UM ESTRANHO PAÍS CHAMADO VANUATU

Longe das rotas óbvias do Pacífico Sul existe um arquipélago onde a aventura é a própria essência da vida. Vanuatu é um destino para quem busca o insólito, um lugar onde a terra ruge sob os pés e a tradição é tão sólida quanto as raízes das milenares árvores banyan. Uma micronação que desafia a lógica da modernidade e mantém o tempo em um compasso próprio.

Para localizar Vanuatu no mapa.

Vanuatu, oficialmente República de Vanuatu, é uma nação insular da Melanésia, conhecida por ser um paraíso tropical exuberante, de cultura rica e, paradoxalmente, um dos países mais propensos a desastres naturais do mundo. É um arquipélago formado por cerca de 83 ilhas de origem vulcânica, estendendo-se por cerca de 1300 km de norte a sul, com destaque para as ilhas de Efate (onde fica a capital Port Vila) e Espiritu Santo. Um destino de contraste, onde a vida tranquila convive com a força da natureza e se debruça sobre uma cultura indígena profundamente enraizada.


Cercada de sorrisos.

Por falar em cultura comecemos pela gastronomia de Vanuatu. É uma lição de paciência e respeito visceral ao solo vulcânico, convertida numa explosão de sabores. Esqueça fogões industriais ou técnicas ocidentais; aqui, o astro absoluto é o Lap Lap. O prato nacional consiste em uma massa de raízes, como inhame ou mandioca raladas e mergulhadas em leite de coco fresco com carne de porco, galinha, peixe ou morcego-da-fruta. O segredo, porém, está no preparo: tudo é cuidadosamente embrulhado em folhas de bananeira e cozido lentamente sob pedras vulcânicas aquecidas. 


Provando e aprovando a comida de Vanuatu. Deliciosa!

O resultado é uma textura única, defumada e terrosa, que transporta o paladar diretamente para o coração da Melanésia. É uma culinária de subsistência elevada ao status de ritual, assim como a cerimônia do Kava. Diferente da versão festiva encontrada em Fiji, o Kava em Vanuatu é um assunto mais introspectivo. A raiz é moída para criar uma bebida com propriedades sedativas e anestésicas, consumida ao cair da tarde nos nakamals (casas comunitárias), proporcionando um estado de comunhão silenciosa que dizem acalmar o mundo exterior.


Cerimônia do Kava.

Essa conexão com o místico também se manifesta em um passado que fascina e assusta o viajante antropológico: o histórico de canibalismo. Praticado até meados do século XX, especialmente em ilhas como Malekula, o ato era parte de rituais de guerra onde se acreditava que a força do inimigo era absorvida. Hoje, os descendentes desses guerreiros recebem os visitantes com um orgulho legítimo de suas raízes, exibindo sítios arqueológicos e narrando histórias de um tempo em que a sobrevivência exigia ferocidade. Curiosamente, o bungee jumping moderno tem suas raízes em um ritual sagrado de salto com significado cultural profundo, chamado Naghol, realizado em Pentecostes. É tanto um rito de passagem para a masculinidade, como uma forma de garantir uma colheita abundante e uma conexão espiritual com a terra.


Ritual Naghol, o precursor do bungee jumping.

No Naghol, os praticantes (exclusivamente homens) saltam de torres de madeira artesanais que podem atingir até 30 metros de altura, usando cipós amarrados aos tornozelos. Após o salto, os ombros do saltador devem tocar levemente o chão, o que requer uma medição precisa do cipó. Pois foi exatamente aí que surgiu a ideia do bungee jumping, quando um neozelandês testemunhou essa prática ancestral e a transformou em uma atividade radical na década de 80.


O Chefe Bakokoto é o líder da comunidade de Ifira.

Para quem deseja romper a bolha dos resorts e tocar a alma local, a visita à pequena ilha de Ifira, situada logo em frente à capital Port Vila, é mandatória. Trata-se de um território onde habitam 3 mil pessoas, sendo a propriedade da terra e os costumes preservados com vigor. Caminhar por suas vilas acompanhado pelo Chefe Bakokoto é entender a organização social do país e testemunhar a hospitalidade genuína daquele que já foi eleito o povo mais feliz do mundo.


Ifira Island.

Logisticamente, chegar a esse paraíso exige fôlego: a rota mais comum envolve voos via Sydney ou Auckland com a Jet Star, ou via Fiji com a Fiji Airways. O arquipélago, lar de 320 mil habitantes, está situado no Círculo de Fogo do Pacífico, o que significa que o risco de terremotos é uma realidade constante, assim como a atividade vulcânica que molda a paisagem. A melhor época para a visita é entre maio e outubro, durante a estação seca, quando os céus estão limpos e os ciclones dão trégua. Estive no país no mês de fevereiro de 2026. Saí de Vanuatu no dia 12 e no dia 13 houve um terremoto de magnitude 6,4. Por um triz.


Iririki Island Resort, Vanuatu.

No quesito hospedagem, o país tem opções que vão desde o The Havannah, Tamanu on the Beach até o conhecido Iririki Island Resort, todos em Efate, mas não são muito sofisticados. Embora o Iririki tenha perdido parte da fama de outrora, apresentando uma infraestrutura que por vezes denuncia o peso da idade e o fluxo turístico, ele continua sendo uma boa escolha pela conveniência de oferecer várias atividades nas ilhas e pelas vistas panorâmicas da baía.


Champagne Beach, na ilha Espiritu Santo.

Entre os passeios que justificam a travessia do globo, o vulcão Mount Yasur, em Tanna, é o grande protagonista, sendo um dos poucos vulcões ativos no mundo onde se pode chegar à borda da cratera para ver a lava jorrar contra o céu. Há também a famosa Champagne Beach, em Espiritu Santo, com areia branca e um fenômeno único onde gases vulcânicos subaquáticos criam bolhas na maré baixa, lembrando champagne daí o nome, e o mergulho no naufrágio do SS President Coolidge, um transatlântico da Segunda Guerra.


Vulcão Mount Yasur, em Tanna.

Como diriam os locais em "bislama": "Tankyu tumas, lukim yu!" que significa "Muito obrigada e até breve! Essa língua mistura o vocabulário inglês com a gramática da Melanésia e eles próprios definem como um “inglês quebrado”, sendo um dos idiomas oficiais de Vanuatu, junto com o inglês e o francês. 


Vanuatu não é um destino óbvio nem básico; é um estado de espírito que exige desprendimento, curiosidade e o reconhecimento de que a beleza, às vezes, mora no que é bruto e ancestral.


"Lukim yu!", Vanuatu.

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