GRANADA, O SEGREDO MAIS BEM GUARDADO DO CARIBE

Do aroma das especiarias aos alambiques históricos que guardam a memória dos primeiros navegadores europeus, Granada flerta com o intocado. Um convite para mergulhar em águas calmas, de azul potente e descobrir a sofisticação em sua forma mais simples.

O sonho do mar caribenho em sua versão mais intocada.

Fim de tarde em Granada. O sol caribenho começa a baixar e as ruas ganham o tom das gravatas coloridas ao vento. O desfile dos estudantes em uniformes tradicionais, cruzando caminhos moldados pela mão inglesa, é um espelho da história local. Se o trânsito e o vestuário seguem o verniz britânico, a energia desses jovens agora celebra o país que nasceu após a independência de 1974. Um paraíso livre, seguro de si, que exala uma hospitalidade tão natural quanto o perfume de suas ervas aromáticas.


Meninas saindo da escola com seus uniformes caprichados e gravatas ao vento.

Com um território de apenas 344 quilômetros quadrados, Granada se revela, aos poucos, como um segredo muito bem guardado no extremo sul do arco das Pequenas Antilhas. Seu território abrange ainda as ilhas de Carriacou e Petite Martinique, além de outras ilhotas satélites. É vizinha de Trinidad e Tobago (145 km) e da costa da Venezuela (160 km). Essa configuração geográfica “relativamente abrigada” confere ao país um certo privilégio climático. Diferente de outras regiões caribenhas, o risco de furacões é mais baixo, o que não quer dizer que esteja livre deles. O fato é que suas águas mornas oscilam entre deliciosos 26°C e 28°C ao longo do ano todo enquanto os ventos ditam as regras de um verão perpétuo, interrompido apenas pelas chuvas que alegram a vegetação entre julho e novembro.


Ilha de Granada, no extremo sul do arco das Pequenas Antilhas.

QUEM TEMPEROU?

 

Conhecida como "Ilha das Especiarias", Granada tem cheiro de noz-moscada, canela e cravo-da-índia no ar. Para compreender o enredo entre terra e cultura, a visita à uma estação de processamento de noz-moscada é um rito de passagem. Distante da impessoalidade das indústrias modernas, o trabalho artesanal preserva a tradição, e faz uma introdução sensorial a cultura local, cujo epicentro é a capital, St. George's. Ali, a praça se transforma em uma tapeçaria viva de cores, aromas e texturas, onde a fruta-pão e uma variedade de produtos dão vida à gastronomia.


Noz-moscada de Granada.

Especiarias no mercado de St. George's.

St. George's, por sinal, disputa o título de capital mais cenográfica do Caribe. Erguida ao redor de uma caldeira vulcânica submersa que hoje abriga o porto de Carenage, a cidade mostra um casario georgiano que testemunha as disputas históricas entre franceses e britânicos pelo controle do comércio de açúcar e especiarias. Vigiada do alto pelas muralhas do Forte George, a capital convida a boas caminhadas. Numa delas me deparei com o Túnel Sendall. Uma obra de pouco mais de 100 metros, inaugurada em 1894 para servir como passagem para carruagens e que hoje proporciona uma experiência peculiar aos pedestres que ousam atravessar a pé, espremidos rente às paredes de pedra, dividindo o espaço com os carros. Vencido o frio na barriga chega-se à emblemática Rua Young, onde a Casa do Chocolate conta sobre a produção de cacau da ilha.


Túnel Sendall. Encara a travessia junto com os carros?

A mesma inventividade culinária se reflete no prato nacional, o Oil Down. Este ensopado, que serve de pretexto para celebrações comunitárias, é uma metáfora comestível da própria história granadina. Camadas de fruta-pão, legumes, folhas de calalu, frango, rabo de porco, quiabo e rolinhos de farinha (tipo um nhoque antes de ser cortado) são cozidas lentamente em leite de coco fresco infusionado com açafrão e especiarias. O nome do prato deriva do processo de cozimento, pois o líquido reduz até que apenas o óleo do coco permaneça no fundo da panela, conferindo um sabor único. É a Jamaica com seu jerk, a Bahia com seu dendê, e Granada com seu Oil Down. Eis a diáspora africana reinterpretando os ingredientes disponíveis com genialidade.


O prato típico de Granada, Oil Down. 

 ENTRE O MAR E A MONTANHA

 

Se a cultura ferve nas panelas e nos mercados, a natureza molda o cenário com contornos dramáticos. No coração da ilha, o Parque Nacional Grand Etang protege um ecossistema de floresta tropical dominado por picos que ultrapassam os 700 metros de altitude. O centro das atenções é o lago que ocupa a cratera de um vulcão extinto. Caminhar por suas trilhas, sob a copa de árvores, tendo a companhia dos macacos-mona, é se deparar com uma sucessão de quedas d'água. Enquanto as Cataratas Sete Irmãs exigem uma caminhada mais vigorosa, a Cachoeira Annandale tem acesso quase imediato. Escondida em um anfiteatro natural de samambaias gigantes, a queda de nove metros deságua em uma piscina cor de esmeralda.


Parque Nacional Grand Etang e os macacos-mona. (Foto divulgação Silversands)

O respeito ao tempo também é o pilar da produção do rum na ilha. Na River Antoine Estate, a sensação é de retroceder ao ano de 1785. É a destilaria mais antiga em funcionamento contínuo no Caribe a utilizar uma roda d'água para amassar a cana-de-açúcar. O processo de fermentação natural e a destilação em alambiques de cobre geram uma bebida rústica, de alta graduação alcoólica, que se mantém fiel ao paladar dos primeiros colonizadores que chegaram por estas latitudes.

