ARAXÁ, TERRA DA JUVENTUDE


O primeiro gole de água radiotiva e sulfurosa, a gente nunca esquece. E foi exatamente naquele instante que entendi porque as fontes hidrominerais de Araxá são reverenciadas desde os tempos do Brasil Imperial. São águas que curam e rejuvenescem. Essa descoberta foi feita ao acaso pelos pecuaristas da região, no século XVII, ao perceber que o gado que pastava perto das fontes minerais engordava mais rápido do que os demais do rebanho e era mais saudável. Assim, o Circuito das Águas, que engloba vários municípios do estado de Minas Gerais, e tem como estrela maior a cidade de Araxá, ganhou fama.


Mapa de Minas Gerais evidenciando Araxá.


Sabendo desse poder, o então presidente do Brasil Getúlio Vargas juntamente com o governador mineiro Benedito Valadares, decidiram incentivar o turismo para o coração do país, que não é banhado pelo mar mas tem águas medicinais que brotam das entranhas da terra, de rochas carbônicas formadas há milhões de anos por erupções vulcânicas, e de quebra montar uma base governamental no Triângulo Mineiro.


Fonte Dona Beja, de água radioativa.

DE VOLTA AO PASSADO

 

Em 1938 iniciaram a construção do Grande Hotel Termas de Araxá. As portas do palacete - de 288 acomodações - abriram-se oficialmente em 1944, em plena Segunda Guerra Mundial, para contemplar além da saúde, o entretenimento. É que para atrair a elite brasileira àquele hotel luxuoso, havia além de um espetacular spa de águas termais, um cassino. Mas sua sorte foi curta. Com menos de dois anos de funcionamento, a primeira dama Carmela Dutra, muito religiosa, motivou um decreto em 1946 para proibir os jogos de azar no Brasil, assim que o marido assumiu a presidência do país. Bem, esse fato é apenas uma curiosidade que explica a proibição dos cassinos.

 

Com ou sem cassino, a verdade é que o Grande Hotel Termas de Araxá é impactante. Jardins projetados por Burle Marx enriquecem o projeto arquitetônico do hotel assinado por Luiz Signorelli, inspirado nas casas de banho romanas, tendo o aconchego de uma área verde de 450.000 m2, a 4 quilômetros do centrinho de Araxá.


Grande Hotel Termas de Araxá.

Por fora, as paredes em tijolos finalizadas com barro maçaricado são fielmente mantidas desde a década de 40 dando ares europeus ao palácio. Por dentro, o suntuoso lobby dá as boas-vindas com piso em mármore de Carrara, colunas em mármore Travertino, um imenso lustre de cristal alemão e mobília original da época em que foi inaugurado. Só a imponência desse salão já justifica o fato de que o Complexo Termal Grande Hotel tenha sido tombado como patrimônio histórico e cultural, em 1999.


A suntuosidade do lobby do Grande Hotel.

Indo além, a antiga biblioteca usada por Getúlio Vargas se mantém intacta ao lado do Cine Teatro Tiradentes e do Salão Ouro Preto onde se apresentava com frequência Carmen Miranda,  Beth Carvalho e tantas outras personalidades. 


Salão Ouro Preto, um dos tantos salões do palacete.

O hotel também serviu como pano de fundo para gravação de cenas da minissérie Hilda Furacão, protagonizada por Ana Paula Arósio e foi fonte de inspiração para a novela Dona Beja, da extinta TV Manchete, na qual Maitê Proença retrata o empoderamento de uma mulher belíssima que escandalizou Araxá na época, ao viver como cortesã. Dona Beja está eternizada não só na fonte de água radioativa que leva seu nome como nas cenas pintadas nas paredes do spa. 


Spa com cenas da vida de Dona Beja.

Como se isso fosse pouco para traduzir o que chamo de “hotel-museu-mandala” (sobre a vertente mandala explico depois) no segundo andar estão os aposentos do então presidente Getúlio Vargas. Subir a escadaria de mármore e dar de cara com a suíte usada pelo grande personagem dessa história - e depois por outros presidentes do país - significa revisitar recortes do passado. 


Solicite um tour guiado e descobrirá as tantas portas falsas e rotas de fuga encomendadas como forma de proteção. Getúlio tinha medo de cair em alguma emboscada. Todo o segundo andar funciona hoje como museu e os aposentados merecem ser visitados. 

 

  
Quarto e biblioteca usados por Getúlio Vargas.

