A SINGULARIDADE DA MONGÓLIA

Terra de Gengis Khan, de horizonte sem fim, com paisagens inóspitas onde o nomadismo mantém sua tradição e cultua os últimos cavalos selvagens do planeta. Um dos países menos populosos do mundo tem suas origens e cultura arraigada.  


Matéria escrita por Claudia Liechavicius para a revista Top Destinos #191.

Os primeiros raios de sol iluminaram minha chegada ao deserto de Gobi. Ainda não eram 6 horas quando o avião da Hunnu Air aterrissou no pequenino aeroporto Gurvan Saikhan, a 600 quilômetros da capital Ulaanbaatar. Para os mongóis, a aurora tem um significado espiritual de reverência aos inícios, e ali estava eu, vibrando na mesma frequência ao iniciar uma jornada impactante pela Mongólia. Um dos países menos populosos do mundo (cerca de 3 milhões de habitantes), confinado entre a Rússia e a China, dono de um território de dimensões comparáveis ao estado do Amazonas, e que por meros 38 quilômetros, não encosta no “quase” vizinho – também nômade – Cazaquistão. 


AS CORES DO NOMADISMO

 

Estima-se que mais de um terço da população da Mongólia seja nômade. A principal característica desses povos é não ter habitação fixa e viver em sintonia com a natureza. Eles mudam de lugar a cada três ou quatro meses em busca de água e de melhores pastagens para seus rebanhos quando o pasto nativo se esgota. Plantar nas estepes é inviável. Nem mesmo as árvores conseguem florir. A vida é difícil em função das condições climáticas extremas que podem variar de - 400C no inverno a + 400C no verão. Por isso é preciso escolher com atenção a época para ir ao deserto de Gobi. Os camps são sazonais e ficam abertos apenas de abril a outubro. Estive em agosto e foi perfeito.

 

Fora isso, só os nômades conseguem encarar a tremenda amplitude térmica. Eis um lugar onde a terra é brava e o espírito precisa ser forte. A vida é dura sim, mas as famílias vivem com relativo conforto hoje em dia. Muitas têm carro, já pastoreiam seus animais de bicicleta ou moto em vez do cavalo, contam com o auxílio de telefones celulares, tem energia gerada por placas solares, tem TV e até internet. As tradicionais tendas brancas circulares onde vivem – chamadas de gerna Mongólia e yurt em outros países - representam uma boa solução de moradia para o estilo de vida nômade. São práticas para transportar, fáceis de montar e desmontar, protegem das constantes tempestades de areia, do frio e do vento cortante. Sua base é feita com uma treliça de madeira em que as peças se encaixam meticulosamente formando uma grande estrutura semelhante a uma gaiola, com teto abobadado. A tenda é coberta por lona, feltro e lã para garantir a proteção térmica. Em 2013, a UNESCO classificou a fabricação das gers como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade. Ter o privilégio de ficar hospedada numa acomodação nômade foi uma tremenda experiência de vida.

 

Se por um lado, a porta de entrada do país é a simpática Ulaanbaatar, por outro, o que mais atrai os visitantes é o magnetismo dos espaços silenciosos do deserto e a singularidade da vida nômade. Não fugi à regra. Deixei a capital para o final da viagem e antes mesmo que o sol despontasse no horizonte, eu pousava em Dalanzadgad onde o guia Anand Munkhuu e o motorista Batkhishig aka Baagii aguardavam trajados da habitual hospitalidade mongol para conduzir uma aventura de cinco dias no Three Camel Lodge, única hospedagem de luxo em um ger camp da região.


MIRAGEM NO DESERTO

 

Foram pouco mais de 60 quilômetros do aeroporto até o hotel, por uma estradinha forjada pelo vai e vem dos carros, enquanto uma avalanche de sentimentos inquietava meu olhar. Era um rebanho de cabras aqui, um pastor cuidando dos camelos e dos cavalos ali, uma ger solitária acolá, a ausência total de cercas, árvores nem pensar, raros oásis verdejantes, algumas dunas de areia, e a voz grave de Anand traduzindo a cena, a medida que um horizonte inalcançável fundia o céu e a terra em lagoas inexistentes (sim, eu via água onde não havia). Era miragem! O deserto de Gobi tem o poder de enganar a retina com a fluidez da paisagem e retratar efeitos especiais dignos de Spielberg.