 

Na transição do interior montanhoso para o litoral, Granada revela sua faceta mais célebre. Com mais de 40 praias, Grand Anse materializa o sonho caribenho em uma praia de três quilômetros de areia branquinha, acompanhada por amendoeiras e palmeiras que projetam sombras sobre o mar azul-turquesa. A ausência de ondas fortes transforma esta baía em uma “grande piscina”, onde a hotelaria de alto padrão convive harmoniosamente com pequenos bares de praia e mercados.


Grand Anse, uma das praias mais bonitas de Granada.

É nesse mar que se esconde um dos tesouros contemporâneos da ilha. Na Área Marinha Protegida de Molinere Beauséjour, encontra-se o Parque de Esculturas Subaquáticas, idealizado pelo artista Jason deCaires Taylor. Reconhecido pela National Geographic como uma das maravilhas do mundo, o projeto consiste em dezenas de figuras humanas em tamanho real, moldadas em cimento de pH neutro. Com o passar dos anos, as esculturas foram colonizadas por corais, transformando a arte em um recife artificial cheio de vida. 


Vicissitudes, Granada.

BEM-VIVER GRANADA

 

Para acolher os visitantes que buscam vivenciar essa mistura de autenticidade e sofisticação, Granada entrega uma bela hotelaria.

 

O pioneirismo e a tradição familiar encontram seu ápice no Spice Island Beach Resort. Nascido em 1961, pelas mãos visionárias de Sir Royston Hopkin - uma lenda da hotelaria caribenha -, o refúgio começou como um sonho boutique e atravessou décadas moldando o conceito de hospitalidade da ilha. Hoje, esse incrível legado histórico é mantido vivo por sua filha mais nova, Janelle Hopkin, que assumiu o comando da propriedade preservando a essência acolhedora do pai, mas imprimindo um olhar contemporâneo e atento aos novos tempos. Posicionado estrategicamente nas areias de Grand Anse, este clássico opera sob o sistema all-inclusive. Suas villas oferecem total privacidade, muitas delas com piscinas exclusivas. O serviço impecável e o ambiente acolhedor fazem com que o hóspede se sinta parte dessa grande família. À noite, o jantar no restaurante Oliver combina técnicas da alta gastronomia com os sabores da culinária crioula, criando uma experiência memorável.


Spice Island Beach Resort, um clássico em Granada.

Para aqueles que buscam uma estética minimalista e um design mais arrojado, o novíssimo Silversands redefine as expectativas. Situado também em Grand Anse, o hotel impressiona pela arquitetura de linhas retas e simetria perfeita, cujo eixo central é uma piscina linear de 100 metros de comprimento - a maior do Caribe -, que parece conectada com a linha do horizonte. Os interiores utilizam uma paleta de cores neutras, madeiras claras e automação de ponta, atraindo um público exigente que valoriza a sofisticação discreta, a arte e a exclusividade. Essa mesma assinatura de vanguarda estende-se à gastronomia do resort, onde excelentes restaurantes celebram o encontro de ingredientes caribenhos sazonais com técnicas refinadas. O empreendimento reflete o momento de ascensão do grupo egípcio por trás da marca, comandado pelo bilionário Naguib Sawiris, que fincou bandeira de vez em Granada. Prova disso é o Silversands Beach House, o outro projeto do grupo na mesma ilha; uma proposta mais intimista situada em um penhasco próximo, que complementa o portfólio de ultraluxo do grupo no destino.


O novo hotel Silversands, na praia de Grand Anse, em Granada.

Por fim, o Six Senses Grenada traz para o Caribe a filosofia de bem-estar integral e sustentabilidade que consagrou a marca ao redor do mundo. Localizado em uma península isolada na costa sul da ilha, a propriedade distribui suas vilas espaçosas entre colinas e praias que parecem saídas de um livro. Sua distância dos pontos mais movimentados da ilha, garante uma paz absoluta (no entanto, o hotel oferece transporte regular até a capital – em 30 minutos - facilitando o vaivém de quem deseja circular). O foco do resort reside no equilíbrio, perceptível desde o spa até os restaurantes que seguem os conceitos farm-to-tableocean-to-table, com ingredientes colhidos na horta orgânica ou trazidos por pescadores locais. Vale aqui um registro prático: por estar em uma área mais selvagem, eventualmente as correntes marítimas trazem sargaço (seaweed) até as praias do hotel, impossibilitando o banho de mar por alguns dias, uma contingência da própria natureza que presenciei durante minha estadia, mas que é amplamente compensada pelas piscinas privativas e pelo conforto das acomodações. O Six Senses é o refúgio ideal para quem busca viver dias de tranquilidade.


Six Senses La Sagesse, um oásis em Granada.

ENFIM


Granada é um destino multifacetado, num canto intocado do Caribe. É a ilha que preserva o uniforme escolar impecável de suas crianças, a tradição secular de seus alambiques e a força de uma culinária ancestral, enquanto abre as portas para uma das hotelarias mais sofisticadas do Caribe. Um destino que não precisa se esforçar para entregar bem-estar; basta o perfume das especiarias, o compasso desacelerado, o contato estreito com a natureza e a transparência de suas águas.


Granada é um tesouro escondidinho no Caribe.

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