No entanto, as acomodações espalhadas pelos demais andares (o prédio tem 9 andares) também precisam seguir as diretrizes do tombamento do imóvel e muita coisa deve ser preservada, como os banheiros e o mobiliário antigo. Já, as camas originais de madeira foram trocadas por camas em tamanho king e são vestidas com enxoval Trousseau de 300 fios 100% algodão egípcio que garantem belas noites de sono.


Acomodações revitalizadas do Grande Hotel Termas de Araxá.

Depois de viver uma saga de apoteose e queda, o hotel acabou por fechar as portas. No entanto, esse patrimônio histórico tombado pelo estado de Minas Gerais merecia voltar a brilhar, como nos tempos em que as famílias Maluf e Matarazzo desfilavam em seus salões.


Um hotel que conta uma boa fatia da história do Brasil.

Reabriu em 2001 passando pela administração de várias empresas até chegar às mãos do Grupo Tauá. A dança começou em 2010 e o acerto dos passos se deu após a pandemia quando houve uma bela revitalização da propriedade e ênfase na qualidade da hospedagem. Hoje, o hotel opera com 150 acomodações divididas em oito categorias, mesclando o clássico com o contemporâneo. Foi assim que a tríade saúde, história e hospitalidade passou a atrair novamente os olhares para Araxá.


Bar Scotch.

MANDALA DE CURA

 

Um labirinto de escadas e caminhos me levou até o espetacular spa do hotel construído na forma de uma mandala. Sim. Um spa-mandala. A energia do lugar é impressionante. Por mais que eu tente explicar, nada conseguirá traduzir o impacto de andar por um longo corredor até os olhos encontrarem a grande mandala de oito pontas desenhada em mármore no chão, encimada por um domo altíssimo que ostenta um vitral com cenas da vida em Araxá.


A impressionante mandala do Grande Hotel Termas de Araxá.

Fiquei ali parada um bom tempo admirando a grandiosidade do projeto desenhado por um indiano, cuja imagem está retratada em cenas pintadas nas paredes. 

 

Desci em silêncio até chegar ao ponto central da mandala onde um fio de cobre de 30 metros desce em espiral até encontrar a tal laje de rocha carbônica cheia de poderes energéticos. Instintivamente entoei um mantra que reverberou com força preenchendo todos os espaços da sala e das minhas células. O tempo ali parece não ter pressa. Traz calma. E emana paz. 


Piscina emanatória de água radioativa.

Cada ponta da mandala direciona para uma sala com um tipo diferente de tratamento e propõe parte de um processo de equilíbrio, cura e rejuvenescimento. Comecei tomando um copo de água sulfurosa (indicada para desintoxicar, desinflamar o corpo e acelerar o metabolismo) e a seguir mergulhei numa piscina emanatória, de água radioativa, aquecida a 370C com o poder de relaxar e ativar a circulação. Foi quando encontrei o Dr. Fábio Drummond, um famoso advogado de 92 anos, vendendo saúde. Um habitué do spa que me confirmou o poder das águas de Araxá. Ele não usa nenhum medicamento a essa altura da vida, está em excelente forma física, tem ótima memória e esbanja saúde. O solo de Araxá é reconhecido há décadas pelas propriedades medicinais, de onde nascem as famosas águas termais com poder medicinal.


Banho de lama.

Para fechar a experiência com chave de ouro participei ao anoitecer da Jornada do Ser, no Labirinto de Velas, com uma cerimônia conduzida por Patrícia Valle entoando mantras com voz e violão no centro da mandala.


Labirinto de Velas.

Para os adultos o hotel é perfeito para dias de paz, de autocuidado e de espiritualidade. Vale fazer caminhadas pelos jardins de Burle Marx, pelas trilhas do Parque do Barreiro indo até as cachoeiras e Fonte Dona Beja, visitar as ruínas do Hotel Rádio e aproveitar as atividades de lazer à beira do lago ou a piscina. Já, as crianças têm uma programação variada monitorada por recreadores. E elas são muito bem-vindas. 


  
Ruínas do Hotel Rádio.

O hotel conta com dois restaurantes: o Estância do Barreiro tem serviço de buffet e o Chez Beja, serve pratos a la carte, mas precisa de reserva antecipada por ter poucas mesas. Para tomar um drinque antes das refeições há três bares: Varanda e Scotch, e o bar da piscina, Quintas do Lago.


O pudim é famoso no hotel.

Chegar a Araxá está mais fácil do que nunca com voos semanais da Azul, de Belo Horizonte e São Paulo. O próprio hotel oferece pacotes já com o aéreo incluído. 

 

O Grande Hotel Termas de Araxá é uma estrela que renasce e aponta novamente o olhar para a tríade saúde, história e hospitalidade no coração do Brasil. 


Grande Hotel Termas de Araxá. Bela surpresa.

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