MARRAKECH PARA PRESENTE
A Cidade Vermelha reluz em uma frequência quase hipnótica entre souks, palácios, riads, minaretes e muralhas. Uma cidade de passado imperial que pede entrega aos sentidos e nos convida a viver o presente. Marrakesh, que na língua nativa dos berberes significa “A Terra de Deus”, caminha com passos firmes entre o ouro e o barro. Cada viela carrega no ar o aroma da flor de laranjeira temperado com especiarias, em uma trajetória arquitetada por séculos de história e embalada pelo eco dos chamados à oração. Marrakesh não é apenas um destino para ser contemplado; é um verdadeiro turbilhão sensorial. É um convite vivo para desacelerar, apurar a alma e abraçar a beleza do imprevisível como um presente.
PASSADO IMPERIAL
Fundada no século XI pela dinastia Almorávida, Marrakesh rapidamente se tornou o coração do Marrocos pela localização estratégica entre as montanhas Atlas e as rotas comerciais do Saara, conectando caravanas e saberes milenares. Ao longo de sua estrada, passou por várias dinastias e foi alçada a capital imperial do Marrocos por um longo tempo, competindo com as cidades imperiais Fez, Meknès e Rabat. Com isso, fermentou um belo caldeirão de culturas, estéticas e filosofias. A proximidade geográfica com a Espanha — separadas apenas pelo Estreito de Gibraltar — cultivou um vínculo histórico profundo. O entrelaçamento entre a arte islâmica e o estilo andaluz reflete-se nos pátios simétricos, nos azulejos zellige feitos à mão e nos arcos em forma de ferradura que ornamentam palácios e riads, revelando como as duas margens do Mediterrâneo compartilham uma mesma poesia estética.
DA CULTURA À MESA
Essa fusão sofisticada também se manifesta com vigor na cena gastronômica e nos pontos de encontro da cidade. A imersão nos rituais do chá ganha contornos de verdadeira tradição na 1112 Eleven Twelve, a primeira e única tea house do país inteiramente dedicada à cultura do chá marroquino. Alojada em um riad do século XVIII restaurado no coração histórico de Marrakesh — em frente à Qubba Almorávida e à Madraça Ben Youssef —, a casa oferece doze cerimônias ancestrais e um museu dedicado a essa herança. Seu nome, inclusive, remete ao ano do calendário islâmico (Hégira) entalhado nos tetos de cedro originais do riad há mais de três séculos.
Perto dali a experiência se eleva a outro clássico inesquecível no lendário Bacha Coffee, situado no palácio Dar el Bacha, onde grãos raros de cafés de todo o planeta são servidos em meio à opulência neoclássica e detalhes em folha de ouro. Recomendo chegar assim que os portões abrirem, pois a fila de espera pode passar de duas horas.
Ao entardecer, a atmosfera cosmopolita encontra seu ápice no charmosíssimo rooftop do hotel El Fenn, ponto de encontro vibrante onde drinques autorais e uma vista espetacular dos telhados da Medina se combinam com arte contemporânea e boa música.
SABORES QUE CONTAM HISTÓRIAS
A gastronomia marroquina é uma celebração de texturas, aromas e cores. Os tajines — cozidos lentamente em panelas de barro cônicas — misturam perfeitamente o salgado e o adocicado, unindo carnes macias a ameixas, amêndoas e açafrão. O cuscuz artesanal, preparado com grãos leves e vegetais frescos, é o símbolo maior da hospitalidade local.
Essa tradição ganha contornos estrelados e contemporâneos em endereços aclamados da cidade, estendendo-se também aos refúgios hoteleiros mais exclusivos:
La Grande Table Marocaine (Royal Mansour Marrakech): Sob a regência de alta gastronomia em um dos hotéis mais espetaculares do mundo, o restaurante reinterpreta clássicos marroquinos com requinte imperial, serviço irretocável e ingredientes nobres.
Dar Moha: Situado na antiga residência do Pacha de Marrakesh, é um marco da haute cuisine marroquina, onde receitas tradicionais ganham releituras refinadas servidas ao redor de um pátio com piscina emoldurada por lanternas.
Inara (Four Seasons Resort Marrakech): Debruçado sobre o cenário deslumbrante das piscinas e dos jardins sombreados por palmeiras, o restaurante principal do resort eleva a culinária local e mediterrânea ao unir ingredientes frescos da região e hortaliças cultivadas localmente sob a batuta de chefs renomados.
