças biológicas e tratamento de água e esgoto com biodigestores são a prova desse cuidado.

Bangalô Moreré, hotel Ventos Moreré, na ilha de Boipeba.

Ao todo são 7 bangalôs, sendo que um deles tem dois quartos para atender famílias maiores. O bangalô Moreré foi o último a ser construído e é simplesmente impecável. Espaçoso, feito de materiais naturais em tons neutros e com adornos que refletem a tradição da ilha. O capricho e a hospitalidade são marcantes.

Meu cantinho em Moreré.

Fui recebida em um bangalô perfumado e florido. A suíte é muito gostosa. Tem cama deliciosa, encimada por um artesanato em macramê feito pelo artista paranaense Marcos Bazzo, ótimos travesseiros, lençóis em puro algodão 250 fios e ar condicionado. Na cabeceira da cama, um incenso natural aguarda a hora em que algum mosquito resolva invadir a área. Afinal, é tudo maravilhosamente aberto e integrado à natureza. 

Quarto do bangalô-oca Moreré, no hotel Ventos Moreré.

Os banheiros têm bancada com pias duplas, chuveiro conectado à natureza e uma banheira de madeira que é um luxo! Toalhas Trousseau e linha de amenities personalizada Physalis desenvolvida especialmente para Ventos Moreré com ingredientes naturais da região. No minibar, as embalagens são de alumínio para facilitar a reciclagem.

Banheiro do hotel Ventos Moreré aberto para a natureza.

Um luxo essa banheira de madeira.

Ventos Moreré (reserve clicando no link) é um hotel pé na areia, com 50 metros de praia, espreguiçadeiras enormes, algumas com ombrelones e outras na sombra das árvores. 

Ventos Moreré, um refúgio pé na areia em Boipeba.

A equipe é muito gentil e do bar vem água de coco fresquinha e drinques preparados com capricho, sempre embalados por uma boa seleção musical.

Restaurante Brisa, Moreré.

O restaurante Brisa comandado pelo chef Duca e sua assistente Rebeca é outro ponto alto do Ventos Moreré. Os pratos são preparados com ingredientes Km 0, provenientes da própria região sendo que o hotel tem uma horta orgânica.

Moqueca do restaurante Brisa, Ventos Moreré.

NA VELHA BOIPEBA

O maior povoado da ilha de Boipeba atende pelo nome de Velha Boipeba e se espalha ao redor da praça Santo Antônio, com população de aproximadamente 2.000 habitantes que vivem da pesca e do turismo. Uma caminhada rápida pelas poucas ruas conduz a graciosa igreja do Divino Espírito Santo, construída inicialmente pelos jesuítas em 1610 e tempos mais tarde ampliada. No mais, há restaurantes, algumas lojinhas locais e a agência de turismo Bahia Terra, que me auxiliou com muita eficiência no trajeto Salvador – Boipeba.

Povoado de Velha Boipeba.

A Velha Boipeba é acompanhada pela praia fluvial de Boca da Barra, a mais movimentada da ilha, onde desemboca o rio do Inferno. Para o lado oeste são quilômetros de mangue e pouca ocupação. Vale subir no Mirante do QuebraCu para ver a ilha toda a partir do seu ponto mais alto.

Imagem de drone feita no mirante.

No final da praia de Boca da Barra, no alto de uma colina de visual deslumbrante está a Pousada Mangabeiras (clique no link para fazer sua reserva). Esse refúgio é cercado por uma mata de espécies nativas da região, como coqueiros, dendezeiros, bromélias e obviamente mangabeiras, de onde vem o nome da pousada. O acesso é feito por uma escadaria de mais de 100 degraus iniciada na trilha entre a praia da Boca da Barra e a praia das Pedrinhas ou por uma espécie de elevador ou funicular que sobe pela mata.

Pousada Mangabeiras.

Elevador da pousada Mangabeiras.

São 11 bangalôs espalhados em um grande jardim. Todos eles contam com pequenas varandas voltadas para o mar e para o verde, onde dá vontade de ficar por horas no vai e vem da rede ouvindo apenas o barulho das ondas e o canto dos pássaros. O bangalô master é o mais espaçoso e sofisticado da pousada Mangabeiras e conta com banheira de hidromassagem. 

Bangalô master da pousada Mangabeira.

Uma banheira de hidromassagem com vista do mar para relaxar.

O ponto alto fica por conta da piscina cercada pela mata, em frente ao restaurante. E por falar em restaurante voltei com a lembrança do Bolo de Tapioca da Neuza, uma pessoa encantadora que prepara um café da manhã cheio de sabores da terra. Aqui vai a receita.

Piscina e restaurante da pousada Mangabeiras.