 

É que o termômetro tinha feito uma escalada abissal de 15 para 340C. E foi exatamente no ápice desse calor que desembarquei da caminhonete Toyota 4x4. Toalhinha gelada e chá refrescante deram as boas-vindas no ecolodge, em uma grande tenda, que fazia as vezes de lobby, sem se preocupar com check in. Agradeci a gentileza com um desajeitado “bayarlaa” e me apressei para conhecer todos os cantinhos do hotel.


Eu desvendava naquele instante uma história de amor protagonizada por Jalsa Urubshurow, iniciada em 1952, quando seu pai migrou para os Estados Unidos em busca de um refúgio seguro durante a ocupação soviética. Jalsa nasceu e cresceu no leste americano falando mongol e ouvindo as lendas que o pai contava. A paixão estava impressa no seu DNA. Bastou a Mongólia fazer a transição para a democracia e o sonho de resgatar as raízes virou realidade. Em 1992 nascia a operadora de turismo Nomadic Expeditions, para abrir as portas da Mongólia aos visitantes ocidentais. A dificuldade maior naquela época era encontrar acomodações confortáveis no deserto de Gobi. Então, em 2002, Jalsa inaugurou uma constelação de 40 luxuosas gers, denominada Three Camel Lodge, tendo o cuidado de manter as tradições, incluir a comunidade local e focar na sustentabilidade. O resultado não poderia ser melhor.

 

Pallas Cat era o nome da minha acomodação. Impossível segurar o queixo ao atravessar a portinhola. Na verdade, eram duas tendas conjugadas, uma delas ocupada pelo amplo quarto e outra pelo banheiro, inclusive com água aquecida, uma preciosidade que vale mais do que ouro no deserto. Decoração mongol autêntica, com uma sela de cavalo a um canto, móveis talhados à mão por artesãos locais, aquecedor à lenha para os dias frios e cama com mosquiteiro. Tudo conectado com a vida nômade. Extremamente confortável e belo.


RETRATOS DE GOBI

 

Antes de partir para explorar o leque de cenários que se abre no deserto de Gobi, recebi do guia Anand um lenço cerimonial azul celeste para abençoar meus dias. Ele sinalizou um ovoo, uma pilha de pedras posicionada na parte mais alta do lodge, onde eu deveria dar três voltas no sentido horário e então amarrar o lenço para que a viagem fosse segura. Assim fiz. Segui a tradição. O budismo tibetano, mesclado com o ancestral xamanismo, tem grande importância para a cultura mongol desde o século XIII quando a população foi convertida em massa por influência de Gengis Khan, mesmo que durante o governo socialista tenha perdido força ao ter centenas de monges massacrados e outros tantos deslocados para prisões na Sibéria, por ir contra os interesses soviéticos. Hoje, vivendo uma democracia, o povo tem liberdade para cultuar sua fé e seus símbolos religiosos. Eu estava imersa num universo distante do meu e agradeci por isso.

 

Por onde quer que passasse, cenas dos filmes e documentários que assisti para me preparar para as peculiaridades do destino, vinham à tona. Mergulhei na delicadeza de “Camelos Também Choram”, dirigido pelo mongol Byambasuren e pelo italiano Luigi Falorni, ao cruzar com uma família nômade recém instalada aos pés das dunas de Moltsog Els. A mulher cuidava de sete camelos, sem tirar os olhos do seu filho caçula. Aquele quadro imediatamente me remeteu ao documentário que concorreu ao Oscar, em 2005, ao retratar o difícil parto de uma camela que depois de dois dias em sofrimento deu à luz um raro camelo albino. E o rejeitou. Ao esgotar os recursos na tentativa de que a mãe aceitasse o filhote, a família enviou os dois garotos mais velhos por uma viagem pelo deserto até o vilarejo onde vivia um músico que poderia salvar a vida do pequenino camelo Botok. Se eu já havia me emocionado ao assistir o filme em casa, imagine meu êxtase ao revisitar aquele momento à beira das dunas.