The Moroccan (Amanjena): Dentro de um dos hotéis mais elegantes de Marrakesh, o restaurante celebra a fusão de suas culturas mesclando influências berberes, andaluzas e mediterrâneas, em um ambiente que remete a um oásis, com atmosfera autêntica e acolhedora.
E para encerrar as refeições, o tradicional chá de hortelã fresco, servido bem quente em copos de vidro decorados, funciona como um ritual sagrado.
OFICIOS ANCESTRAIS, CURTUME E CESTARIA
Caminhar pelos souks e se aproximar do bairro dos curtumes é testemunhar um saber transmitido por gerações sem perder a essência. Os tanques de pedra repletos de pigmentos naturais — como açafrão para o amarelo, papoula para o vermelho e índigo para o azul — compõem um mosaico impressionante, onde artesãos moldam o couro com técnicas medievais.
Paralelamente a essa tradição rústica, o design marroquino contemporâneo ganha espaço através de iniciativas louváveis como a loja Doum. Especializada em tecelagem e cestaria de fibras naturais com um toque minimalista e elegante, a marca destaca-se não apenas pela beleza estética das peças, mas também pelo seu forte projeto social com a cooperativa Doum For Women, capacitando e remunerando justamente centenas de mulheres artesãs das zonas rurais do Marrocos, unindo empoderamento feminino, sustentabilidade e preservação cultural sob o olhar atento de Samira.
A POESIA DOS KAFTANS E A TRADIÇÃO DAS BABOUCHES
A sofisticação de Marrakesh também se expressa na alta-costura artesanal que atravessa séculos de história
Para completar essa elegância atemporal, surgem as clássicas babouches (belgha) — os tradicionais sapatos em couro macio com calcanhar dobrável. Moldadas e tingidas artesanalmente nos souks da Medina, as babouches variam das versões mais rústicas e minimalistas para o dia a dia aos modelos ricamente bordados e aveludados para celebrações, traduzindo o equilíbrio perfeito entre conforto genuíno e refinamento marroquino.
O RITUAL SAGRADO DO HAMMAN
Imerso na cultura de bem-estar marroquina, o hammam é muito mais do que um tratamento de beleza; trata-se de um ritual de purificação do corpo e do espírito praticado há séculos. O banho a vapor, acompanhado da esfoliação com sabão negro (savon noir) enriquecido com azeite de oliva e seguido da aplicação de argila e óleo de argan puro, limpa a pele e renova as energias. Para vivenciar essa tradição com o máximo de requinte e autenticidade, o hotel La Sultana Marrakech oferece uma das experiências de hammam mais deslumbrantes da cidade. Em um santuário subterrâneo ornamentado com colunas de mármore, iluminação suave por lanternas de bronze e o sutil aroma de água de flor de laranjeira, a jornada de relaxamento no La Sultana traduz perfeitamente a arte de viver marroquina.
TESOUROS DA CIDADE VERMELHA
Explorar Marrakesh exige calma para reverenciar joias arquitetônicas e refúgios botânicos a cada esquina. A jornada começa no icônico Jardim Majorelle, um oásis criado pelo pintor francês Jacques Majorelle e imortalizado por Yves Saint Laurent, onde o tom vibrante de azul cobalto contrasta harmoniosamente com cactos majestosos, bambuzais e palmeiras raras.
A poucos passos, a grandiosidade histórica manifesta-se na Madrassa Ben Youssef, a maior escola islâmica do Norte da África no século XVI, cujos pátios de mármore, azulejos multicoloridos e afrescos em gesso entalhado à mão revelam o ápice do detalhamento mourisco. O percurso segue em direção ao monumental Palácio Bahia, uma joia do século XIX composta por pátios ensolarados e marcenarias minuciosamente pintadas que retratam a opulência da nobreza de outrora, até alcançar a silhueta inconfundível da Mesquita Koutoubia, cujo minarete de 77 metros de altura serve como farol arquitetônico e ponto de referência espiritual. Perder-se pelas ruelas labirínticas da Medina e seus Souks, repletos de lanternas de latão trançadas, tapetes berberes e cerâmicas artesanais, arremata essa caminhada inesquecível pelo coração da cultura marroquina.
O ESPETÁCULO DO PÔR DO SOL NA PRAÇA JEMAA EL-FNA
Conforme o dia se despede, o ponto de encontro inevitável é a icônica praça Jemaa el-Fna. Do alto de um dos terraços panorâmicos, com um chá de hortelã nas mãos, assiste-se à transformação do céu em tons de lilás e dourado. Lá embaixo, a praça ganha vida: contadores de histórias, encantadores de serpentes e fumaças aromáticas das barracas de comida criam um teatro ao ar livre sem igual no mundo. Quando o sol se esconde atrás da Koutoubia, a energia vibrante da noite marroquina toma conta do espaço.