BOLO DE TAPIOCA DA NEUZA

Ingredientes: 3 ovos, 2 xícaras de açúcar, 4 colheres de sopa cheias de manteiga, 1 pitada de sal, 2 xícaras de farinha de trigo, 1 ½ xícara de tapioca quebradinha, 1 colher de fermento, 1 coco e descascado para fazer o leite de coco com 2 xícaras de água

Modo de preparar: Faça o leite de coco batendo no liquidificador o coco e a água. Não coe. Coloque a tapioca de molho nesse leite de coco e reserve enquanto trabalha os demais ingredientes. Bata os ovos com o açúcar na batedeira. Quando estiver bem batido acrescente a manteiga e siga batendo. Adicione a farinha, o sal e o leite de coco com a tapioca. A partir daí bata apenas à mão e por último acrescente o fermento. Coloque a massa em uma assadeira quadrada ou retangular untada e leve ao forno pré-aquecido até assar. 

Boipeba é uma verdadeira explosão dos sentidos. O restaurante da pousada Mangabeiras é aberto ao público e serve culinária baiana com toque contemporâneo, sucos de frutas locais deliciosos. Destaque para o mel de cacau geladinho (que amo!) e que aliás entra no preparo de alguns drinques, como o “néctar dos deuses”.

Café da manhã da pousada Mangabeiras.

DOBRADINHA MORERÉ – VELHA BOIPEBA

Sugiro que você divida sua estada em duas etapas para curtir com mais facilidade a ilha e abreviar os deslocamentos. 

Em Moreré recomendo o novinho-charmoso Ventos Moreré e aproveite para caminhar até a praia deserta de Bainema (para o lado direito de Moreré), passear de barco contornando a ilha toda (22 quilômetros), mergulhar nas tantas piscinas naturais em frente a Moreré, Bainema e Castelhanos durante a maré baixa (é preciso barco e não esqueça do snorkel), caminhar pela extensa praia dos Castelhanos (acesso de barco) e atravessar o rio Oritibe, o coqueiral da praia da Cueira, Tassimirim, praia das Pedrinhas e Boca da Barra numa das caminhadas mais bonitas do Brasil, indo até a Velha Boipeba. 

Rio Oritibe separando as praias de Moreré e Cueira.

Na Velha Boipeba recomendo a pousada Mangabeiras e aproveite para curtir a praia da Boca da Barra, a praia das Pedrinhas, Cueira e o pôr do sol na pousada Céu de Boipeba; além disso, agende o passeio noturno de caiaque pelo mangue da ilha para ver a bioluminescência.

Boca da Barra, na Velha Boipeba.

TODAS AS POSSIBILIDADES PARA CHEGAR

Vindo de Salvador o avião bimotor é a forma mais rápida, bonita e também a mais cara. Mas, recomendo uma vez que o trajeto de catamarã feito do Terminal Marítimo de Salvador a Morro de São Paulo, em duas horas, costuma deixar muita gente enjoada e até passando mal. Além de necessitar mais um trecho em veículo 4X4, em estrada bem rudimentar de areia e mais uma travessia de barco até a Velha Boipeba. Caso vá para Moreré há mais um trecho a ser coberto que pode ser feito por terra de trator ou quadriciclo em meia hora ou pelo mar, de lancha, em 10 minutos.

Vindo de Ilhéus a boa é ficar hospedado na Península de Maraú, no Villa Kandui, na Casa dos Arandis ou no KaBru por alguns dias e então fazer uma travessia de barco até Boipeba de menos de uma hora. Essa ideia é ótima. 

Outra opção é partir de lancha do Porto de Valença em uma navegação bem mais tranquila do que o catamarã de Salvador e mais rápida.

Se estiver de carro é possível deixa-lo no vilarejo de Torrinhas, no distrito de Cairu e tomar um barco regular de linha.

O quadriciclo faz parte da vida na ilha.

ONDE COMER EM BOIPEBA

Em Moreré: restaurante Brisa do hotel Ventos Moreré e no vegano Padamor

Na praia da Cueira: Guido da Lagosta

Na Velha Boipeba: restaurante da pousada Céu de Boipeba

Na praia dos Castelhanos: Barraca do Paixão 

Em Tassimirim: Cabana da Gleyde

Cabana da Gleyde, simplicidade e simpatia.

AGÊNCIA DE TURISMO LOCAL

Bahia Terra. Muito bem recomendada. 

HOTÉIS EM SALVADOR (caso chegue por Salvador)

CANTO HOTEL (reserve aqui). Um 3 estrelas recém inaugurado no bairro do Rio vermelho. Tem apenas 15 acomodações, quartos charmosos e excelente custo-benefício.

Canto Hotel.

FASANO SALVADOR (reserve aqui). Hotel muito elegante que ocupa as antigas instalações do jornal A Tarde, em frente a praça Castro Alves. Tem excelente restaurante e um rooftop com piscina badalada.

Fasano Salvador.

ENFIM...

Boipeba é um dos vilarejos de pescadores mais autênticos do sul da Bahia. Graças ao isolamento do arquipélago mantém sua alma intocada. A ilha vive num ritmo desprovido de pressa, sem buzinas, sem bancos, sem filas, sem restaurantes sofisticados. As preocupações diárias se revezam entre a escolha da praia para fazer a caminhada, a fruta do dia para o suco e o acompanhamento do peixe do almoço. No mais é entrar no mood “pés-descalços” e curtir toda a baianidade-zen do Bainema ao Moreré.

Assim é Boipeba!

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