 

Fui convidada pela matriarca a entrar para tomar um chá com boortsog (um biscoito típico da região) e queijo desidratado. A solidariedade e a gentileza imperam no deserto pois a densidade demográfica é baixíssima, as distâncias são enormes e as terras não têm donos nem cercas. Qualquer pessoa que passe é convidada a entrar e se reabastecer. Também visitei outras duas famílias e em todas me senti bem-vinda. Em uma delas fui convidada a compartilhar a refeição que estava sendo preparada. Basicamente, carne, leite e derivados. Legumes, verduras e frutas não fazem parte da alimentação dos nômades. Além de caros, existem apenas em alguns oásis onde a água brota do chão.

 

De volta ao hotel, as refeições eram servidas no restaurante Bulagtai, com ingredientes vindos da própria horta orgânica e de comunidades próximas. A refeição mais aguardada do dia, era o jantar. O ritual iniciava com a despedida do astro rei, acompanhado de um drinque no Thirsty Camel Bar, classificado pela Forbes Ásia, como “o melhor bar de whisky asiático” e então o jantar era servido ao estilo mongol, sempre com alguma surpresa. A performance de música e dança apresentada por um grupo de jovens patrocinados pelo próprio lodge foi mágica, especialmente pela habilidade dos meninos com o violino de cabeça de cavalo, pela graça das mãos das dançarinas e pelos trajes típicos.



TEMPO REI

 

Se uma expedição “a la Indiana Jones” estava prevista para o dia seguinte, inspirada no lendário Roy Chapman Andrews, que descobriu um ninho de dinossauro na Mongólia, em 1923, confirmando a evidência de que essas criaturas pré-históricas botavam ovos, uma tempestade de areia mudou os planos. Os humores da mãe natureza ditam incontestavelmente as regras no deserto. Então, a caminhada com o paleontólogo Batsukh em busca de fósseis de dinossauro, em Flaming Cliffs, deu lugar a um belo tratamento no Arshaan Spa e a prática de arco e flecha, uma tradição enraizada no país. No dia seguinte, o sol brilhava forte e não havia uma nuvem sequer para contestar o apelido de Terra do Céu Azul. Era chegada a hora de encarar a paisagem mais famosa e dramática do deserto de Gobi, um verdadeiro Parque dos Dinossauros, espalhado por um cenário de arenito vermelho repleto de falésias, onde tive a sorte de ver uma ossada que havia sido encontrada dois dias antes. Esse é um dos sítios mais importantes do mundo para pesquisas paleontológicas. 


E não para por aí. Subi a montanha de Havsgait para ver petróglifos de até 8 mil anos; fiz um trekking lindo de 6 quilômetros pelo Vale de Yol, no coração das Montanhas Zuun Saikhan; visitei o povoado de Bulgan, que já abrigou um laboratório químico russo por ter uma nascente natural que hoje auxilia as fazendolas na produção de legumes; aprendi como se monta uma ger; fiz aula de culinária para descobrir a arte da produção dos dumplings da Mongólia; e, não perdi a oportunidade de andar a cavalo pelas estepes.

 

A cultura equestre é parte importante da identidade local. As crianças praticamente nascem dominando a montaria. Com dois anos já participam de festivais. O mais importante deles, chamado Naadam, recentemente entrou para a lista de Patrimônio Imaterial da Unesco. Esse festival de dança, música, gastronomia, artesanato e, principalmente, de competições esportivas, é realizado todos os anos no mês de julho. Os grandes eventos do festival acontecem na capital.