ELEGÂNCIA SENSORIAL DO FOUR SEASONS MARRAKECH
Para quem busca um hotel elegante, que entregue um refúgio de serenidade e requinte a apenas dez minutos da efervescência da Medina, o Four Seasons Resort Marrakech é a pedida perfeita. Assim que se cruza o portal de entrada, os sentidos são imediatamente envolvidos pelo marcante e inconfundível aroma de flor de laranjeira que perfuma suavemente as áreas sociais do hotel. Projetado pelo conceituado escritório Gilles & Boissier, o complexo surge como um santuário urbano de 16 hectares, onde a arquitetura presta uma ode contemporânea às antigas medinas marroquinas: pavilhões em tons de terracota conectam-se por pátios abertos, fontes de água espelhadas e caminhos ladeados por oliveiras centenárias, bougainvilles e palmeiras imperiais.
A experiência nas acomodações traduz essa harmonia entre a herança local e o luxo moderno. Os quartos, suítes e vilas privativas dispõem de terraços ou varandas amplas voltados para os jardins bem-cuidados ou para as silhuetas dramáticas das Montanhas do Atlas ao fundo. No interior, o design sóbrio em tons neutros é enriquecido por detalhes artesanais autênticos — desde luminárias de latão perfurado e marcenaria em madeira treliçada (mashrabiya) até os impecáveis banheiros em mármore equipados com banheiras de imersão e duchas privativas.
No coração do resort, o bem-estar atinge seu ápice em duas piscinas distintas cercadas por espreguiçadeiras e por daybeds. Uma delas é dedicada exclusivamente aos adultos enquanto a outra é ideal para famílias. O spa do hotel é um capítulo à parte na jornada sensorial, oferecendo rituais inspirados nas tradições berberes e no banho hammam autêntico, utilizando óleo de argan puro, argila ghassoul e essências de rosa de Dades.
A hospitalidade impecável e calorosa — marca registrada da propriedade — manifesta-se no cuidado genuíno e nos detalhes personalizados de cada serviço, fazendo com que o hóspede se sinta verdadeiramente acolhido do check-in ao momento da partida. A alta gastronomia completa o cenário com diversidade e sofisticação: no Zest, o ambiente descontraído e elegante convida a saborear pratos asiáticos frescos ao ar livre, o Azzera é prático para uma refeição leve à beira da piscina, enquanto o Quattro foca na cozinha mediterrânea. Já o marroquino Inara é o ponto de encontro perfeito para saborear as iguarias locais clássicas servidos ao redor de fogueiras e espelhos d'água ao entardecer.
DE SIDECAR
Uma das formas mais originais e envolventes de desbravar a cidade é a bordo de um sidecar vintage com guia privativo. Vento no rosto, o passeio percorre caminhos pouco explorados pelos roteiros tradicionais. Inicia nas ruelas da Medina passa pelos portões históricos das antigas muralhas, cruza o charmoso bairro de Gueliz — com seu design vintage e galerias art déco — e explora os palmeirais calmos no entorno da cidade. É um olhar nostálgico, exclusivo e autêntico sobre o passado e o presente de Marrakesh.
ESCAPADAS DA MONTANA AO DESERTO
A apenas uma hora de carro de Marrakesh, cravado nas encostas dramáticas das montanhas Atlas, encontra-se o mítico Kasbah Tamadot. A propriedade de Sir Richard Branson proporciona a oportunidade extraordinária de se hospedar em luxuosas tendas berberes privativas, equipadas com terraços panorâmicos e piscinas aquecidas com vista direta para os vales e picos nevados. Ficar nessas acomodações é uma imersão profunda na cultura do povo Berbere, os habitantes mais antigos do Norte da África, conhecidos por sua lendária hospitalidade, resiliência e tradições ancestrais mantidas vivas na música, na tecelagem de tapetes e na ligação sagrada com as montanhas. O hotel emprega quase exclusivamente moradores dos vilarejos locais, garantindo uma conexão autêntica e emocionante com essa herança milenar.
Nenhuma jornada pelo Marrocos está completa sem vivenciar o deserto. Seja nas dunas do Deserto de Agafay, perfeitas para uma escapada mais curta, ou nas imponentes dunas de Merzouga no Saara, pernoitar em um glamping sob um céu estrelado é uma das vivências mais marcantes que o Marrocos pode proporcionar.
A ARTE DE PERMANECER
Marrakesh não se deixa esquecer; permanece como uma marca indelével na pele e no tempo
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