ENFIM ULAANBAATAR

 

A capital da Mongólia tem 1,5 milhão de habitantes, quase metade da população do país. É uma cidade relativamente pequena e pode ser toda percorrida a pé, caso você escolha um hotel bem localizado. O Shangri-La Ulaanbaatar está a 100 metros da praça Subhbaatar, ao redor da qual os principais atrativos se espalham. Além de ser bem localizado, ele é o hotel mais sofisticado da cidade. Conta com 290 acomodações amplas, com decoração elegante e grandes janelões. O hotel é conectado a um shopping com ótimas lojas e restaurantes, o que traz muita praticidade. Não perca a chance de comprar um bom cashmere (afinal eles estão entre os melhores do mundo) e de experimentar a culinária local, baseada em carnes, derivados do leite e massas, no Mongolian’s.

 

Três dias é o ideal para conhecer a cidade que é muito segura e repleta de pontos interessantes. Entre espigões envidraçados e prédios em estilo soviético, o Templo Museu Choijin Lama é parada obrigatória. Esse tesouro arquitetônico foi construído pelo rei Bogd Khan, dedicado ao seu irmão. Abriga uma coleção de máscaras e vários objetos budistas usados em cerimônias religiosas. Mais alguns passos e a praça Subhbaatar atravessa o caminho. No centro da praça tem uma estátua imensa do herói revolucionário Damdin Sukhbaatar montado a cavalo. A alguns passos, o Museu Nacional Gengis Khan, inaugurado recentemente, dedicado ao grande herói nacional responsável por unificar os povos mongóis no século XIII, é parada obrigada para um passeio pela trajetória do Império Mongol. Seu acervo é riquíssimo. Também visite o monastério budista Gandantechinlen, um dos mais importantes da Mongólia, fundado em 1838. Ele guarda um imenso Buda dourado de 26,5 metros de altura, sendo escola e lar de centenas de monges. Para comprar alguma lembrança típica da Mongólia indico a State Department Store. O sexto andar da imensa loja é dedicado aos produtos típicos do país desde pequenas gers até instrumentos musicais. E por falar em instrumentos musicais, não deixe de assistir a uma performance folclórica. É de impressionar tanto pelas vestimentas, pelos instrumentos exóticos, mas principalmente pelo canto gutural Khoomei. De uma singularidade absoluta. Aliás a singularidade se estende pela Mongólia inteira, uma joia repleta de mistérios e costurada pela sabedoria da vida nômade.


DICAS QUENTES

 

DOCUMENTOS NECESSÁRIOS

 

Brasileiros estão isentos de visto para entrar na Mongólia com permanência de até 30 dias. É preciso apresentar passaporte com validade de no mínimo seis meses.

 

COMO CHEGAR 

 

É possível voar via Dubai ou Doha seguido de uma escala em algum país asiático. O trajeto é longo. Do Brasil até a capital Ulaanbaatar será praticamente um dia inteiro de voo, considerando o tempo das conexões. De Ulaanbaatar até Dalanzadgad (deserto de Gobi) o voo tem duração de 1h30 e apenas um horário ao dia, antes do amanhecer, por questões técnicas.

 

QUANDO IR

 

A capital da Mongólia é considerada a mais fria do mundo. O ideal é o período mais quente, compreendido entre abril e outubro, sendo os meses de julho e agosto os mais recomendados.

 

ONDE FICAR

 

Shangri-La Ulaanbaatar é um dos hotéis mais sofisticados da capital. Tem localização excelente a alguns passos da praça Subhbaatar, ao redor da qual tudo se espalha. Para os hóspedes frequentes que tenham o cartão Shangri-La Circle há uma área reservada chamada de Horizon Club Lounge onde são servidos drinques e pequenas refeições ao longo do dia.

 

Three Camel Lodge é a opção mais confortável do deserto de Gobi, com 40 gers luxuosas. O ecolodge organiza todo o roteiro, inclusive passeios com guia e motorista. As refeições e os passeios estão incluídos no valor da diária.

 

HOSPITALIDADE

 

O povo mongol é muito simpático e acolhedor. As pessoas estão sempre de portas abertas e com um sorriso nos lábios.

 

QUEM LEVA 

 

Nomadic Expedition – nomadicexpeditions.com


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